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Afonso Sauniére
Erotografomania
         
         Quando eu saio assim na chuva pra caminhar, até tento te sentir nos pingos que escorrem do meu rosto. Mas parece meio inútil toda essa caminhada e pensamento que quase nunca leva a nada, exceto à uma tristeza mórbida, porém não letal. Eu volto pra casa e fico vendo da janela o céu desabar e derreter em águas que fugirão pra algum lugar. E eu lembro da chuva que a gente nunca tomou junto. Lembro da briga que a gente nunca resolveu, do disco que a gente nunca ouviu e das ruas por onde nunca caminhamos. O vento, suficiente apenas para balançar o cabelo, é demasiado pouco pra quebrar a janela e me fazer fechar os olhos. Porque se eu fecho os olhos por conta própria, meu mundo vai direto pro teu e nem sequer pensa em voltar. Na realidade, eu só queria uma notícia tua, um sinal de vida, um aval de que o tempo ainda não me apagou aí de dentro. E eu também podia confessar um milhão de coisas nessas minhas cartas. Eu podia te mostrar em desenhos e gráficos a constância do teu nome em cada pedaço do meu âmago; eu podia explicar a relação entre os meus olhos e os teus, provando por A+B que nada me é tão elétrico quanto os sons da tua voz. Eu podia confessar que te ter ao telefone é como ver o tempo parar e que, na hora de dizer adeus, o choque da realidade seguinte é doloroso. Meu dedo e o botão de desligar se repelem como se tivessem pólos iguais, mas é tudo vontade do eterno, de continuar te ouvindo. A gente tem essa mania de eterno, de querer que tudo dure mais tempo do que na realidade é pra durar. Eu...
         Eu só queria saber se teu olhar ainda se fixa no céu, se tua lembrança de mim ainda mexe em alguns nervos. Na verdade, confessar é se expor ao extremo. Sabe aquela ave que constrói um ninho enorme na árvore de galhos secos e tronco longo? Confessar é aquele ninho com os ovos expostos lá em cima aos gaviões. Mas confesso que muitas confissões são apropriadas, embora eu quase nunca saiba discernir quais são. As cartas são só confissões e minhas confissões são mais baratas que batata no camelô de centro baiano. Confesso, no entanto, que de todas as cartas que já escrevi, ainda tenho uns quatro dicionários pra te contar.
 
 
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Afonso Sauniére
Ana

Ana gostava de preto.
Com um lenço enxugava o pranto.
Já pronta pra o prato quente
Disse pra o meu primeiro espanto:
"A praia promete vida.
Vida paira em qualquer canto."
"Pronto", disse eu, "pensativa
em pormenores pra não dizer, portanto,
que o prazer em prosear
parecia nela um tanto
quanto prático que prezar
pela espera de algum manto."

Ana parava pra pedir
proteção num velho abrigo.
Prolongava a própria arte
pra não parecer castigo,
provando em paráfrases provisórias
pensamentos privativos.
Me disse Ana pressentindo
polegadas de perigo:
"O pensamento periódico
por hora é meu melhor amigo.
Portanto, prove a primavera
prover a paz de Deus comigo."

Parei pra falar: "Ana,
Deus não priva teu problema.
Pare a poesia pra pegar
pesado e se livrar do dilema.
Pense positivo e pule.
Passe por cima do teorema.
Pois pra prever a perversidade,
é preciso parecer paciente, morena."
Ana disse: "Pra mim não dá. Prefiro perecer
nas palavras precoces do meu lema."
Um dia por parques petrificados, Ana,
penetrante, padeceu da ponte e só deixou um poema.

 

 
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Afonso Sauniére
Lugarzinho meu

 

Há um lugar aqui que inspira a reverência do teu nome e, apesar de você não o conhecer, é quase como te olhar e ver teus traços nas sombras refletidas no chão. Parece que a vida já não se contenta em tudo que me lembra você e ainda me mostra esse espaçozinho de concreto e madeira como se fosse indicado pra conter um pouco a minha saudade.

 

É uma pracinha pequena num lugar isolado da cidade com seus cinco ou seis bancos, mas com um em especial virado pra onde nasce a lua. Um pedacinho de chão meio triangular com umas poucas árvores altas, um gramado bem descuidado e inúmeras folhas secas peregrinando na calçada. Falando assim pode não parecer, mas é lindo. Talvez não pra maioria das pessoas, talvez não comparado aos oásis da Líbia, porém, lindo, da sua maneira. E sua beleza é mais realçada ainda nas manhãs de domingo e principalmente ao anoitecer. Fica lá com os galhos secos pintando um cenário indescritível, tendo como cúmplice um avião passando ao longe e a lua parcialmente coberta por uma ou duas nuvens. Claro, tinha que envolver a lua. É ainda ligeiramente iluminada por duas luzinhas incandescentes e ostenta em uma das pontas uma placa de sinalização escrita ‘pare’. Um lugarzinho com aquele gosto de poesia que você sempre deixou.

 

De início eu nem entendia o porquê daquilo tudo me lembrar justo você. O porquê de coisas tão obsoletas vagarem no meu inconsciente e trazerem à tona a tua companhia. Mas aos poucos a razão foi clareando lucidamente e eu ainda caminho por lá quase que diariamente lembrando cada detalhe teu que faz falta. Bom, pelo menos eu sinto que cumpro um pouco com minha cota diária de você. E, até hoje é o que me deixa mais próximo de sentir o vento como um beijo teu.

 

Eu percebi que aquelas poucas árvores altas numa pracinha tão miúda me lembram você porque, apesar de ser tão pequena a ponto de caber nos meus braços, tuas virtudes ultrapassam a avenida e, ainda que você não se veja tão inestimável como eu vejo, você é maior do que o que eu sinto e ainda maior do que o recinto mais recôndito e exacerbado do planeta. Também percebi que aquelas folhas secas e amarelas voando pra todo lado, ainda algumas estáticas e ainda outras livres como balão me lembram a tua inconstância que eu sempre gostei. Me lembram o teu jeito às vezes imprevisível, às vezes quase certo e sem dúvida nenhuma a tua vontade de voar livre de toda a letargia do mundo.  Percebi que aquele gramado descuidado remetia a você pela tua necessidade de ser cuidada, de ter um carinho aconchegante pra se sentir protegida, de ter um ouvido companheiro pra se sentir aliviada e de ter alguém disposto que possa te servir como segurança nos momentos mais aflitivos e que, mesmo que talvez nem tivesse essa necessidade, eu quero tanto ser esse alguém pra te cuidar que lembro de você como sendo o meu vaso que é tão valioso, mas também frágil.  Percebi que aquele banco solitário virado pro nordeste me lembra você porque quando eu me sento nele nas noites de frio ouvindo o silêncio e olhando pro firmamento, não há nada que eu queira mais do que tua companhia segurando minha mão, sentada ali do meu lado e falando bobagens pra gente rir o tempo todo como antigamente, antes dessa distância maldita. E nesse lugar eu te sinto tão mais perto como um velejador que sente a brisa do mar sem poder mergulhar até as profundezas. Percebi, por fim, que até aquela placa escrita ‘pare’ me lembra você. Me lembra quando eu cheguei batendo na porta da tua vida e você até hesitou em abrir, mas eu pulei a janela e você nem percebeu. E de tão amoroso que é teu coração, nem se incomodou de me ter lá dentro e de invadir a tua casa e de invadir o teu espaço.

 

E eu só espero te ter em breve sem toda essa agonia de circunstâncias indevidas que me pungem afiadamente. Espero como transeunte que não vê a hora de chegar em casa em meio à tempestade e encontrar o seu porto seguro. Porque mais importante que estar em casa é se sentir em casa. E quanto àquele pedaço meu que eu deixei por aí, só cuida bem dele e, por favor, não devolve. Até hoje ninguém mostrou tanto zelo como o teu. 

 

 
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Afonso Sauniére
Cicatriz

Minha tristeza é muito cega
pra se libertar assim.
É difusa em garrafas cheias.
E mais ainda o estrago
que eu fiz derramando lágrimas
dos teus doces olhos acesos.
E me dói ter errado assim
contra teu seio prestativo.
Mas tanto lamentei ter destoado
e tanto que te vejo paciente
que mais ainda move meus pés.
Os pés que te seguem e que
às vezes, ainda desviam da reta.
Há, no entanto, também certezas na vida
que movem moinhos dentro da cabeça.
As certezas que me trazem os afetos
e que tranquilizam meus nervos.
A certeza de que aí dentro cicatriza
e até desaparece a mágoa que eu deixei.
Certeza da tua mão segurando a minha
em cada instante maldito e taciturno
que eu ainda estiver saindo da estrada.
De como me faz querer ser melhor
até nas noites mais sombrias
dessa cidade desordeira.
A certeza da paz que tive
vendo tua afabilidade
nos instantes, nas estantes
e até estandartes deviam ostentar
tanto que tu é e sabe ser.
E de tanto que aprendi,
vi que teu peito é como asa de borboleta.
Às vezes, a gente machuca sem querer.

 

 
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Afonso Sauniére
Comunicação não verbal

(Crônica de Graziela Leite)

Desde que chegou aqui ela não mudou muito, embora tenha observado certa evolução. Como sempre, ela apenas vivia olhando para o vago horizonte. Ninguém sabe ao certo o que se passava em sua mente. Um olhar distante, imenso, como se ela estivesse aprisionada aos seus pensamentos. Repetia sempre o mesmo movimento o dia todo. Seu olhar distante sentada no canto do quarto, movimentando-se para frente e para trás. Clarice (era o nome dela), não se comunicava com ninguém, não se aproximava, ao menos permitia a aproximação de outros.

Sempre tivemos nossas dúvidas com relação a ela, era do tipo de paciente que nunca sabíamos a hora exata de nos aproximarmos. Nunca falava, se quer respondia a nossas perguntas. Sua vida era um verdadeiro mistério, ela era um verdadeiro mistério. Não se sabia absolutamente nada sobre ela. Salvo que havia um número de telefone na sua roupa, obviamente tentamos contato com este número. Era de uma mulher que na verdade dizia ser uma cliente de Clarice. Descobrimos que Clarice era uma advogada muito conceituada. No entanto em relação a sua família ela já não sabia informar.

Clarice chegou aqui suja, uma pobre alma atormentada. A única coisa que dizia era seu nome repetidas e repetidas vezes. A acolhemos e fizemos sua análise, ela então foi diagnosticada com Esquizofrenia. Todas as vezes que cheguei perto de Clarice percebia que ela escondia uma profunda tristeza e, é claro, rejeição. Levou tempo para que ela permitisse que alguém chegasse perto. Ela chegou muito machucada. Seu corpo apresentava indícios de ter sido violentada, talvez isso explicasse sua rejeição mediante a aproximação de todos. Foi um processo longo e difícil. Todas as vezes que tentei aproximação ela sempre se afastava como se fugisse de mim. Sempre tentei fazer com que ela respondesse às minhas perguntas, mas nunca dizia nada, nenhum gesto afirmativo ou negativo.

Sabíamos que saber sobre sua vida seria essencial para seu tratamento, mas não tínhamos como. Dias se passaram e começamos a perceber que uma mulher observava Clarice (as vezes que ela se permitia sair). Então, em um determinado dia lhes perguntei por que a observava tanto. Logo respondeu que a havia conhecido e contou-me a história de Clarice. Disse que ela de fato era advogada, era casada e seu sonho era ter um filho, porém, sem saber as razões, seu marido não queria. Ainda assim ela engravidou e logo abortou o filho que tanto queria, espontaneamente, após uma briga com marido, logo quando anunciou sua gravidez. Então se divorciou. Com relação aos outros parentes, Clarice não se comunicava com eles, não tinha um bom relacionamento. Acabou se trancando em um apartamento e, não se permitindo mais trabalhar, acabou com todas suas economias. Despejada, sem ter onde morar vagou pelas ruas. Terminou dizendo que soube de Clarice depois que ela estava aqui no hospital, por acaso a viu quando passou por aqui. Agradeci por tudo que contou e, em seguida, foi embora.

Logo em seguida, fui até Clarice. Tentei perguntar sobre sua vida novamente. Dessa vez apresentava-se ainda mais inquieta. Não queria ouvir. Foi quando então falei do seu filho. Ela olhou profundamente para mim. Percebi que Clarice se lembrava de sua vida. Mas sua dor não deixava que ela falasse sobre esta. Depois que falei, seu olhar e sua expressão de sofrimento pairavam sobre mim. Senti que toquei na sua profunda ferida. Então a abracei. Pela primeira vez, ela permitiu uma aproximação de fato concreta e afetiva. Não podia dizer mais nada, pois aquele momento já falava por si só. Aquele olhar de Clarice entregou toda sua história, toda sua vida, que tantas outras vezes não pude perceber. O toque daquele abraço junto com sofrimento dela ressentido há tanto tempo, me fez perceber que não precisava de muito para quebrar aquela barreira posta a nós.

Nem é preciso dizer que após aquele dia nunca mais fui a mesma. Clarice voltou a falar, poderia até dizer que reaprendeu, fez seções com fonoaudiólogo. Mas enquanto adaptava-se a falar, novamente e normalmente como antes, escrevia. Infelizmente não posso dizer que se recuperou totalmente da patologia, porém houve um grande avanço, pois já não apresentava mais quadros de alucinações ou delírios. Já era possível comunicar-se melhor. Certa vez ela me mostrou uma frase que dizia: “Permiti-me, um dia, me aprisionar na insanidade, para fugir da dor”.

 
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Afonso Sauniére
Plágio musical de Drummond

Dó amava Ré que amava Mi
que amava Fá que amava Sol que amava Lá
que não amava ninguém.
Dó foi para decadência, Ré subiu meio tom,
Mi morreu de acidente, Fá ficou para fermata,
Sol suicidou-se e Lá casou com Si Bemol Menor com a Sétima Aumentada
que não tinha entrado na história.

 

 
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Afonso Sauniére
Rebentação

Num solo profundo de argila
eu enterrei meus pecados.
Na rara aurora que no outono
não se via o chão de folhas.
Enterrei à sete palmos o que fiquei de falar.
Enterrei também o que falei
e dispensei o lamento.
Mas como lamento essa minha mania.
Antes taquicardia que a louca euforia
de jogar com saliva as palavras da ponta.
E, meu Deus, como eu sei jogar!
Quisera eu a paz de não ter tanto a dizer.
Quisera eu omitir na descarada casualidade,
de comer o silêncio à garfo,
de saber pensar mais baixo
e não gritar aos quatro cantos
como joão-de-barro alegre.
E tenho, no entanto, um raio de esperança
de que um dia me abandone o soro da verdade
injetado em minhas veias sem minha permissão
e que minhas hemácias transportem menos gritos.
Que não estourem, os gritos, como bolhas de sabão
no meu pequeno corpo desfigurado.
Mas, se for pra arrebentar,
antes de dentro pra fora
que de fora pra dentro.
Ou, pelo menos, o drama fica sendo só meu.

 

 
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Afonso Sauniére
Carpe diem

Lembra do dia de jangada,
aquele de vento na testa?
Se lembra da vez das estrelas,
aquela das mãos suadas?
É que eu tenho retido sempre
nos fragmentos matinais,
que eu tenho lembrado da vida,
que eu tenho visto os sinais
de que fiz tudo, menos morrer.
Porque a morte aqui é desvinculada de sentir.
E se eu sinto teu nome no ar,
é por viver de dentro pra fora.
Se eu sinto o poema beijar
e sinto a ânsia de um dia transcender,
pode apostar que a vida é mais do que amar.
A vida é mais do que sofrer.

 

 
 
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Afonso Sauniére
Bagunça de afetos

A cidade é minha, mas é muito pequena.
O país é meu, mas é muito distante.
E até a noite me pertence.
Mas é vazia.
É tudo oco, exagerado.
O café é frio, exacerbado.
E também tem o silêncio
que nunca é bom quando tu não tá.
Me viola como enchente notória
em dia cinza de domingo
levando cada pedaço de paz.
É tudo exagero, mas é sentido,
que quando se gosta, a hipérbole é lei.
O eufemismo é que passa longe
nessa bagunça afetiva de gente insana.
Mas eu queria te falar, meu bem,
te cuspir umas verdades minhas.
Que nada disso é tão bacana.
Que a tristeza só é bonita em poesia.
Que a vontade é maior do que o pacífico
e essa falta me rouba a delícia de te ter.
Dizer que tua ausência é o maior pecado
desde a inquisição na idade média.
Que a tua voz é a cadência
de uma análise transcendental.
E se pra mim é indizível a harmonia
de "for the love of God" por Steve,
teus intervalos sonantes embaciam
a delicadeza dessa sinfonia.
Mas se eu escrevo é pra não ter que dizer.
Talvez ser covarde e não ter que encarar
tuas retinas transparentes e profundas.
Talvez pela razão de já ter abusado do ridículo,
porque quando se gosta, o ridículo também é lei.
A não ser que ele persiga só a mim.
E eu vou ficando com a tua falta,
com o silêncio, com o ridículo
e te sequestro ridiculamente
em meus pensamentos mais absurdos.

 

 
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Afonso Sauniére
Arcabouço de um abraço

O abraço é a aspirina da solidão
com seus tentáculos mirabolantes
oscilando entre o ataque e a defesa.
Parece um anjo de asas longas
que mede o teu cansaço
e alivia cada pedaço de impureza
que se dissolve no corpo.

O abraço cheio é divino.

Que das gordinhas eu prefiro,
nunca saiu no jornal
mas até o padeiro sabe.
Quando os braços cercam a carne
mas sobra espaço pra apertar.
E sobra querendo conter
como poeta louco que só sossega
quando descarrega tudo no papel.

O abraço assim de tanta pele
dá gosto de infinito com travesseiro.
A vontade é de apalpar tudo
mesmo sem conseguir dar conta.
É uma viagem longa só de ida
pra ilha de Tristan da Cunha.
O peito descansa como um gato
com a preguiça em cima do dono.

O abraço magro é delicado.

É um vaso que se segura com cuidado
e, mesmo que agarre, falta espaço.
Falta porque os braços se encontram
como se tomasse um caminho diferente
e fosse acabar no mesmo lugar.
É acalentar no peito o rosto doce
com o cuidado de bebê faminto.

O abraço assim de pouca pele
dá gosto de fragilidade com consumo.
A vontade é de puxar rente ao corpo
como se fosse entrar um no outro,
como se tudo fosse fugaz,
como se tudo fosse abstrato e,
no final, o que fica é mais vontade
como missão não cumprida.

Sim, o abraço cheio é divino,
mas é que eu encontrei
em braços magros e em pele pouca
O lugar mais confortável do planeta.
E se o mundo descobre o poder que ela tem
com esse acariciar de neve,
será mais requisitada
que a paz em meio à guerra.

 

 
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