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Afonso Sauniére
Tanto a declarar

Quem me dera que os anúncios de liquidação
fossem astros luminosos à vista
e a prazo fosse o tempo que me resta pra dizer
tudo que se entope na garganta.
Tudo que é preciso e, precisamente, não digo
esperando o segundo ato com medo do epílogo.
Já vi que há certas orações que, se não ditas,
o miocárdio sangra até morrer.
Conclusivamente, me declaro
sem tanto a declarar.
É que tem gente que me desassossega
com a fala tanta e leve,
com o gosto bom do mundo.
O gosto que Drummond sentiu.
O gosto que matou Romeu.
Que tanto roga em mim
o doce que o amargo faz
quando eu olho fundo.
Essa gente que deixa um som desafinado,
que inventa as cores de um abril chuvoso
e tudo ouve e tudo vê.
E eu vou contra a poesia
sem hipérbole nem clichê.
Nem vou me anunciar perdido
como se não vivesse sem ela.
Mas o sol ainda nasce naquela brecha
e ainda cabe entre nós dois.
Ainda tem aquele beija-flor no quintal
que tanto enfeitava a tarde.
Ainda tem o vento soprando forte
e eu ainda subo pra ver da janela.
Mesmo assim, eu não disse nada.
É que já são 3 da madrugada
e eu ainda fico pensando nela.

 

 
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Afonso Sauniére
O roubo é culpa do acaso

Uma vez me perguntaram se eu já tinha roubado alguém. De alguma maneira, pensei logo que houvesse mais de um sentido envolvido na resposta e pedi mais especificidade. Ela queria saber não se eu já tinha roubado algo de alguém, mas se eu já tinha roubado alguém de si mesmo. É quando você sente roçar na pele um furacão que se demora a entender. Quando perde o senso da normalidade e se joga tão profundamente no abismo que mal vê o chão chegando mais perto e, quando vê, já caiu. Quando já levaram aquilo que tu era e trouxeram cacos coloridos de paz e tormento, desassossegando a alma como vira-lata barulhento que tira o sono na madrugada. Eu respondi que não, nunca, na modéstia que eu quase nunca apresento e quase nunca me visita. Porque é preciso ter muita garra pra roubar, ter muita coragem, ousadia e pairar no ar como uma música que toca mesmo quando não quer. Eu nunca fui de roubar ou talvez tenha feito isso uma vez. Na realidade, é mais qualificado como furto do que roubo, uma vez que suavemente a pessoa chega, devagar, entra sem avisar e leva a teu drama de estar só. Já o roubo é violento e ameaçador, desprovido de sutilezas e cordialidades. Amordaça a vítima sem delongas que mal quer, mas quer e, de repente, acaba numa venda irrefletida sem o valor merecido.

                Ao passo, porém, que respondi se eu já tinha roubado, fiquei pensando se já haviam me roubado. De início pensei que sim, talvez uma ou duas vezes. Teve aquela que sempre deitava comigo pra ver as estrelas e eu a enchia dos clichês que eu guardo como colecionador, ou como babaca, dependendo do ponto de vista. Uma vez numa noite de lua cheia, quando ela percebeu que eu fitava mais aquele círculo dourado do que ela mesma, me perguntou se eu gostava mesmo de olhar pra lua. Eu disse: “é como se as estrelas fossem todas as mulheres do mundo e a lua fosse você”. Na sua infinita inocência, disse que tinha sido a coisa mais bonita já dita pra ela. Eu bem que venerava o cheiro da noite no seu colo com o escuro como aliado. Mas pouco a pouco ela foi perdendo o brilho de luar e refluindo na sua imensidão. Hoje é só mais um astro luminoso como todos os outros. É até bonito de se ver, com uma exclusividade, porém, questionável.

                A parte louca é que nunca se sabe se é bom ou ruim ser roubado, sendo o coração traiçoeiro fundado num corpo sentimental carregando os tons do mundo nas costas. Mas sempre tem aquele anjo torto que te faz tirar os pés do chão e olhar bem pra o que não se viu ainda. Ainda mais quando não se espera a falta que faz as palavras faladas de certos lábios finos, a falta que faz o abrir doce de certo sorriso e certas teorias – as mais infundadas e mais divertidas possíveis. É só obra do acaso se comportando indiscretamente. Dia desses, a minha vizinha de quatro anos, que por sinal passa muito tempo na minha casa, me encarou por um bom tempo e perguntou se eu estava apaixonado. Extremamente surpreso pela indagação súbita, mas ao mesmo tempo achando escandalosamente fofa aquela pergunta de uma menininha que eu vi nascer, eu questionei na hora o motivo de ela me perguntar sobre isso. Ela disse, como se já tivesse uma resposta ensaiada: “é que você fica rindo o tempo todo pelos cantos que nem bobo”. É estranho como as crianças hoje se conectam à realidade com muito mais acessibilidade. E mais estranho foi ter a certeza da qual eu apresentava muitas desconfianças, de que eu havia sido roubado.

 

 
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Afonso Sauniére
Só gente babaca escreve
Meu irmão escreve pra espantar fantasmas.
Minha amiga escreve por que vive de amores.
Meu primo nunca pega no lápis, fala tudo no computador.
Minha vizinha mal aprendeu a ler, se lambuza no diário.
E todo mundo bate na cara das palavras com a pontuação.
Sangra e transborda aquele amontoado de dedicação
à mentira que o coração inventa
ou à história que a canção lamenta.

É só gente babaca que escreve.
Que não suporta as vozes petulantes,
que migram da cabeça pra o papel,
que vão além do relevo da alma,
que transpassa o perigo de viver.

Como se não bastasse a babaquice,
vem a dor de dente mendigando atenção.
Como se tudo isso não fosse só um pedido de atenção!

Aí escrevem pra espantar fantasmas.
Escrevem por que vivem de amores.
Fazem prognósticos por via das dúvidas
e toda essa amálgama é alforria.

Aí eu escrevo, você não gosta e ninguém liga.
Por que talvez essas ideias loucas
que pungem as artérias, matem o bandidos
que apontam a arma pra têmpora suada.
Talvez o verso seja tão lacônico
que transforme a poesia em arames farpados.
Mas é também tão gostosa como um café de tarde
e silêncio de manhã.

A conclusão, tudo sendo consumado,
é que eu escrevo, você não gosta, ninguém liga,
todos são babacas e, principalmente eu,
que não suporto retardados dialogando aqui dentro.
 
 
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Afonso Sauniére
Quarto liquidificado

Era um mar de delicadezas
dentro de um quarto na chuva.
Era um desgosto bonito
num centro com a rosa murcha.
Era cinzento o jeito que caía,
o jeito que escorria os pingos,
o jeito que eu olhava da janela.
Era uma alma deserta
que diluía o remorso das palavras.
Era contada a paciência do relógio.
Era um distúrbio esdrúxulo na minha retina.
Era um poço raso onde eu guardava
tuas frases. Algumas pra relembrar, talvez,
nessas horas de idoso tetraplégico.
Tinha um xadrez que movia
do canto pro meio.
Tinha uns livros na mesa
e todos com um cheiro teu
de amêndoa doce.
Tinha um piano que me acompanhava
mas só tocava deitado no vento.
Tinha lá na parede escura
um desenho do meu disco favorito.
Tinha um escrevinhador de garagem.
Tinha a dança de um par de grilos.
Tinha um verso torno num caderno aberto
com a tua caligrafia antiga.
Tinha um silêncio alheio
disputando espaço.
Tinha tua careta na moldura.
Tinha um origami que tu guardou
na estante, mas era meio vazio
como se faltasse uma dobra.
Tinha um vinho barato e uma bala de menta,
e tinha tanta presença
que tudo era ausência
da tua mão fria na minha
e eu mal podia esperar pelo amanhã

 
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Afonso Sauniére
À meia luz

Pode confessar que você ama
esse efeito de vinho no sangue,
essa baba escorrendo na boca,
o mamilo duro feito pedra,
esse cabelo embaraçado,
a água salgada que escorre dos poros.

Confessa que ama essa hora do dia,
o escuro chamando pra zona de decisão,
a pia repleta de louça suja,
a parede amarelada na meia luz,
o hábito de esquecer a porta aberta,
o livro do lado pra espiar.

Confessa que morre por essa rotina,
que grita pela minha mão,
que briga pelo chocolate,
que chora por uma mordida,
que jura pureza visceral
e treme de medo de borboleta.

Confessa que gosta da casa,
de qualquer lugar entre as paredes,
de ser perscrutada na mesa, na pia,
no chão, no sofá, na biblioteca,
da euforia no fim da noite
e do queijo que engana a fome.

Confessa que me aprendeu sem dar razão,
que insiste em suscitar meu delírio hipnótico,
que me aterra de manhã e me esfaqueia de noite,
que morre, mata, sangra e despenca
por uma gota de orvalho que brota
debaixo do umbigo.
Por carne, unha, dentes e pelos
compenetradamente movidos por
insetos pegajosos de movimentos
repetidos na insanidade do escuro.
 

 
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Afonso Sauniére
Saudade pós moderna

Nessa incontestável era pós-moderna
de insetos rodeadores de luz,
quem sou eu quando páro
quando sarro o meu violão?
Quando a tropa maior que a de Roma
invade e saqueia mente pobre
em amargura doce e leve.
E bem que eu podia ter
uma máquina de escrever
pra expulsar assim de noite
esses poetas de computador.
Ou pelo menos expulsar uma menina
que metodicamente passa por aqui
sempre essa hora, sempre exclusiva.
E bem que eu podia assim de madrugada
rasgar o silêncio com as teclas de ferro,
fazer um chá pra tua inteira pessoa
e tomar sozinho, que nada é pra agora
e nada é tão racional como solidão.
E saudade é tanta,
é morna, é velha
é rouca, é bronca.
Tem jornada longa em sinapses tantas
que mistura cachaça com ácido clorídrico
E só tem uma ideia jogada no ar.
Talvez nem o pai da psicanálise
nem doutor, nem filósofo,
nem o mestre da mente
cure a moléstia de estar só assim
como louco desvairado
em estado alavancado
de uma rosa sem jardim.
Nem se mistura palavras
em potes de leite em pó,
nem se mistura paixão
em noites de lua só.
É decreto, portanto,
que em meio à tanta saudade
jogue tudo em datilografia.
Pois antes tarde do que nunca.
Antes arte do que eu
 

 
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Afonso Sauniére
Marco territorial

Minha pose de discórdia
já marca o território
na barriga fina,
no umbigo fundo.
Sente asco à concorrência,
sente medo da perda.
Sinto muito, mas sinto tanto
que tua ausência
é um tanto quanto melindrosa,
pra não dizer que a falta em mim
é bem mais do que tu.
Minha pose de discórdia
já marca território
no teu quadril e na boca torta.
Se faz mal querer,
mal maior é o exclusivo.
O mundo não sou eu, meu bem.
Eu quero exclusividade
mas quero sem razão
e onde falta razão
certamente falta amor.
Falta mais ainda no teu colo
minha cabeça desatinada,
meu drama rente à novela,
meu esquema doido
de diluir o bom senso.
Acho que já chega
de tanta fala grossa,
tanto dito logo,
tanto mesmo quando,
tanto eu, portanto,
e tanto tu, sem tanto.
Antes fosse eu
antes fosse tu
mas se gente fosse propriedade
tinha que pagar IPTU.
 

 
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Afonso Sauniére
Talvez olhares sejam precisos
 Quem vai negar o prazer que sente em olhares sinceros? A minha curiosidade agora é vício. Vício de olhar para as pessoas na rua, de perscrutar bem no fundo e adivinhar a alma com delicadeza. O que também sempre vem acompanhado da censura dos amigos e da reclamação: “Pára de encarar os transeuntes. Um dia você ainda vai encontrar um cara mal humorado daqueles que te arrebentam só de olhar pra eles.”
               Na verdade, a minha rotina não é encarar ninguém. Não é lançar olhares de cobrança, casualidade ou inconveniência. Se bem que também não nego o prazer que é causar um pouco de impacto, daqueles amenos, mas confusos. Bem confusos. Foi o que me levou ao vício insólito de mirar bem nos olhos dos transeuntes. Costume esse que considero um elogio. Um olhar só por olhar, sem pretensão, sem fingimento. E o paroxismo desse vício é ler naqueles olhos desconhecidos a confusão. É quando eles começam a se perguntar se talvez me conheçam, por que eu seguro meus olhos neles, se seus cabelos talvez estejam embaraçados, ou mesmo só me chamam de indelicado. Isso tudo se percebe nos olhos. Não precisa ser um bom observador pra notar.
               Sim, é esse o meu contentamento. Mas ainda considero um elogio. É que ninguém sabe mais o que são olhares profundos nessa realidade trivial. É justamente pelos costumes que me contento e me limito nestas retinas. O que se vê hoje são olhares orgulhosos e humilhados. Basta observar durante quinze minutos uma praça movimentada. Já é sabido que os orgulhosos não baixam a cabeça. Quem dirá o olhar! Os orgulhosos andam com olhos que dizem: “Estou passando e não me olhem. Longe está de vocês, ordinários, merecerem me fitar.”
               Os humilhados são outro tipo que eu não invejo. Com suas capacidades escondidas e seus egos traídos, fingem que não existem. São como catatônicos afundados na lama. Os humilhados andam com olhos que dizem: “Estou passando, mas não olhem pra mim. Presta atenção naquele pombo. É melhor que se concentrar na minha existência inútil.” Os humilhados gostam de não olhares, não por discrição, mas, por vergonha. E não é um simples pudor natural, mas uma vergonha horrenda de sua própria pessoa, de quem ele é, e até do que possivelmente venha a se tornar.
               Esse é o meu motivo. Não à guisa de desculpa, mas é o motivo do meu vício de mirar com gosto em olhos desconhecidos. Já cansado de olhares orgulhosos e humilhados, me sinto na obrigação de bater de frente com a displicência da linguagem corporal. É só uma daquelas atitudes que eu espero que mude no mundo, a começar por mim mesmo. O simples fato de ter mais olho no olho.
               Dia desses, eu acabara de chegar à minha velha praça para esperar o ônibus (Onde na verdade não existe um local específico para a parada do ônibus. O que se sabe é que ele aparecerá na praça.). Cheguei andando devagar concentrado em alguma coisa que não tenho nem idéia do que tenha sido. Por fim, parei bem de frente pra calçada onde geralmente ficavam as pessoas à espera. É, parei de frente, mas não fui até lá. Eu não sou esse tipo de sociável que senta perto das pessoas. Eu gosto de sentar distante pra observar sem ser notado, como um carnívoro em volta da presa. Pode parecer uma comparação grosseira, mas que se dane, é bem por aí. O fato é que eu ainda estava parado. Não tinha ido sentar perto de quem esperava e também não tinha sentado em lugar algum. Só tinha parada vendo de relance algumas pessoas ao redor.
               De chofre, me virei um pouco e, ainda perto de mim, estava uma moça um tanto quanto ensimesmada, eu diria. Ainda me pegava na distração, mas, ao que parece, inconscientemente cedi ao vício de olhar bem pra ela. Até então, ela quedava também de pé como se esperasse alguém que acabara de sair e fosse voltar logo. Não sei. Também não parecia ser alguém tão diferente em nenhum aspecto, exceto pelo olhar. Não sei se era a beleza dos olhos ou o modo como ela devolvia exatamente pra mim, coisa nada corriqueira nesse meu costume trivial.
               Continuei lá parado algum tempo sem perceber, ainda segurando os olhos em cima dos dela como se não existisse mais nada. Não faço ideia de quanto tempo durou aquele impetuoso desatino, mas creio ter sido bastante. Além dos olhos pedrados, ainda movia um sorriso meia boca e um espanto diferente. Um espanto, não de assustada, mas de curiosa. De súbito, escapou algumas palavras da sua boca:
— Sua mãe não te ensinou que é feio encarar desconhecidos?
Ela falou sem grosseria como se estivesse continuando uma brincadeira começada por mim. E ainda ostentava o sorriso meia boca. Foi como se as palavras tivessem me despertado de um transe. E eu, na verdade, tive que pensar um pouco pra conseguir distinguir e entender as sílabas, mesmo depois de ditas.
—Me ensinou coisa melhor, disse eu. Olhe bem nos olhos pra saber em quem confiar, é o que ela sempre dizia. Pode parecer clichê, mas talvez seja um axioma.
—Humm... e será que em mim se pode confiar?
—Talvez!
—Talvez não é resposta.
—O que importa são as perguntas. (Eu admito que falei num tom de petulância sim, mas, depois de alguns segundos, ela continuou...)
—Ahhh...quer dizer então que você é um seguidor de Voltaire metido a sabichão que encara desconhecidos?
—Quer dizer então que você é uma anarquista sedenta de respostas que fala com desconhecidos?
Depois de mais um sorriso confuso, ela pergunta com uma curiosidade única:
—Como você sabe que eu sou anarquista?
—Quem mais usaria uma blusa escrita “morte ao governo”?
Ela gargalhou como se fosse a última vez que achou algo engraçado, porém, por pouco tempo. Segurou ainda o ar de mistério oferecendo o preço da dúvida e acrescentou:
—É...talvez eu seja.
—Percebe?(Eu continuei) “Talvez” é resposta pra tudo. No dia que o homem descobrir a beleza que a dúvida tem, a gente vai ter mais liberdade do que a ave que domina os mais altos céus.
             Depois dessas últimas palavras, eu só permaneci também no riso fraco e saí sem despedidas. Minha carona ia chegando, mas antes de dar uns três passos pra frente, eu ouvi novamente aquela voz chamando como se o desconhecido que ela acabara de trocar palavras tivesse esquecido alguma coisa. Eu me virei um tanto quanto displicente e, ela, dessa vez sem aquele ar de superioridade e de mistério, porém com uma expressão quase suplicante e intrigante, tentou logo parecer novamente não tão interessada em conversa e disse:
—Você ainda não me disse seu nome.
—Justamente. Agora por meio da dúvida, eu vou habitar não só os seus pensamentos, como suas questões. Você não só vai se lembrar desse louco, como vai torturar sua mente pra descobrir quem ele é, por que conversou contigo e onde arranjou tanta arrogância pra bancar o pedante diante de uma anarquista. É isso. Não vou dizer meu nome, mas quem sabe um dia, talvez, você saiba até o número do meu sapato.
 
 
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Afonso Sauniére
Ser

Antes de me tornar suicida
quero ser cura de depressão.
Ainda quero ser silêncio,
desordem, sepulcro místico.

Antes de qualquer cigarro
quero ser fumaça em formação.
Porque não saudade de um tempo
morto, de lembrança torta?

Antes de me tornar bandido
quero ser mordido pelo infortúnio.
Quero ser acorde belo de violão.
Talvez um dó com nona.

Antes de fazer sentido,
quero poder não ter certeza
que quando se tem certeza
é bem melhor de se viver.

Antes de me tornar prolixo
quero mandar poemas pro lixo.
Quero sentar na varanda
e ser, talvez, pombo preto.

Antes de ser eleito
como o maior metódico da vez,
quero morrer de anseios,
ceias fartas e fartos seios.

E se é pra morrer
Que eu morra de amargura.
Que seja lentamente quente
com pincel multicolor
numa pintura de Debret.
Pois, sou a soma do que não veio.
O silêncio que não se fez.
O mistério que desvendaram.
E se já me encontraram
qual o objetivo de buscar?

Antes de me tornar suicida
quero ser suicida.
E assim, talvez,
a contradição seja a vida
que eu sempre procurei.
 

 
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Afonso Sauniére
Marginal

Das mensagens dos muros do país
saltam pernas de letras tênues.
Saltam do cimento, da tinta clara.
Toda alforria merece saltos assim.

São obras de um marginal honrado
que pede centavos com os amigos.
Sem barraco ou condomínio
usa a arte sem domínio
na saliva da cidade.

Sabia ele que a poesia marginal
mescla a divina rotina
de dormir no frio da esquina de bar
com o merecido sonho de ter tempo pra pensar.
Era o poeta de papelão
já destacado entre os jornais
que esquetam a noite.

Pra sua alegria ou infortúnio
conheceu uma pedinte até doce.
Doce que o entrou na língua
como mulher derretida.
Dali pra frente morria de amores
com dores nas juntas
que só ela curava.

De súbito, não mais escrevia nos muros.
Nunca mais pensou em versos.
Ele a ouviu dizer que aquilo era bobagem.
Foi extirpado da essência melindrosa.
Marginal na marginal sem poesia marginal.

Uma vez passou num bairro rico
e nunca mais foi o mesmo
depois que viu num muro pichado:
"Se controlaram a tua vida,
quem é você quando vai dormir?"
 

 
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