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Afonso Sauniére
Canção pra não morrer

Eu musiquei aquele poema teu.
Mergulhei fundo nos versos finos.
Ouvia cada sílaba como procedente da tua voz
Ouvia as pregas vocais murmurando
Ao som de um solilóquio vago, mas ousado.
Simples, mas abstrato. Tão exato!
Contudo, faltam-me adjetivos.
Sim, digamos unicamente indizível.
Tanto ouvi que quis tocar.
Mas a música é arte, é sorte, é frêmito,
É terremoto que acomete a alma,
É o súbto da cura do pecado,
É a ciência mais perfeita na sua inexatidão.
Então eu musiquei...
Como a trilha sonora de um ensaio cinematográfico
Que toca na hora perfeita
E agrega os elementos mais sombrios aos mais puros
Sem pretexto ou pretensão.
Foi quando houve o silêncio.
Não aquele perturbador.
Não, foi aquele meigo que paira no ar.
Foi a fermata que veio como lembrete
De que a vida tem intevalos e pausas.
De que o silêncio é tão explêndido quanto melodia.
E quando se vincula o acorde, a pausa
E o mais ínfimo impulso, tem-se a canção.
A canção que guarda o poema no ninho.
Acalenta e proteje, tornando-o rocha.
Arpeja mil ecos de afagos.
E o teu poema era assim.\
Era cálido no início e suave no fim.
Roeu minhas entranhas e inverteu cada artéria
Que quando ouvi a melodia eu musiquei
Como se eu fosse morrer se não o fizesse.\
Por que o poema era teu
E tudo que é teu me encanta,
E me esmaga e me detona,
Desce, sobe, sustenido, bemol.
E cada sílaba soava em harmonia.
Mas sem pauta, sem rítmo.
Por que o poema era teu.
Meu era o êxtase. Era o ímpeto.
E eu que tentava fazer arte
Da arte que tu me emprestava.
E eu que tocava o campo harmônico
Pra não morrer contido.
Por que a arte é assim.
Ela te vem como ninguém. Ou melhor,
Ela vem como um diabo bom que oferece o melhor,
Mas te rouba a alma como pobre esfaimando.
A arte é assim. Sempre quer algo em troca.
Quer ser livre. Quer voar.
É como aurora. É como luz.
É como raiva...
Uma hora a gente tem que se livrar.
 

 
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