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Fernando Fantin Vono
Silhueta de Mulher
Escrito por Fernando Fantin

Apontava na esquina, distraída aparecia, carecia explicação, ninguém ouvia, se calhar amanhecia, era madrugada e parecia que já ia, permitir a luz do dia, a visão da silhueta, da mulher, a fantasia. Tem dessas coisas o ser humano, de ficar perambulando por aí, depositando anseios, expectativas, em coisas fugidias, em vislumbres distantes, que pouco de si mostram, que muitas vezes nem arrepararam no embasbacado, mas está ele lá, projetando não se sabe o quê, mas sobretudo esperando. E quem de humano sabe, sabe que não precisa muito, só um vislumbre, e aí vem o apego, apego ao nada dirão os céticos. Mas como haveria de ser nada, se tanta impressão causou. E o fluxo de pensamento segue, vagueia ininterrupto, abrupto é perturbado pelo automóvel, retorna a caminhada, retorna o solilóquio, refuta o pessimismo, repensa a trajetória, calcula o dia, que a mulher há de retornar ao mesmo lugar, se é que não estava só de passagem, mas a hipótese não combina aos sonhadores, não combina a apaixonados que não poderiam suportar tal sorte. Mas que sorte, se as probabilidades estão todas contra ele, de se apaixonar por, pouco mais que uma sombra, mas quem ouse vir com matemáticas em horas como essa, cada um que sabe o que mais conta em seu próprio cálculo, cada um que segue como pode, e com o que precisa. E ela, se passou esse horário, haverá de passar amanhã também, ou então na sexta, porque às vezes ela trabalha em dias alternados, se estava a trabalhar. Mas a reconheceria, de qualquer forma me lembraria. E vagueia e chega em casa, e não pensem que se esqueceu, acusa o espelho sorridente, essas coisas são transparentes, principalmente a quem é tão acostumado a existir para refletir o que se vê e o que não, sabe de ti melhor que tu mesmo, aceita o conselho, ouve. Prudência, não se encante demais que nunca mais há de vê-la, depois fica aí jogado, sem vida, tudo por ficar procurando chifre em cabeça de cavalo. Achá-la-ei tu verás, que tristeza é ficar de conversa com um espelho velho. E as coisas seguem assim, só os homens sabem dessas coisas da cabeça, ou do coração, diriam em outros tempos. E que se saberá das mulheres, o que é que pensam, como tudo se dá. Não o saberá o homem que conversava com o espelho, não é filósofo, não é mulher, dirá apenas que era linda, mas diremos a ele que louco está, não dava para se ver nada aquela distância e naquela escuridão, Ele insiste, era linda, quando era apenas, uma silhueta. Diremos a ele, desconfio que não nos dará ouvidos.

 

Por Fernando Fantin Vono

Texto publicado na revista Asterisco, ANO 1 - MARÇO 2011 - Nº 1. PET-Letras UNESP Araraquara

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010_10_01_archive.html