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Kainan Ismar
A maravilhosa mudança na vida de Lady Olívia
Escrito por Kainan Ismar

Lady Olívia nunca acreditou em si mesma. Vivia uma vida pacata e nada encantadora de horas gastas num trabalho medíocre e noites apagadas em vinho barato.

Em sua infância fora uma garota quieta e resguardada. Seus pensamentos eram somente seus e seus olhos nunca se aventuraram no infinito acima dos joelhos das outras pessoas. Chamá-la de tímida naquela época era um devaneio vil, por ser a timidez o ato de descobrir o mundo como ele é e encolher-se de surpresa e horror pelo choque de existência, pois que essas coisas para Olívia não passavam de frescura.

Agora adulta e responsável por seus atos, diga-se de passagem, ela sentia que sua vida deveria mudar e que deveria mudar muito. Numa tarde, na livraria onde trabalhava conheceu um homem de meia idade e sua filha. A garota procurava por um livro específico que não encontrava há tempos, mas que por sorte se encontrava naquele estabelecimento. Conversa fiada vai, conversa fiada vem, o homem resolveu comentar que estava passando por um recente divórcio e que o livro que ambos estavam comprando era um presente de comemoração.  

-Você sabe, eu e minha mulher falávamos de divórcio por um bom tempo agora, mas nunca nenhum de nós tomávamos a iniciativa. Foi que minha filha, contando-me sobre como tinha sido forte ao terminar com seu namorado que prometia à ela todo o mês o mesmo livro, como sua mãe também fazia, que tive está luz. Terminarei este relacionamento miserável de mentiras e traições e farei em minha vida uma grande mudança.

Ela ouviu o homem contar mais algumas histórias e a filha corroborar todas com um pequeno brilho nos olhos e então começou a pensar ela mesma.

"Quando irei eu fazer algo por mim, para mudar minha vida e deixar de ser tão submissa?"

Resolveu então que mesmo depois das onze horas de trabalho, iria à um bar, conhecer pessoas novas e respirar novos ares.

Para qualquer um isto seria algo cotidiano e nada inovador, mas para Lady Olívia, com seus 28 anos de submissão e medo, aquele seria um grande passo. 

Como sinal de que estava correta em sua decisão e acreditando que aquilo era Deus se comunicando com ela, Oli encontrou no caixa onde trabalhava naquele dia um livro não-religioso de auto-ajuda não-oficial, que dizia todas essas coisas sobre tomar controle de sua vida e fazer em si a grande mudança. Leu o livro de 163 páginas avidamente até o fim e quando notou-se o horário já era o de saída.

Toda determinada, Lady Olívia com seus 28 anos de submissão e com suas novas ideias sobre como tomar um novo rumo na vida, caminhou até o ponto de ônibus de todos os dias e esperou o ônibus rotineiro, que não demoraria muito a chegar. Viu então, caminhando em sua direção, um homem jovem vestido todo em preto, caminhando de maneira engraçada.

"Um tanto quanto suspeito" - pensou ela - "Será ele um assaltante?"

Cada vez mais próximo o rapaz ajeitára o gorro da blusa de maneira a esconder melhor seu rosto e logo em seguida afundou as mãos nos bolsos do moletom.

"Eu ficarei sem celular e sem meu salário completo se ele me assaltar!" - pensou ela agora apavorada.

O ônibus chegou e ela entrou com a melhor agilidade que existia em sua capacidade.

"Ufa, estou salva."

Dentro no ônibus, respirando mais calma, Olivia percebeu-se segura.

No ponto onde deveria descer para ir ao barzinho, a mulher reparou em seu celular uma mensagem.

"Olá, Lady Olívia. Estamos lhe enviando esta mensagem para te notificar sobre um ajuste na taxa dos serviços de telefonia contratados pela Sra. Informamos que agora, suas contas telefônicas ficarão um real mais caras. Qualquer dúvida entre em..."

Era aquilo.

A mudança que sua vida deveria ter.

Encostou a cabeça no vidro do ônibus que agora não tremia tanto, pois já estava em movimento e pôs-se a cochilar em devaneios sobre bolinhos em xícaras.

Ela tivera por uma noite muitas aventuras e mudanças, de certa forma Deus estava certo com seus sinais.

Chegando em casa alimentou seus gatos, tomou um banho quente e depois de se empanturrar com um jantar simples acompanhado de um vinho barato, deitou-se na estreita e dura cama para uma pequena noite de sono.

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Isabela Barbosa
Caminhando sob a vida...
Escrito por Isabela

Andei, andei e caminhei
pontes e montanhas
rios e mares
avenidas e ruas,
atravessando faróis
sob barcos, sob os pés caminhados


Andei a olhar...
céu e chão,
semblantes e rostos
árvores e flores
frutos ao chão, na mão


Buscando números...
voltei, voltei e andei
sob a areia da praia imensa
contando gotas de água
ouvindo canções
coroando letras


Esquecendo de enxergar
vi pessoas a correr
na linha do tempo
sem se olharem


Vi, vi eu vi
documentos impedindo de ser
recuando iniciativas
e tornando pessoas em números


Quem escrevia aquela história contada?
Onde estive, onde vou
é por onde andei
passos entre dados
buscando a luz, o sinal do dia
a vida além do horizonte

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Isabela Barbosa
Quero viver a vida
Escrito por Isabela

Quero viver a vida
sem manuais, sem as regras impostas
quero caminhar livremente
como os pássaros voam

Quero esperança para todos
este não é um pedido individual
Canto para todos
todos precisamos viver

A tristeza não é justa
ela nasce da injustiça
que lágrimas cessem e sorrisos ressurjam

Não quero viver medindo passos
calculando horas, as contas
não quero que me levem
quero ter a chance de decidir
de fazer minhas próprias escolhas
sem culpas

Quero sentir o próximo
pensar que é meu amigo
não quero olhar e pronunciar a palavra competir
não quero competir
não quero dizer concorrência
nem ser uma
Quero andar lado a lado

Ouvir as crianças...seus gestos simples
sorrisos sinceros
Aprender delas

Quero que meus sentidos saibam
reconhecer cada passo, cada detalhe, cada gesto da vida cotidiana
Coisas simples
Não quero que a pressa, o egoísmo
O meu próprio mundo oprimido
me impeçam de enxergar

Ouvir uma canção e saber no instante
que ela lhe tocou...
Andar com amor

Por quê querem que tenhamos medo?
medo de tudo, da prova, do desconhecido
da entrevista, de falar, de dar sua opinião
Quem nos disse que não se pode?
Sempre foram maneiras de impedir
a autonomia, a chance de ser
Eu quero ser como sou e quero sonhar
um sonho em conjunto

Nenhuma ordem imposta
poderá quebrar dentro de nós
os valiosos sentimentos

Se não concorda, lute

Tiraria as palavras mais autoritárias
dos dicionários e não só deles
mas da vida

Quero  seguir o vento que passa entre as ruas
Quero ver no espelho
não mais os olhos tristes
quero transformar o caminho

Este é um canto para todos
nosso país é imenso... e tão distante estamos um dos outros...
nem as tecnologias nos juntaram...
ou nos deixaram mais distantes?

Olhar para a vida com curiosidade
e lutar pelo que se precisa transformar
mas não sozinho, sempre juntos

Porque acredito em você, então não estou mais só

Somos muitos, muitas histórias, raízes
tradições, sentimentos, sonhos
a multipolaridade de vidas
que merecem viver e não mais aceitar ordens

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Adroaldo Barbosa Jr.
Minha Terra Desolada
Escrito por Adroaldo


O que nasce dessa terra?
Nada nasce,
Nada cresce
Nessa desolada terra.

EU quero acordar a vizinhança
Para ouvir meus berros pela madrugada
Mas, eles não escutam nada,
Não escutam nada que acontece na madrugada.
Eu jogo nas ruas minha música,
Toda minha poesia e frases feitas
Mas eles não entendem nada,
Ninguém entende o que acontece na madrugada.
Eu ando pelas ruas vendo vitrines,
Crianças sujas em seus trapos podres
E choro junto pelos que têm fome,
Não sei por quem choro nem bem quem amo.
Eu abraço os pobres de espírito
E escuto todas suas pobres histórias,
Esses pobres e patéticos de alma pobre
É meu encontro certo nessa madrugada.
Eu passo por ruas e vielas úmidas e escuras
E escuto um choro de criança,
Um repetitivo e desgraçado choro de criança
Que é o pior de todos os refrãos.
Eu vejo as pessoas e seus passos apressados
Em todos os cantos, todos os lugares,
E temo que sigam meus rastros
E apresso meus passos por essa cidade.
Eu ouço as sirenes berrando nas avenidas
Se misturando ao som das discotecas lotadas
E o barulho do metal retorcido
Criando um novo contraste, outro tipo de grito.
Eu canto com você quase todas as noites
E, algumas vezes, me pergunto: cadê você
Que partiu tão cedo e me deixou aqui...
E agora acordo sozinho!
Deus, eu tento e não consigo entender
Razão que justifique esse viver.
Sou peão em jogo que não se vê
Toda a madrugada até o amanhecer.
Algo comove todo o meu ser,
Algo que não compreendo e nem tento entender,
Algo que surge todos os dias quando acordo
E me persegue até o anoitecer.
Algo acontece,
Algo comove,
Algo incompreensível,
Um novo amigo?
Dizem que estar é quase que viver
E viver é o limite do que se pode querer.
De fato, algo acontece que se queira aqui estar,
Porém, nem de todo esse desejo almejo.
Nada mais é suficiente
Quando não se sente mais o aroma das flores,
Quando as cores já não mais emocionam
E não podem ser vendidas ao olhar.
Destes-me tão raros momentos
Que alimentam o futuro ainda que no Presente,
Mas, a vigília que fazes em todos os meus passos
Tira-me o sabor das coisas mesmo em pensamento.
Na minha nobre e pobre terra eu vago
E me alimento das lembranças dos mentirosos,
Embebedo-me com alegria e gozo
E caminho insistente na terra dos leprosos.
Na minha humilde terra vago,
Hora sou soberbo, hora ignorante.
A fome que me cerca é desmedida,
A carne é fraca e a alma idem.
Peco tanto quanto o pior dos pecadores,
Desperdiço um tempo que não mais tenho,
Não diferencio o certo do errado,
Compartilho a ceia com meus detratores.
Não sinto mais o gosto do vinho,
Não reconheço um sorriso,
Não me recordo dos abraços,
Finalmente estou só!
Peso minha consciência na balança de um açougue
E o açougueiro me fita com olhos de rapina,
Não há acordo algum sobre o preço dessa carne,
Nem se é de primeiro ou de segunda.
Deus, tu que és dono das idades,
Conceda-me das horas o seu minuto final
E faça com que o mundo inteiro saiba
Que o miserável partiu, afinal.
Conceda logo esse desejo
E termine de vez com essa obra,
Livre das cidades esse infeliz
Que insiste em saber o que ninguém sabe.
Quando há febre, não faz mais diferença,
Há tempos o sangue é veneno.
O vermelho é a cor da cólera e do pecado:
O poeta sabe quando está condenado.
Se há mesmo poesia nessas avenidas
Tão iguais em diferentes cidades,
Que seja reconhecida
Em prol dos que perseguem a vida.
Enterro na memória mais profunda
As gigantescas torres de concreto,
As grotescas estruturas de vidro
Que imitam uma nova artéria.
Uma nova artéria,
Um novo estilo de vida,
Uma nova companhia
E uma precoce parada cardíaca.
Como os carros que se beijam nas avenidas
Encontro a companheira perfeita
Que me fala ao pé do ouvido:
“_Me aceite como a definitiva!”
Finalmente, o medo percorre minhas veias
E alimenta um sentimento esquecido,
Uma vontade absurda de ver o próximo dia
E tentar outra saída.
Todas as ruas estão congestionadas.
Uma favela inteira acaba de ser incendiada
Enquanto alguns moradores tentam salvar
O que resta de uma vida inteiramente falida.
Há uma reviravolta
Em torno desse humilde coração,
Um carnaval,
Quase que uma provocação.
Todas as veias são velhas e fracas,
Há melancolia em tudo.
Mesmo sem haver poesia,
E vice-versa, há vida em tudo.
Essa cidade é apenas tijolo,
Metal, suor, concreto e vidro,
Cimento preso a sentimento
Muitas vezes belo e muitas vezes feio.
Essa cidade é areia,
Concreto e sentimento,
Tristezas e alegrias,
Poesias jogadas ao vento.
Tem gente que aprende cedo, outras não -
Vivem a vida dia sim e dia não.
Alguns dançam conforme a canção,
Outros se perdem antes do refrão.
Alguns sempre têm razão, outros não -
Muitos se perdem em ilusão.
Enquanto alguns correm, outros dormem
E todos buscam alguma direção.
Alguns sonham o fundo do poço,
Outros sonham com o fundo do rio.
Alguns buscam independência,
Outros são a exceção.
Tem gente que ganha,
Tem gente que se perde,
Tem gente que se torna o problema
E outros pensam ser solução.
Divago sobre o tempo
E sobre os “tipos” que encontro nessa vida.
Perco uns segundos nesse tempo perdido
E, mesmo com tão pouco sentido, quão raro é o momento!
Se você não faz ideia, tampouco eu sei.
Talvez a fome que me consome consuma a você também.
Talvez o vício que afeta os iguais
Seja algo que surja somente entre anormais.
Eu me vicio com os seus tapas
E em cada gole de sua taça,
Cada carinho exagerado oferecido
Em troca de alguns trocados.
Eu me sujo com as tuas mentiras
E assimilo a água das suas sarjetas,
Aprendo atalhos novos em cada caminho
E apago os rastros dos meus próprios passos.
Eu te persigo em cada Igreja e cada casa
E me abasteço da tua ironia,
Visito cada idoso
E faço amizade com os internos do hospício.
Até onde chega a tua maldade
E a quantos abraça a tristeza alheia?
Pode a maldade ser tão inspirada
A ponto de a própria surpresa ser esperada?
Vida que deixa sangrar do lado esquerdo do peito
Os filhos do mundo que o mundo não quer,
Espalhe a novidade que a tristeza tem cabelos
E olhos castanhos mais castanhos que os meus.
Percebo requintes de crueldade
Nesse masoquismo urbano
Onde a pobreza não tem mais idade
E a mentira tornou-se apenas uma vaidade.
Eu me transformo
Em tudo que mais abomino,
Eu surjo no espelho
Como meu próprio assassino.
Eu sufoco e amarro no escuro do meu quarto
Almas pequenas ameaçadas de extinção
E atiro no lixo os sonhos de quem
Acreditou piamente um dia fazer parte da realidade.
Eu ainda sinto na pele marcada por fogo
A marca que machuca, a marca da verdade
E peço que um dia cessem as buscas
E que tudo se torne uma futilidade.
O combustível da felicidade
Corrói e esvai-se aos poucos
E aos poucos me contento
Com o equilíbrio que me sustenta.
Quando olho para meu próprio rosto, dói.
Eu exalo do corpo o resto do medo
E tento não ver como é estranha a linha da verdade.
Procuro o caminho que leva à liberdade.
Disfarço os meus desejos
E reprimo meus absurdos,
Abraço cada pesadelo
E mascaro meu lado mais obscuro.
Eu tento ver algo além do abismo,
Encontrar algo a mais além dos muros,
Transcrever todos os anseios
Escondidos por detrás de cada sonho.
Eu sou eterno,
Sinistro,
Terreno e fraterno
Enquanto dure o mundo.
Há nesse peito um coração dividido
Criado praticamente entre dois mundos,
O mundo que há dentro do abismo
E o que se vislumbra por detrás dos muros.
O meu canto está perplexo
Como também a voz pequena e incerta
Do pequeno que se esconde do outro lado,
Meu outro lado desse mesmo muro.
O que contam em outros cantos
Também contam nesses lados
Mas, o que vale nesses cantos
Também rima em outros vales.
Luzes fortes incomodam muita gente.
A escuridão alimenta o inconseqüente.
Muros altos com grades de bronze reluzentes
São contrastes em pintura de uma tela sem cor.
Flores urbanas são tão surpreendentes
E essa depressão é tão estimulante.
Os sorrisos são amargos e carentes
E a dor casada com juras de amor.
Esses edifícios são tão interessantes,
Onde as ruas molhadas na noite reluzem como diamantes,
Onde transitam os justos e honestos
Que mastigam vaidade e rancor.
Os carros passam e iluminam tanta gente,
Brancos, negros e crianças sem cor.
Poetas são tão metidos a irreverentes
Que assimilam a dor e tudo o que for.
Vejo vidas que traçam um mesmo plano,
Gerações de alegria por engano,
Marcas de época que são puro desespero
Traçando juntos um futuro incolor.
Vejo rostos repletos de esperança
Queimar em público por causa de sua cor,
Os que vivem sem nem mesmo perceber,
Uma pintura fria que escorre sem por que.
Corpos que dançam de altos parapeitos
Quase sempre se vão tão cedo
Desafiando teorias e conceitos
E ignorando todo tipo de amor.
Meus passos são tão lentos
E os movimentos tão intensos,
Os rostos são sempre os mesmos
E espero novamente o sol se pôr.
A justiça que se encarregue de dar clemência
Aos supostos inocentes
Que transitam nas ruas
Espalhando esperança e amor.
Eu quero ter a chance de ver o nascimento de Vênus
E a anunciação em plena primavera,
Quero ser como Santo Agostinho
E ler as sagradas escrituras à luz de velas.
Quero ser como Van Gogh e pintar girassóis
Mesmo que em dezembro a tinta seja vermelha.
Quero ter de novo jardim florido no quintal
E que o beijo que sai de meus lábios não seja nunca mais acidental.
Basta querer algo apaixonadamente
Mesmo estando tão cego e só?
Que o adeus seja digno
E que tudo retorne, finalmente, ao pó.
Surge a idéia de repente
De festejar como um analfabeto,
Aprontar uma mesa e convidar
Apenas os que passam fome.
Todo esse tumulto,
Todo esse protesto,
Todos os roubos
Dessa legião dentro de mim...
Melancolia sempre teve seu espaço,
Amor, tristeza e regressos amargos,
Sentir-se só e ser como sombra na multidão
E abraçar a própria escuridão.
Achar que é romântico sofrer
Por dor que reconhece, dor que sempre se vê
É mais que uma doença, é um caso de amor
Por tudo que machuca e o que causa dor.
Eu deixo que pensem que fui derrotado
Com os ataques inesperados
Dos que bradam gritos de vitória
E esqueceram-se de ser enterrados.
Eu deixo que joguem em minhas costas
A culpa de todos os culpados,
Deixo que queimem toda minha história,
Não importa tanto assim.
Meus lábios correm em busca de palavras
E meus olhos correm em busca de beleza,
Desenho sentimentos mentirosos
Que calam todos os sinos ao redor.
Palavras saem como lâminas
Na voz rouca que sai de minha boca
Desse outro eu que me aborrece tanto
E desafia tudo à primeira vista.
Nas manhãs de primavera as folhas dançam
Ensaiando seus balés desde o nascer do dia,
Será isso vida?
_Será isso o que chamam vida?
Eu quero encontrar a palavra perdida
Entre os afazeres do dia a dia
Que seja tão profana
Quanto proibida.
Quero ir de encontro a uma nova estação
Que me traga uma sensação de alívio,
Procurar o que chamam felicidade
E talvez aprender o que seja isso.
Uma epidemia,
Uma leucemia,
Rimas que ilustram
Um eterno melodrama.
Não se pode ter tudo!
Nem sempre belos são os nossos dias
E continuamos acordando.
As rosas não falam, mas, também estão vivas.
Há fome de amor!
Há fome e o que será?
Há fome nesse lar?
Se há fome, então, há.
Há tempo para tudo!
Há tempo pra sorrir,
Há tempo pra chorar,
Há tempo pra partir.
Eu quero fugir de casa sem deixar aviso,
Correr entre os campos de trigo
E deixar todos aflitos
Tentando entender o que teria acontecido.
Eu quero causar confusão,
O mesmo tipo que trago em meu coração.
Quero molhar todos em volta
Com a tempestade dentro de mim.
Eu quero acordar os que dormem
E os que nunca acordaram,
Quero descobrir quem são eles
E espalhar quem somos.
Amantes dessa dor,
Sedentos sem saber
Onde mais se ter prazer,
Onde mais chamar de “lar”.
Eu desvio o meu olhar
Com todo o ódio desse mundo
De todos os maltrapilhos e vagabundos
Que me reconhecem em um segundo.
Eu quero quebrar essas correntes,
Riscar paredes,
Promover a anarquia
E aprisionar o meio-dia.
Eu quero que chova canivetes
Enquanto rasgo minhas roupas,
Corto meus pulsos
E conto todas as gotas.
Um dia pode ser
Que algo aconteça
E faça que cesse essa tristeza sem fim
E tudo mude, enfim.
Então perco a ingenuidade
Do que ainda resta dessa madrugada
Vislumbro o absurdo de que tudo o que vejo
Ainda seja algo a ser lembrado.
Quem sabe um dia
A poesia se faça cantar
E a brisa leve o canto
A todo lugar.
Eu quero buscar um mundo perfeito,
Eu quero amar o que tem defeito,
Eu quero explorar meu próprio quarto,
Fazer contigo outro trato.
Eu quero te sacudir com violência nesse caixão
E mostrar onde estão todos os ratos,
Incendiar cobertores velhos
Que ora foram belos.
Eu quero te mostrar que te amo
E também te odeio,
Que posso viver só,
Mas, não também não vivo sem você.
A minha loucura é produtiva
E ao mesmo tempo, destrutiva:
Machuca uma multidão
E satisfaz a multidão dentro de mim.
Eu me recuso a fazer parte da matilha
Que passeia em supermercados,
Fingindo uma paciência tão desmedida
Quanto sofrida.
Eu como restos,
Coleciono poeira,
Faço inimigos,
Cultivo sonhos.
Eu troco constantemente de identidade
E perco a noção de realidade,
O meu estado é doente
E eu sou terminal e descartável.
Eu participo desse jogo,
Dessa novela em decadência
Desse repugnante teatro de horrores
Onde somente os cegos são honestos.
Eu sou minuciosamente escravizado
Enquanto me privam do privilégio da escolha,
Enterram nossa vontade
Na cova mais profunda.
O muro que nos separa é baixo
E andamos pulando de um lado para o outro,
Muitas vezes ambos existimos
E, outras, apenas eu existo.
Somos uma freira e uma prostituta
Que traçam uma eterna disputa
Entre os dois lados da moeda
Pra decidir quem foge e quem luta.

 
Tão simples quanto dizer o teu nome
É soletrar os pedaços do teu corpo.
Quero entender qual a graça de Deus
Se teu corpo nunca vai ser só teu.
Teu corpo emana o suor da manhã,
As nuvens encobrem o princípio da dor,
A dor descobre uma nova forma de prazer
E o prazer custa caro a você.
Teu sangue escorre por quase todo lugar
E um mundo novo se abre de repente,
Amedronte a dor passageira
E espere com seu único amor o sol nascer.
Eu limpo o suor que escorre de você,
Você limpa as lágrimas que caem de mim,
Se puder haver no mundo algum amor sem fim
A única certeza é que nunca houve antes um amor assim.

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Júnior Dihl
Idas e Idas
Escrito por Júnior Dihl

Caberia ao florista da esquina, talvez, testemunhar o beijo, mas não, no olho mágico da porta está registrado o primeiro momento em que seus lábios se tocaram. Poderia ter sido naquele instante de bobeira em que se encontraram no intervalo da escola e ficaram sem ação, apenas um a admirar o outro em segredo, com trocas de gentilezas, elogios e brincadeiras.

Ou, até mesmo, no baile de formatura em que foram separados e uma única música os uniu. Talvez fosse “Love of my life” o que tocava naquele instante, ou, quem sabe, “More than words”, mas pouco importa agora, pois mais do que palavras faltaram para que se declarasse ao amor da sua vida naquela noite, por isso constantemente se prende a tais canções.

Noutro dia, também, em que os dois voltavam da faculdade, ele de carona com ela e ela dando voltas para aumentar o tempo de chegada. Ou quando ela terminou o primeiro namoro e carente foi se consolar no abraço dele. Dormiram e acordaram juntos e mesmo assim não fora neste dia em que se reconheceram apaixonados, e apesar de tudo ela voltou a namorar, mas não durou por muito tempo.

Muito pouco provável que na festa em que ele deu para comemorar a nova fase da vida este beijo acontecesse, pois naquela noite, em seu apartamento, estavam: a namorada e ela. Quase vinte e cinco anos se passaram desde o primeiro encontro, ainda na pracinha do parque que ficava perto de suas casas, e nada de se declararem, nada de beijo, nada além de uma amizade.

Quando nada mais conspirava a favor cada um seguiu seu caminho. E, entre idas e idas, a vida deu tantas voltas que lhes colocou novamente um frente ao outro, sem empecilhos, sem compromissos, sem mesmo saberem se ainda havia vestígios daquele sentimento. Até que numa noite qualquer, ao deixar ela em casa, a história teve um novo início, no olho mágico da porta ficou registrado o primeiro momento em que seus lábios se tocaram.

Até mais.

Júnior Dihl – Poeta & Escritor

@JuniorDihl

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Amanda
Pequena felina
Escrito por Ariel


Pequena felina, me desculpe esse jeito esbaforido
De te acarinhar o corpo.
Minhas mãos sem jeito que te tocam
Como se toca um instrumento.

Não vá embora quando te beijo
Mas dilates essas pupilas para mim
Só assim
Saberei que é noite

Felina teu pelo macio há muito tempo
É o que adoça minha vida cretina
Ainda que suas unhazinhas
Marquem-me a pele e tirem sangue
Ainda assim é menos sangue do que eu consigo com a tesoura

Não tens nome, és livre
Me faz livre também, pequenina?
Lambe teus bigodes que eu faço igual
Geme teu miado que eu gemo igual
Sobe no telhado que me lasco toda
Aqui debaixo.

Quem te tirou a coleira foi quem te injetou esse sarcasmo?
Quando foi que aprendeu a não correr atrás de rato na roda?
Não rias de mim, pequenina

Quando ronrono no teu colo ou esfrego minha cabeça na tua barriga.

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Fernando Costa
Agente 16
Escrito por Fernando Costa

Definitivamente, ufologia e teorias da conspiração não estão no top 10 assuntos dos quais eu gostaria de falar sobre. Mas confesso que me diverti bastante escrevendo esse texto. Espero que vocês também se divirtam durante a leitura. Abraços! 
 
***

Era uma dessas tardes quentes de São Paulo. Os últimos tempos estavam conturbados. Protestos. Brigas nas ruas. Confrontos entre a polícia e manifestantes. Pode-se dizer que estávamos, no mínimo, distraídos.
No meu escritório, sentado na velha cadeira de couro marrom comprada de um brechó, de janela aberta, eu fumava um Lucky Strike vermelho. Amargamente arrependido de não ter mandado consertar o ar-condicionado quando tive a chance:

- Você deveria ter mandado consertar o ar-condicionado.

Disse Wilson, um pobre coitado de vinte e poucos anos, careca, pardo e magrelo. Meu "Auxiliar Administrativo". Se formou em publicidade e não teve muita sorte nesse setor. Acabou tendo que aceitar o salário e as condições de trabalho de merda que eu ofereço. Não por maldade, mas porque eu vivo quebrado:

- Eu sei, eu sei. Com o dinheiro do próximo caso eu mando arrumar.

Ah, eu não te disse? Sou detetive particular:

- Ótimo. Um tal de Joelson te ligou. Pediu pra retornar com urgência.
- Isso há quanto tempo?
- Hoje de manhã.
- E você só avisa agora?
- Precisava da garantia de que você iria consertar o ar.
- Depois conversamos sobre isso, passa o número dele.

Liguei pro cara. Atendeu no primeiro toque. O número era de telefone fixo. Ele ficou parado ao lado do telefone esperando minha ligação?

- Alô? Joelson? Recebi seu recado. Aqui quem está falando é David, detetive particular. Em que posso te ajudar?

Quando ele respondeu, falou ininterruptamente por cerca de três minutos. Ouvi atentamente. Boquiaberto e chocado. O rapaz estava claramente perturbado. Se identificou como ufólogo, disse ter provas da existência "deles", de como "eles" agiam e que estavam entre nós. O bom e velho papo de quem fritou os miolos com o uso prolongado de alucinógenos. Esperei que ele terminasse de falar pra desligar o telefone na cara dele:

- E aí, o que era? - Peguntou Wilson.
- Um maluco. Falando algo sobre ETs.
- Ele não parecia maluco quando falou comigo.
- Mas era. E eu não sou psiquiatra pra ficar cuidando de doido.
- E se fosse um maluco com dinheiro? Pô, chefe. A gente precisa desse ar-condicionado.

Me joguei na cadeira. Acendi outro Lucky. Faziam 36 graus naquele momento. O garoto estava certo. Peguei o telefone e liguei novamente.

- Rua Pastor Damião, 360, quarto 28 - Foi o que ele disse quando atendeu, seguido de - Venha depressa, por favor, eles estão vin-

E foi interrompido por um som ao fundo. Eu nunca fui bom de ouvido mas parecia muito com o som de alguém derrubando a porra da porta:

- Puta que pariu! - Gritei enquanto pegava meu casaco e corria pro meu Siena. O cigarro ainda na boca.

***

O local era um hotel na Bela Vista, bem perto do meu escritório, voei pela faixa exclusiva de ônibus na Brigadeiro Luis Antonio e cheguei lá em minutos. Deixei uma bala na agulha do meu .38 e desci do carro. Atravessei a rua rapidamente. Um calor da porra e eu de casaco pra esconder o coldre.
Entrei no hotel e a recepção estava vazia. Subi as escadas e entrei no corredor do segundo andar. O lugar estava tomado por um silêncio ensurdecedor. De uma janela aberta no fim do corredor eu conseguia ouvir o som da rua: Motores de ônibus, buzinas de motos, conversas difusas entre as pessoas. Passei pelas portas até chegar no quarto entre o 26 e 30. Quarto 28. Onde Joelson supostamente estava hospedado. A porta estava no chão. Tiro o .38 do coldre e entro:

- Joelson?

Ninguém responde. Caminho pelo quarto. É pequeno, uma cama, uma escrivaninha e um banheiro. Está vazio. Faz um frio absurdamente fora de contexto. Começo a sentir que vou me foder. Verifico a escrivaninha: Documentos, fotografias, mapas, anotações, o telefone que ele usou pra me ligar. Na parede a frente, mais documentos pendurados. O Rapaz viajou fundo.
Ao lado da cama encontrei um retrato de um gordinho de óculos abraçado com uma senhora. "Deve ser ele. E essa provavelmente é a mãe", pensei. Eu observava o retrato quando ouvi uma voz fria, morta, quase robótica, atrás de mim. Minha espinha arrepiou na hora:

- Ele não está mais aqui.

Me virei rapidamente e lá estava ele, enorme, passava os dois metros de altura facilmente. Usava terno e chapéu pretos, óculos escuros e luvas de couro. Que porra é essa.

- Quem é você? - Perguntei.
- Sou o agente 16, da segurança - Ele respondeu mostrando um cartão onde no centro estava escrito com letras grandes "SEGURANÇA" e no canto inferior direito, com letras pequenas, "AGENTE 16" - E preciso que você se retire imediatamente.
- Segurança de onde? E o que você fez com o pobre gordinho que dormia nesse quarto? Não é querendo ser chato, mas ele me deve um conserto de ar-condicionado. Preciso que você o devolva, e se você não devolver... Bom, vou te dar muito mais trabalho do que ele deu. - Eu suava frio, quase tremia enquanto falava -

Então o Agente 16 tirou os óculos e o filho da puta não tinha sobrancelhas e me encarou com os seus olhos anormalmente grandes.

- Você é o detetive David Fletcher não é?
- Isso mesmo.
- Li o seu arquivo no caminho e assumi que você é um homem inteligente. Estou errado?
- Não.
- Então, detetive, eu sugiro que você não faça mais perguntas e saia. Embaixo do travesseiro está todo o dinheiro que ele tinha, considere esse o seu pagamento.

Levantei o travesseiro e tinham duas notas de vinte embaixo dele. Olhei pro Agente 16, queria perguntar se ele estava falando serio, mas ele estava me encarando com aqueles olhos gigantes. Guardei o revólver, acendi um cigarro, coloquei as notas no bolso. O Agente colocou de volta os óculos escuros e ficou imóvel. Passei pelo pequeno espaço da entrada que ele deixou livre, de forma que ficamos constrangedoramente próximos por alguns segundos. Ele me acompanhava com a cabeça. Voltei pelo corredor sem olhar pra trás, sabendo que ele continuava me observando. Já havia descido o primeiro degrau da escada quando ele disse:

- Vá pela sombra, detetive.

Parei por alguns segundos, tentei pensar numa resposta, mas só conseguia pensar em sair daquela situação bizarra.

Desci as escadas sem responder.

***

Com os quarenta reais do Joelson comprei um ventilador usado na Santa Efigênia, que larguei na mesa do Wilson quando voltei.

- Liga isso aí. - Eu disse.
- E aí, como foi lá? Viu algum alien?
- Se eu te contasse você não acreditaria. - Respondi acendendo um cigarro e me jogando na minha cadeira.

Wilson ligou o ventilador. Constatei que ele (o ventilador) não servia pra nada, quase piorava. Era como se estivesse jogando ar quente na minha cara. O que havia acontecido? Então as teorias da conspiração eram reais? Refleti um pouco e não cheguei em nenhuma conclusão aceitável e a verdade era que eu já estava de saco cheio. Foda-se aquele ventilador de merda, foda-se o Joelson, foda-se o Agente 16 e foda-se a ufologia.

Faziam 37 graus em São Paulo e estávamos entrando na semana mais quente do ano.

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Amanda
VOCÊ TÁ SUMIDA!
Escrito por Amanda


Segura o choro, segura
Segura o vômito, segura
Segura esse assédio nosso
de cada dia.

Segura essa dor, segura
essa ferida aberta ensanguentada
sem pontos, com analgésico
Segura que logo passa

A injúria da carne está bem medicada
Mas e a ebulição do ser
A angústia, dói quando toca?
Se mata, mas não faz sujeira.
Sujeira choca.

Segura, que esse choro vem
Que nem vômito
De uma só vez
Que transborda.

 

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Amanda
Lis
Escrito por Amanda


Apesar de todos os personagens que criou para si, do fake na internet, do pseudônimo, do codinome, do anonimato, do tiro e do tapa, a mesma e sempre Lis é quem dá a última palavra no jogo sujo que sua mente faz. A assustada Lis não consegue ser como o corajoso Manoel, espontânea como a autêntica Vera. É Lis demais para ser Tereza. Mas que tristeza que é ser Lis. É um poço sem fundo, escuro e frio. É criança medrosa e invejosa sem pai pra mimar. Mas queria ser tantas e tantos tão mais felizes que já pode gastar horas planejando como ia ser: quando chegasse no palco, arrancaria lágrimas de riso e gozo e também de saudade. Só que tem o mal do assombro, de ser assim como um monstro de cabeça enorme. Queria ser Danda que dorme cedo e acorda boa, mas é Lis que uiva para a Lua e descontrola sempre. A madrugada é um grito de socorro. SOCORRO! - Alguém me ensine a ser humana, estou em pedaços inalienáveis. Estou sem esperança, mas não quero morrer, me soltem dos laços que poderei me salvar ainda.

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Dani Ribeiro
Mesmice
Escrito por Dani Ribeiro
 
Cabelos ondulados levemente tingidos
Versava alguma poesia que não ousasse dizer
 
O “nó da garganta” deslizando em seus dedos
À espera do dito que a ela foi negado
 
O passo e a sandália abotinada nos pés
As unhas refeitas para serem esquecidas
 
E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
Criando o seu tempo de trás para frente
 
A noite presente na ausência de corpo
O vício sustentado pela cobiça de fuga
 
Os trajes despidos, a carne branca e nua
O desejo contido em toques de mão fria
 
E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
manipulando o seu tempo de trás para frente
 
 
Dani R.F.