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Gustavo Hobold
A Origem do Arco-íris
Escrito por Gustavo M. Hobold

O sol estava no extremo leste. Embora a mulher estivesse gritando de dor, o homem continuava a tentar tirar aquilo da barriga dela, armado de facas afiadas. Aquele líquido vermelho e viscoso escorria do mesmo jeito que as lágrimas caiam de seu rosto. O homem, vestido de azul-ensanguentado, finalmente cortou a última linha que unia sua a mulher a seu fruto. Carregando a coisa anormalmente chorosa em mãos e coberta daquele líquido pertinente que não parava de querer se expor, a mulher finalmente desabou psicologicamente. O arco-íris da vida veio a seus olhos. Sabia que jamais esqueceria aquele dia.

O sol brilhava ao topo de suas cabeças. As lágrimas e sangue já eram não mais visíveis. A mulher já tinha seu cabelo grisalho e andava sobre três membros, um deles artificial. A vida que levava já não era mais colorida ou feliz como enquanto o sol ainda nascia. A coisa que o homem havia a deixado era não mais novidade ou agradável. Pelo contrário, era seu pior pesadelo. A criatura fortificou-se contra sua própria raiz e a doença da existência já fazia efeito sobre todos. O arco-íris tornou-se apenas preto e branco e, infelizmente, mais preto que branco, rasgando seu coração e manchando-o de vermelho. Sonhava que tudo mudaria; que seria apenas uma fase. Ela adoraria estar certa. Mas não estava.

O sol estava no poente. A escuridão da noite já pairava sobre o arco-íris que não mais a trazia a felicidade que esperava. A cada noite levava um tiro; já não mais sonhava, não mais pensava, só vivia pela sua prole que, ainda assim, a matava aos poucos. “Maldito homem”, pensou. Já não desejava mais a vida que tinha, mas precisava superar aquilo. Pensava, mas odiava o que pensava. O desejo da mãe caíra perante a doença e loucura de sua prole. A coisa estava ainda mais cheia de poder.

O sol já não era mais visível. O arco-íris já não mais existia e muito menos deixava rastros de sua existência, mas a prole ainda marcava os sonhos que a mãe queria não ter. Sonhos são ilusões, ilusões de uma vida não vivida, uma poesia não declarada e, infelizmente, um amor doentio. A criatura tentava voltar a sua barriga, mas agora não mais numa semente de esperança, mas numa semente de paranoia; uma semente vermelho-negro que perfurava seu abdômen. A faca que anteriormente havia sido usada para trazer luz ao mundo era agora usada pela luz para tirá-la do mundo. Seu próprio sangue rebelava-se. Não conseguia mais viver. Caiu ao chão enquanto o líquido vermelho viscoso escorria por suas entranhas. A caixa de Pandora estava aberta.