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Gustavo Hobold
Seguro ao Suicídio
Escrito por Gustavo Hobold

O homem tateou novamente o papel que carregava e fitou-o com raiva. Olhou rapidamente as cifras e os seis números que a seguiam, para, quem sabe, ter mais certeza do que estava fazendo. Andou um pouco mais a frente e olhou para baixo. Conseguia ver todo o movimento da rua, embora fosse pouco.

Chegou até a ponta com cuidado para não deslizar e, balançando o braço, olhou as horas no relógio que trazia no pulso. Oito e meia da noite, dia 21 de Fevereiro. Era esse o dia que ia constar no seu atestado de óbito.

Fez  questão de revisar novamente o papel que assinara pouco mais cedo e começou a pensar em sua família. Lembrou das dificuldades que haviam passado até ali, mas logo pensou nas soluções que o dinheiro do seguro proporcionaria a sua família. Além de colocar comida na mesa,     também lhe pagaria um túmulo decente, embora talvez nem merecesse.

Tirou da carteira a foto do filho. Olhou, chorou e as lágrimas demoraram até alcançar o chão. Lembrou de quando trocava suas fraudas, da primeira vez que andou, dos jogos de futebol, das conversas, dos parques de diversão. Mas queria sabia que estaria fazendo o bem agora, tinha certeza disso.

Colocou lado a lado a foto do garoto e a folha do seguro de vida que carregava. Num impulso, jogou-se para frente e caiu. Seu corpo afundava no ar e ele sentia que o calor escaldante já não mais fazia efeito em seu corpo. A perfuração o refrescava, os últimos momentos de sua vida o deixavam cada vez mais gelado, preparando-o direto para o caixão. Enquanto caía olhava para baixo e ora via seu corpo espatifado no chão, ora via ele dentro de um formoso túmulo com sua família chorando em volta. Mas não se arrependia.

Alguns segundos se passaram e o corpo espatifou no chão. O homem não sabia se estava vivo ou morto, mas tinha certeza de que  não estava mais ali. O seu seguro estava pregado à mão.

Em pouquíssimos minutos, a multidão começou a abafar o corpo. Uma única mulher que teve coragem de chegar perto do cadáver fechou-lhe os olhos, ou o que ainda restava, e tirou o papel de suas mãos.

Levantou-se, tirou os óculos da bolsa e leu.

“Seguro de vida. Válido a partir de: 22 de Fevereiro de 2010”.