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Gustavo Hobold
O Dormitório
Escrito por Gustavo Hobold
O quarto vazio, cheirando a mofo. Paredes úmidas que enrugavam a vida de qualquer um. Pôsteres cobriam as talhas de madeiras e os buracos espaçosos. Não havia ninguém. Era sujo, como um porão sugeria. Sujo, talvez, por desleixo ou simplesmente por estar. Era a necessidade do ser. A maçaneta enferrujada, dobradiças mal-assombradas. Paredes negras, sujas da escuridão do tempo. A cama dividia o quarto em dois hemisférios, cada um com sua funcionalidade. Uma escrivaninha velha de um lado – com alguns livros cheios de poeira –, uma cômoda do outro. A aparência do local registrava a semelhança de uma casa do terror.

Era Natal. Último suspiro de vida na morte do dia; a árvore fazia seu papel. Embora mal enfeitada, coberta de poeira e caindo em depressão, era a única coisa que limpava o cinza do canto do quarto.

Entrou. Os vãos da porta arrepiaram a seus nervos. A rotina impossível de doze horas diárias acabara com um último suspiro de tranqüilidade, enquanto a monotonia da vida ansiava pelo recomeço de um novo dia. Roçou a barba, jogou a mochila no canto. A cama serviu de anteparo para seu esqueleto que permaneceu imóvel.

Sonhos? Não os tinha. Abstraíra-se de todos os conceitos de sucessos que poderia obter ao longo da vida, inclusive o de ser apenas mais um humano. Era pior que isso. Permanecia, a cada dia, em sua insignificância. Não tinha família; seus pais haviam morrido. Única coisa que lhe restara era o quarto empoeirado que o seu padrinho alugara em sua própria casa.

Encostou a cabeça. Não tinha o que pensar, apenas que tudo começaria novamente, a cada dia, até o fim de sua vida. Fechou os olhos. Tinha pesadelos; sonhava que não sonhava. Mas esta noite foi diferente. Uma nuvem abstrata cruzou sua mente. Viu da porta arregaçada surgir um homem e depois vários.

Uma cruz pousava sobre sua cabeça, pessoas assistiam. Pessoas que nem conhecia; pessoas que talvez jamais vira. Era seu cérebro mexendo nas aleatoriedades da vida. Seu corpo repousava sobre flores enquanto as pessoas que nunca vira o saudavam, como se por acaso tivesse fazendo algo de importante; coisa que jamais fizera.

Foi acompanhado por uma carreata até um local que já estivera em algum momento de sua vida, mas nunca havia parado para apreciar a beleza das coisas que o rodeavam. Achou lindo. Era como uma melodia em forma de arquitetura. Soava tão bem para seus olhos. Depois lembrou que tudo recomeçaria no dia seguinte; que a vida lhe prepararia mais doze horas e vários anos de mesmices.

Reconheceu que havia voltado ao seu quarto. A parede de madeira quase preta de tão podre; a agonia de viver apertado; a casa do terror.

Acordou.

Estava tudo de volta, como esperava. Mas não havia janelas. Não havia portas. Não havia arvore de natal. Não havia maçaneta enferrujada nem pôsteres nas paredes.

Rebateu-se enquanto agonizava. Gastou os últimos minutos de oxigênio que ainda lhe restavam. A vida havia lhe preparado uma cilada. Estava morto. Era seu fim. Gastou seus últimos suspiros com gritos que ninguém ouviria, nem mesmo o coveiro. Era lixo agora; comida para bactérias; adubo para o solo.

“Merecia um caixão melhor”, foi a última coisa que lhe passou pela cabeça.

E então, começou a sonhar.