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Fernando Fantin Vono
A fome e seu contrário: uma crônica de embrulhar o estômago
Escrito por Fer

“Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas.”

José Saramago

Em algumas cidades razoavelmente grandes que, para tanto, são repletas de empresas e negócios, Não, esse texto não fala de economia, é comum que se possua uma elite local, afinal, se a maioria da população da cidade trabalha na produção e na venda para Fantin gerar tanto dinheiro, são necessárias pessoas para gozar desse lucro, pois seria uma verdadeira anarquia comunista destinar o resultado da produção a quem de fato produz. Não, as coisas não são assim, essa elite é extremamente necessária à ordem e coesão social, e é imprescindível que, para cumprir sua função social, ridicularize as classes pobres que trabalham para elas. Com essa elite configurada em tal cidade, é necessário instalarem-se locais destinados a elas para que possam utilizar a grande quantidade de dinheiro que possuem, assim, é comum nessas cidades, existirem shoppings centeres, boates, restaurantes finos, Mc donald´s, Habib´s, concessionárias e, então, esses (não)lugares passam a, também, povoar a cidade e, sobretudo, o imaginário das pessoas.

Certa feita, estava passando pela avenida das Nações Unidas em meu trajeto. É uma das principais avenidas de Bauru, no interior de São Paulo. Nessa avenida se localizam, além de uma bela praça, esses (não)lugares destinados à elite da cidade. Era à tarde e o sol, embora forte, estava agradável. Atravessei uma das vias, prestando necessária atenção ao movimento de carros e, percorrendo caminho, me aproximava dos prédios alimentícios, que ficavam em uma ruela paralela à avenida, separada da mesma por apenas um canteiro. Quando em frente do Habib´s, presenciei um episódio que me marcou, e sabemos quando algo marca pela frequência com que a lembrança nos retorna à mente. Uma mulher jovem, de não mais que quarenta anos de idade, estaciona o carro da família ao lado esquerdo da rua, era um carro novo, provavelmente caro, e abre a porta traseira para que os filhos desçam, cuidando em atentar-se ao movimento da rua para que as crianças não sejam atropeladas. Todos fora do carro, a mãe aciona o alarme e a família atravessa a rua rumo à lanchonete que afirmam árabe. Porém, nesse pequeno trajeto, a bela cena familiar é interrompida por um moleque de rua, da mesma idade que as crianças, porém um tanto mais magro e com a pele mais escura. Ô tia, me paga um salgado que eu to com fome. Nesse momento, voltava minha atenção totalmente para a cena, pois a fome sempre foi algo que me intrigou, ainda mais se tratando de uma fome tão pequena, não que fome possa ser pequena, mas pequeno era o faminto. Fiquei esperando a fala da mulher, e ela respondeu, sem tirar os óculos escuros e sem olhar para o moleque, algo que não pude entender pela distância a que estava, mas que não era preciso ser intérprete labial para compreender. O moleque abaixou a cabeça e se virou de costas, a mulher seguiu seu caminho sem alterar a expressão séria, porém apressando o passo e os filhos (menino e menina), um copiou em exatidão a atitude da mãe, o outro demorou-se alguns instantes olhando o moleque, mas depois seguia a mãe. E família continuou com sua tarde feliz, e pediu ao garçom sei lá que Bib esfirra, Bib burguer, Bib salada e empanturrou-se. Disso não falo com propriedade, que lá não estava. O moleque, cá fora, engoliu mais uma porção do seu já tão pequeno orgulho, para enganar seu estômago, e foi novamente pedir que alguém o ajudasse, que estava com fome, somente isso. Lá dentro, a família continuava comendo.

De novo, repito, Não, esse texto não fala de economia.