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Dani Ribeiro
Baco
Escrito por Dani Ribeiro


Badalam os sinos da torre, já é meia-noite. A igreja acentua os mistérios dos anjos, e a iluminação permite ver vagamente a sua escultura perfeita e simétrica. A rua está deserta, prevalecendo o silencio e o uivo do vento invern
al. A igreja, com seu ar barroco, toma a frente como majestade e poderosa, mãe das noites, dos enamorados, dos pecadores e dos boêmios. Mas ela não está só, apesar da sua presença soberba, mora ao lado a acanhada casa. De repente, as portas se abrem, e a movimentação de mesa e cadeiras se arrastando para seu devido lugar, pratos e copos sendo lavados, e um grupo de homens e mulheres se dirigem ao local. Ainda o barulho é mínimo. Todos conversam discretamente, talvez tomando cautela de não incomodar as casas adormecidas. Aos poucos, o lugar começa a ganhar vida e se fazer presença única no meio daquela noite. O dono da casa e sua companheira se prontificam a prestar serviço às pessoas que ali chegam, com vinhos e tirsos.
 
 
A calmaria tímida e sonolenta trespassa os indivíduos anônimos, esvaecendo-se a cada riso hiperbólico. Estão todos sóbrios, conversando paulatinamente. Entre pausas, uma fala e vários goles de uva fermentada. Anunciou-se a noite ritualista. Aos poucos a Igreja vai se esmorecendo perante a ebriedade nascente e inicia-se o culto dos ali presentes.
 
 
O mais belo e esbelto estava sentado no centro da mesa e, a sua direita, a mulher envolve-o com uma manta de pele de leão e uma coroa de pâmpanos. O frescor das uvas enleva todos os demais que se deliciam ao som da flauta doce. O sexo palpitante de cada um deles florescem como o desabrochar de uma rosa impaciente. Os donos da casa, depois de feito suas tarefas, entregam a chave para o homem enfeitado de Deus e retiram-se para dormir em outro ponto distante da cidade, onde a suntuosa Igreja e a singela casa já não são capazes de adentrar em seus olhos e em seus ouvidos...
 
 
Entre a Igreja e as portas fechadas da casa, morava o desconhecido. 
 
Dani R. F.