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Patrícia Weber
O Rapaz do Metrô
Escrito por Patrícia Weber

Estamos numa sexta-feira, daquelas bem-vindas por pessoas vazias de mentes cheias de reclamações, em que tudo o que querem é jogar suas mágoas em um copo de cerveja. Não obstante a noite agradável, não sou da mesma opinião de tais. Talvez porque não tenha suas ocupações, carregadas de estresse e ressentimentos por fazer uma atividade na qual não lhe dá nenhum prazer. Pois bem, sendo assim, o presente dia é para mim tal qual como os outros o é.
Esta sexta-feira, em especial, fora um tanto quanto desanimada. Por conta da companhia, do lugar, do ambiente, não sei. O fato é que me encontro parada em frente àquela faixa azul das estações de metrô, pensando em como vou conseguir chegar a tempo em casa sem que precise levar broncas e sermões de meus pais. Enquanto espero o trem, ouço alguma música da minha lista de reprodução preferida e observo as pessoas ao meu redor. Pessoas que andam de metrô são, particularmente, diferentes das que andam de ônibus na minha cidade. As diferenças são claras, o motivo para tê-las não tanto. Secretamente, digo-lhe que me encaixo mais nesses certos tipos de pessoas. Não quero ser preconceituosa, seletiva, nem nada do tipo. É questão de sentir-me melhor num ambiente que em outro. Elas são quietas, permanecem quietas por toda a viagem. Observam virando-se disfarçadamente, às vezes apenas com o olhar. É engraçado; é como se fosse errado observar os outros, então elas o fazem de modo que o outro não a perceba. E quando seu interesse não é ver o mundo ao redor, ou porque está muito exausto ou porque não lhe interessa, lê seu livro e escuta sua música, como se estive em um mundo a parte. Por ter esse convívio frequente, acabei pegando tal costume.
Porém, hoje não tenho um livro para me enclausurar em meu provisório espaço. Sendo assim, não tenho outra opção além dessa: observar. Enfim meu trem chega, entro e me acomodo no primeiro banco vazio que vejo, quase em frente à porta do lado esquerdo. "So strange how everything went wrong so fast (...)" é o que ouço logo após sentar-me, vindo daquela lista que havia dito.
Passadas duas estações, uma música e três assuntos distintos no meu pensamento, noto à minha frente, ao lado da porta, uma pessoa que acabara de sentar-se. Um rapaz de aparência misteriosa, mais do que essas que encontramos nos metrôs. Está todo de preto, sentado de uma forma inaceitável para os modos formais. E, depois de algum tempo, percebo que observa-me incisivamente. Volto para meu dispositivo de música, mudo para a próxima - sei que o fiz para disfarçar. De uma forma geral, não gosto de ser observada, então sempre que acontece, procuro fazer algo que me disperse para disfarçar a timidez. Passados alguns minutos, olho novamente, e lá está ele a olhar-me. Dessa vez, encaro-o por mais tempo que quando o notei, mas mais uma vez desvio o olhar.
Digo-lhe que, não sei o exato momento, mas quando dei por mim, já estávamos naquele joguinho de "me olhas, eu desvio, olho-te, tu sorris, desvio o olhar, sorris mais ainda". A essas alturas, já não identificava mais que música estava a ouvir e que estação seria a próxima. Me entreti nesse joguinho que confesso ter sido melhor que um livro. Não penses que sou fútil por achar isso, o fato não é esse. Clichê, talvez. Mas veja bem, viver o clichê de uma boa história de filme ou livro faz bem a qualquer um, não é?! Diga-me o contrário e direi-te que mentes para si mesmo só para tentar ser diferente dos demais.
Algumas estações a frente, levantou-se e se dirigiu até a porta a sua direita. De costas para mim, olhava-me com o canto do olhar, parecendo esperar por uma atitude - que não veio. Talvez não fosse pessoa de primeira atitude, talvez já estivesse cheio de tomar essa tal atitude e se cansado de embebedar-se com os nãos. Na estação seguinte, desceu do metrô, olhou-me rapidamente e, maldita miopia que não me deixou ver nitidamente a expressão de seu rosto. Pouco antes da porta se fechar, fez com os ombros e braços aquele gesto que fazemos quando algo não dá certo, ou como se expressa "não foi dessa vez". Porém, entre esses dois momentos, disse algo que fez o rapaz ao lado olhá-lo de modo estranho, como quem pensa "o que esse cara está dizendo?" e que me faz perguntar a mim mesma até hoje: "mas o que será que ele disse?!". Malditos fones de ouvido.