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Gustavo Hobold
O último beijo de um homem
Escrito por Gustavo M. Hobold

O branco das roupas que ela vestia era inconfundível. Fora a primeira vez que a vira, mas não completamente. O rosto parecia invisível aos seus olhos, mas sua pele pálida o tocou e o acariciou como sua mãe costumava fazer. Embora pequeno, conseguiu sentir o medo que a mulher lhe passava.

O segundo encontro só aconteceu aproximadamente dez anos depois, mas a criança, agora adolescente, era capaz de reconhecê-la mesmo sem poder ver seu rosto. Ela lhe despertava interesse, mas coragem ainda lhe faltava. A mulher lhe ofereceu suco, mas suas lembranças da mãe o fizeram recusar. Seu cérebro trabalhou rapidamente remontando o primeiro encontro e lembrou que o vestido antes branco agora era azul, mas, embora tenha se comunicado com aquela estranha, sua voz ainda não lhe era familiar.

Saía do bar quando a viu pela terceira vez. Era tarde da noite, mas o amarelo brilhante do vestido e o branco pálido deixava claro que era aquela a mulher que vira em sua escola há tantos anos que já nem lembrava mais de sua face. A mulher lhe despertava desejo e, talvez por estar bêbado, a adrenalina que estava sendo jogada no seu sangue o obrigava a ir atrás dela. Quando o homem viu-a correndo e inalcançável, parou e tomou em mãos o papel que vira cair do seu vestido. Números sem sentido algum estavam rabiscados em caneta verde.

O quarto encontro aconteceu somente muito tempo depois que havia ganhado na loteria. Se no terceiro estava com seus trinta anos, no quarto já estava beirando os sessenta. Ver a mulher de verde falando com sua secretária despertou toda sua memória, embora comprometida com o Alzheimer. Pensava como ela poderia ter o encontrado em outra cidade e quem era aquela mulher que o fizera milionário. Seu rosto ainda era invisível aos seus olhos, mas ela parecia não envelhecer.

No leito de morte, sabia que uma última visita deveria acontecer e sabia que o quarto 502 do hospital não deveria ser apenas coincidência com os números que ela deixara no terceiro encontro.  De fato, não era tarde quando ela atravessou a porta e subiu em seu colo. Seu pau endureceu como nunca havia feito antes e a mulher de preto cavalgou segurando forte ao seu peito. O prazer que ele sempre desejou havia-lhe sido concedido e o orgasmo chegou no último beijo que a morte lhe deu.