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Manoelle
O Cheiro da Chuva
Escrito por Manoelle D'França

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  Quando Ele nasceu, o mundo se fazia triste e os céus choravam, por isso chovia fatidicamente. Sua jornada fora repleta de nuvens e garoas gélidas que quase queimavam sua pele, até alguém mostrar-lhe que nem sempre os céus estavam embriagados. Ela surgiu de repente durante uma forte tempestade, debaixo de um guarda-chuva chistoso e grande demais para uma só pessoa. Ele achou engraçado, mas não simplesmente pelo guarda-chuva ser um bocado estranho, mas por Ela tê-lo oferecido uma “carona” embaixo de sua imensa sombrinha — que, observando bem, devia ser um guarda-sol. Articulando melhor, o que seria um guarda-chuva — quiçá um guarda-sol — para o filho da tempestade? Para a eterna corrente humana que carregava as águas dos céus consigo? Para quem nunca, jamais, fugira da chuva?

  Ele aceitou a carona e colocou-se sob o guarda-chuva. Não... Observando mais de perto, na verdade, foi Ela quem o envolveu com um de seus braços com a rapidez de quem socorre, e então, Ele se viu protegido da tempestade pela primeira vez em toda sua vida. Logo notou que Ela não trazia consigo somente o guarda-chuva... Ela trazia o sol, e o sol queimava seus olhos tão acostumados à escuridão dos dias nublados. Ele queria escapar, precisava fugir daquilo... Aquela luz não era algo certo, definitivamente, o sol o feria... A chuva era seu lar, sempre fora; por que justo agora teria de ser diferente? Mas Ele manteve-se imóvel. Seu corpo permaneceu inerte enquanto Ele sentia vergonha de dizer que apenas ficara porque Ela tinha um leve aroma de primavera, e sua pele era agradavelmente candente. Então caminharam em silêncio, transportando o sol e a chuva lado a lado, atraindo os olhares chocados de quem não entendia o porquê de o tempo estar dividido em dois hemisférios. O que nem os passantes e nem Ele sabiam, era que Ela o abraçara porque, pela primeira vez, pôde ver e tocar a chuva e porque, notando-se bem, Ele carregava em sua tez um cheiro de terra molhada, o mágico perfume da chuva, que ela quis carregar consigo eternamente. A única coisa que tanto Eles quanto os passantes de fato sabiam, era que com o sol e a chuva caminhando lado a lado, o dia certamente terminaria em um arco-íris.

 

Manoelle D'França