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Afonso Sauniére
Marginal
Escrito por Afonso Sauniére

Das mensagens dos muros do país
saltam pernas de letras tênues.
Saltam do cimento, da tinta clara.
Toda alforria merece saltos assim.

São obras de um marginal honrado
que pede centavos com os amigos.
Sem barraco ou condomínio
usa a arte sem domínio
na saliva da cidade.

Sabia ele que a poesia marginal
mescla a divina rotina
de dormir no frio da esquina de bar
com o merecido sonho de ter tempo pra pensar.
Era o poeta de papelão
já destacado entre os jornais
que esquetam a noite.

Pra sua alegria ou infortúnio
conheceu uma pedinte até doce.
Doce que o entrou na língua
como mulher derretida.
Dali pra frente morria de amores
com dores nas juntas
que só ela curava.

De súbito, não mais escrevia nos muros.
Nunca mais pensou em versos.
Ele a ouviu dizer que aquilo era bobagem.
Foi extirpado da essência melindrosa.
Marginal na marginal sem poesia marginal.

Uma vez passou num bairro rico
e nunca mais foi o mesmo
depois que viu num muro pichado:
"Se controlaram a tua vida,
quem é você quando vai dormir?"