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Afonso Sauniére
Ser
Escrito por Afonso Sauniére

Antes de me tornar suicida
quero ser cura de depressão.
Ainda quero ser silêncio,
desordem, sepulcro místico.

Antes de qualquer cigarro
quero ser fumaça em formação.
Porque não saudade de um tempo
morto, de lembrança torta?

Antes de me tornar bandido
quero ser mordido pelo infortúnio.
Quero ser acorde belo de violão.
Talvez um dó com nona.

Antes de fazer sentido,
quero poder não ter certeza
que quando se tem certeza
é bem melhor de se viver.

Antes de me tornar prolixo
quero mandar poemas pro lixo.
Quero sentar na varanda
e ser, talvez, pombo preto.

Antes de ser eleito
como o maior metódico da vez,
quero morrer de anseios,
ceias fartas e fartos seios.

E se é pra morrer
Que eu morra de amargura.
Que seja lentamente quente
com pincel multicolor
numa pintura de Debret.
Pois, sou a soma do que não veio.
O silêncio que não se fez.
O mistério que desvendaram.
E se já me encontraram
qual o objetivo de buscar?

Antes de me tornar suicida
quero ser suicida.
E assim, talvez,
a contradição seja a vida
que eu sempre procurei.