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Afonso Sauniére
Talvez olhares sejam precisos
Escrito por Afonso Sauniére
 Quem vai negar o prazer que sente em olhares sinceros? A minha curiosidade agora é vício. Vício de olhar para as pessoas na rua, de perscrutar bem no fundo e adivinhar a alma com delicadeza. O que também sempre vem acompanhado da censura dos amigos e da reclamação: “Pára de encarar os transeuntes. Um dia você ainda vai encontrar um cara mal humorado daqueles que te arrebentam só de olhar pra eles.”
               Na verdade, a minha rotina não é encarar ninguém. Não é lançar olhares de cobrança, casualidade ou inconveniência. Se bem que também não nego o prazer que é causar um pouco de impacto, daqueles amenos, mas confusos. Bem confusos. Foi o que me levou ao vício insólito de mirar bem nos olhos dos transeuntes. Costume esse que considero um elogio. Um olhar só por olhar, sem pretensão, sem fingimento. E o paroxismo desse vício é ler naqueles olhos desconhecidos a confusão. É quando eles começam a se perguntar se talvez me conheçam, por que eu seguro meus olhos neles, se seus cabelos talvez estejam embaraçados, ou mesmo só me chamam de indelicado. Isso tudo se percebe nos olhos. Não precisa ser um bom observador pra notar.
               Sim, é esse o meu contentamento. Mas ainda considero um elogio. É que ninguém sabe mais o que são olhares profundos nessa realidade trivial. É justamente pelos costumes que me contento e me limito nestas retinas. O que se vê hoje são olhares orgulhosos e humilhados. Basta observar durante quinze minutos uma praça movimentada. Já é sabido que os orgulhosos não baixam a cabeça. Quem dirá o olhar! Os orgulhosos andam com olhos que dizem: “Estou passando e não me olhem. Longe está de vocês, ordinários, merecerem me fitar.”
               Os humilhados são outro tipo que eu não invejo. Com suas capacidades escondidas e seus egos traídos, fingem que não existem. São como catatônicos afundados na lama. Os humilhados andam com olhos que dizem: “Estou passando, mas não olhem pra mim. Presta atenção naquele pombo. É melhor que se concentrar na minha existência inútil.” Os humilhados gostam de não olhares, não por discrição, mas, por vergonha. E não é um simples pudor natural, mas uma vergonha horrenda de sua própria pessoa, de quem ele é, e até do que possivelmente venha a se tornar.
               Esse é o meu motivo. Não à guisa de desculpa, mas é o motivo do meu vício de mirar com gosto em olhos desconhecidos. Já cansado de olhares orgulhosos e humilhados, me sinto na obrigação de bater de frente com a displicência da linguagem corporal. É só uma daquelas atitudes que eu espero que mude no mundo, a começar por mim mesmo. O simples fato de ter mais olho no olho.
               Dia desses, eu acabara de chegar à minha velha praça para esperar o ônibus (Onde na verdade não existe um local específico para a parada do ônibus. O que se sabe é que ele aparecerá na praça.). Cheguei andando devagar concentrado em alguma coisa que não tenho nem idéia do que tenha sido. Por fim, parei bem de frente pra calçada onde geralmente ficavam as pessoas à espera. É, parei de frente, mas não fui até lá. Eu não sou esse tipo de sociável que senta perto das pessoas. Eu gosto de sentar distante pra observar sem ser notado, como um carnívoro em volta da presa. Pode parecer uma comparação grosseira, mas que se dane, é bem por aí. O fato é que eu ainda estava parado. Não tinha ido sentar perto de quem esperava e também não tinha sentado em lugar algum. Só tinha parada vendo de relance algumas pessoas ao redor.
               De chofre, me virei um pouco e, ainda perto de mim, estava uma moça um tanto quanto ensimesmada, eu diria. Ainda me pegava na distração, mas, ao que parece, inconscientemente cedi ao vício de olhar bem pra ela. Até então, ela quedava também de pé como se esperasse alguém que acabara de sair e fosse voltar logo. Não sei. Também não parecia ser alguém tão diferente em nenhum aspecto, exceto pelo olhar. Não sei se era a beleza dos olhos ou o modo como ela devolvia exatamente pra mim, coisa nada corriqueira nesse meu costume trivial.
               Continuei lá parado algum tempo sem perceber, ainda segurando os olhos em cima dos dela como se não existisse mais nada. Não faço ideia de quanto tempo durou aquele impetuoso desatino, mas creio ter sido bastante. Além dos olhos pedrados, ainda movia um sorriso meia boca e um espanto diferente. Um espanto, não de assustada, mas de curiosa. De súbito, escapou algumas palavras da sua boca:
— Sua mãe não te ensinou que é feio encarar desconhecidos?
Ela falou sem grosseria como se estivesse continuando uma brincadeira começada por mim. E ainda ostentava o sorriso meia boca. Foi como se as palavras tivessem me despertado de um transe. E eu, na verdade, tive que pensar um pouco pra conseguir distinguir e entender as sílabas, mesmo depois de ditas.
—Me ensinou coisa melhor, disse eu. Olhe bem nos olhos pra saber em quem confiar, é o que ela sempre dizia. Pode parecer clichê, mas talvez seja um axioma.
—Humm... e será que em mim se pode confiar?
—Talvez!
—Talvez não é resposta.
—O que importa são as perguntas. (Eu admito que falei num tom de petulância sim, mas, depois de alguns segundos, ela continuou...)
—Ahhh...quer dizer então que você é um seguidor de Voltaire metido a sabichão que encara desconhecidos?
—Quer dizer então que você é uma anarquista sedenta de respostas que fala com desconhecidos?
Depois de mais um sorriso confuso, ela pergunta com uma curiosidade única:
—Como você sabe que eu sou anarquista?
—Quem mais usaria uma blusa escrita “morte ao governo”?
Ela gargalhou como se fosse a última vez que achou algo engraçado, porém, por pouco tempo. Segurou ainda o ar de mistério oferecendo o preço da dúvida e acrescentou:
—É...talvez eu seja.
—Percebe?(Eu continuei) “Talvez” é resposta pra tudo. No dia que o homem descobrir a beleza que a dúvida tem, a gente vai ter mais liberdade do que a ave que domina os mais altos céus.
             Depois dessas últimas palavras, eu só permaneci também no riso fraco e saí sem despedidas. Minha carona ia chegando, mas antes de dar uns três passos pra frente, eu ouvi novamente aquela voz chamando como se o desconhecido que ela acabara de trocar palavras tivesse esquecido alguma coisa. Eu me virei um tanto quanto displicente e, ela, dessa vez sem aquele ar de superioridade e de mistério, porém com uma expressão quase suplicante e intrigante, tentou logo parecer novamente não tão interessada em conversa e disse:
—Você ainda não me disse seu nome.
—Justamente. Agora por meio da dúvida, eu vou habitar não só os seus pensamentos, como suas questões. Você não só vai se lembrar desse louco, como vai torturar sua mente pra descobrir quem ele é, por que conversou contigo e onde arranjou tanta arrogância pra bancar o pedante diante de uma anarquista. É isso. Não vou dizer meu nome, mas quem sabe um dia, talvez, você saiba até o número do meu sapato.