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Afonso Sauniére
À meia luz
Escrito por Afonso Sauniére

Pode confessar que você ama
esse efeito de vinho no sangue,
essa baba escorrendo na boca,
o mamilo duro feito pedra,
esse cabelo embaraçado,
a água salgada que escorre dos poros.

Confessa que ama essa hora do dia,
o escuro chamando pra zona de decisão,
a pia repleta de louça suja,
a parede amarelada na meia luz,
o hábito de esquecer a porta aberta,
o livro do lado pra espiar.

Confessa que morre por essa rotina,
que grita pela minha mão,
que briga pelo chocolate,
que chora por uma mordida,
que jura pureza visceral
e treme de medo de borboleta.

Confessa que gosta da casa,
de qualquer lugar entre as paredes,
de ser perscrutada na mesa, na pia,
no chão, no sofá, na biblioteca,
da euforia no fim da noite
e do queijo que engana a fome.

Confessa que me aprendeu sem dar razão,
que insiste em suscitar meu delírio hipnótico,
que me aterra de manhã e me esfaqueia de noite,
que morre, mata, sangra e despenca
por uma gota de orvalho que brota
debaixo do umbigo.
Por carne, unha, dentes e pelos
compenetradamente movidos por
insetos pegajosos de movimentos
repetidos na insanidade do escuro.