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Afonso Sauniére
Quarto liquidificado
Escrito por Afonso Sauniére

Era um mar de delicadezas
dentro de um quarto na chuva.
Era um desgosto bonito
num centro com a rosa murcha.
Era cinzento o jeito que caía,
o jeito que escorria os pingos,
o jeito que eu olhava da janela.
Era uma alma deserta
que diluía o remorso das palavras.
Era contada a paciência do relógio.
Era um distúrbio esdrúxulo na minha retina.
Era um poço raso onde eu guardava
tuas frases. Algumas pra relembrar, talvez,
nessas horas de idoso tetraplégico.
Tinha um xadrez que movia
do canto pro meio.
Tinha uns livros na mesa
e todos com um cheiro teu
de amêndoa doce.
Tinha um piano que me acompanhava
mas só tocava deitado no vento.
Tinha lá na parede escura
um desenho do meu disco favorito.
Tinha um escrevinhador de garagem.
Tinha a dança de um par de grilos.
Tinha um verso torno num caderno aberto
com a tua caligrafia antiga.
Tinha um silêncio alheio
disputando espaço.
Tinha tua careta na moldura.
Tinha um origami que tu guardou
na estante, mas era meio vazio
como se faltasse uma dobra.
Tinha um vinho barato e uma bala de menta,
e tinha tanta presença
que tudo era ausência
da tua mão fria na minha
e eu mal podia esperar pelo amanhã