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Afonso Sauniére
O roubo é culpa do acaso
Escrito por Afonso Sauniére

Uma vez me perguntaram se eu já tinha roubado alguém. De alguma maneira, pensei logo que houvesse mais de um sentido envolvido na resposta e pedi mais especificidade. Ela queria saber não se eu já tinha roubado algo de alguém, mas se eu já tinha roubado alguém de si mesmo. É quando você sente roçar na pele um furacão que se demora a entender. Quando perde o senso da normalidade e se joga tão profundamente no abismo que mal vê o chão chegando mais perto e, quando vê, já caiu. Quando já levaram aquilo que tu era e trouxeram cacos coloridos de paz e tormento, desassossegando a alma como vira-lata barulhento que tira o sono na madrugada. Eu respondi que não, nunca, na modéstia que eu quase nunca apresento e quase nunca me visita. Porque é preciso ter muita garra pra roubar, ter muita coragem, ousadia e pairar no ar como uma música que toca mesmo quando não quer. Eu nunca fui de roubar ou talvez tenha feito isso uma vez. Na realidade, é mais qualificado como furto do que roubo, uma vez que suavemente a pessoa chega, devagar, entra sem avisar e leva a teu drama de estar só. Já o roubo é violento e ameaçador, desprovido de sutilezas e cordialidades. Amordaça a vítima sem delongas que mal quer, mas quer e, de repente, acaba numa venda irrefletida sem o valor merecido.

                Ao passo, porém, que respondi se eu já tinha roubado, fiquei pensando se já haviam me roubado. De início pensei que sim, talvez uma ou duas vezes. Teve aquela que sempre deitava comigo pra ver as estrelas e eu a enchia dos clichês que eu guardo como colecionador, ou como babaca, dependendo do ponto de vista. Uma vez numa noite de lua cheia, quando ela percebeu que eu fitava mais aquele círculo dourado do que ela mesma, me perguntou se eu gostava mesmo de olhar pra lua. Eu disse: “é como se as estrelas fossem todas as mulheres do mundo e a lua fosse você”. Na sua infinita inocência, disse que tinha sido a coisa mais bonita já dita pra ela. Eu bem que venerava o cheiro da noite no seu colo com o escuro como aliado. Mas pouco a pouco ela foi perdendo o brilho de luar e refluindo na sua imensidão. Hoje é só mais um astro luminoso como todos os outros. É até bonito de se ver, com uma exclusividade, porém, questionável.

                A parte louca é que nunca se sabe se é bom ou ruim ser roubado, sendo o coração traiçoeiro fundado num corpo sentimental carregando os tons do mundo nas costas. Mas sempre tem aquele anjo torto que te faz tirar os pés do chão e olhar bem pra o que não se viu ainda. Ainda mais quando não se espera a falta que faz as palavras faladas de certos lábios finos, a falta que faz o abrir doce de certo sorriso e certas teorias – as mais infundadas e mais divertidas possíveis. É só obra do acaso se comportando indiscretamente. Dia desses, a minha vizinha de quatro anos, que por sinal passa muito tempo na minha casa, me encarou por um bom tempo e perguntou se eu estava apaixonado. Extremamente surpreso pela indagação súbita, mas ao mesmo tempo achando escandalosamente fofa aquela pergunta de uma menininha que eu vi nascer, eu questionei na hora o motivo de ela me perguntar sobre isso. Ela disse, como se já tivesse uma resposta ensaiada: “é que você fica rindo o tempo todo pelos cantos que nem bobo”. É estranho como as crianças hoje se conectam à realidade com muito mais acessibilidade. E mais estranho foi ter a certeza da qual eu apresentava muitas desconfianças, de que eu havia sido roubado.