⌠ 53 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Afonso Sauniére
Arcabouço de um abraço
Escrito por Afonso Sauniére

O abraço é a aspirina da solidão
com seus tentáculos mirabolantes
oscilando entre o ataque e a defesa.
Parece um anjo de asas longas
que mede o teu cansaço
e alivia cada pedaço de impureza
que se dissolve no corpo.

O abraço cheio é divino.

Que das gordinhas eu prefiro,
nunca saiu no jornal
mas até o padeiro sabe.
Quando os braços cercam a carne
mas sobra espaço pra apertar.
E sobra querendo conter
como poeta louco que só sossega
quando descarrega tudo no papel.

O abraço assim de tanta pele
dá gosto de infinito com travesseiro.
A vontade é de apalpar tudo
mesmo sem conseguir dar conta.
É uma viagem longa só de ida
pra ilha de Tristan da Cunha.
O peito descansa como um gato
com a preguiça em cima do dono.

O abraço magro é delicado.

É um vaso que se segura com cuidado
e, mesmo que agarre, falta espaço.
Falta porque os braços se encontram
como se tomasse um caminho diferente
e fosse acabar no mesmo lugar.
É acalentar no peito o rosto doce
com o cuidado de bebê faminto.

O abraço assim de pouca pele
dá gosto de fragilidade com consumo.
A vontade é de puxar rente ao corpo
como se fosse entrar um no outro,
como se tudo fosse fugaz,
como se tudo fosse abstrato e,
no final, o que fica é mais vontade
como missão não cumprida.

Sim, o abraço cheio é divino,
mas é que eu encontrei
em braços magros e em pele pouca
O lugar mais confortável do planeta.
E se o mundo descobre o poder que ela tem
com esse acariciar de neve,
será mais requisitada
que a paz em meio à guerra.