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Marisa Oliveira
Maio, O Que Que Há
Escrito por marisa no céu


Natureza Morta por Olaf Hajek

Informação demais. Céus, por que que as pessoas falam tanto? Falam de tudo dizendo nada... Se superam no gastar das palavras a toa... Por que não existe uma espécie de cota diária, semanal, mensal, etc, de bobeiras para se falar? Assim todos falariam suas idiotices, mas sem idiotizar tanto o meio consigo... Porque agora, me parece que esse que é o de praxe. Ah, eu sei que falar é muito bom. Mas, como sempre diz minha mãezinha, dona Jandira, tudo que é demais, não importa o que seja, não presta.

Alto demais. Outro “por quê” que vive comigo, é o seguinte: por que as pessoas falam tão alto? Por que essa necessidade de gritar aos sete ventos a sua opinião sobre os papos-qualquer-coisa. Isso aqui já tá qualquer-coisa demais... Céus! por que gritar? Quanto mais alto me falam, menos eu escuto... Alto demais.

Ai, é iluminação demais também. Me cega os olhos. Por que que as pessoas querem se iluminar purificar abençoar tanto? Não sei, pra quê tanta luz e tanta cor, toda hora todo dia mesmo todo tempo, mesmo quando o cinza combinaria mais. Só sabe apreciar a beleza do arco-íris devidamente quem soube apreciar também a chuva. O bom fica melhor quando se sabe como é o ruim. Como diz a linda Adriana: não gosto de bom gosto, não gosto de bom senso, não gosto de bons modos... gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem.

Expectativa demais. Nunca subi em pedestal, nunca fiquei em primeiro lugar, nunca disse que faria assim ou assado. Por que que esperam? Esperam que eu fique, que eu aceite, que eu compreenda sempre, ou que eu vá, que eu consiga, que eu explique sempre... Por quê? Não quero que me botem em alta conta. Não quero que me queiram muito bem. Não quero que esperem de mim, esperem que eu faça assim, não importa o quê.

O que será que aconteceu com a pessoa que vos fala? Nada, minha gente. Essa é só mais uma série dos meus por quês inúteis, que pode deixar algumas pessoas incomodadas. Que vão me procurar para perguntar se está tudo bem, e não vão acreditar quando eu disser que está; ou que vão me dizer que eu sou muito rabugenta e reclamona para a minha idade, ou que vão querer me dar conselhos de como viver a vida. E eu não vou conseguir (nem mesmo tentar) convencê-las nem de que eu estou bem, e nem de que eu sei ver o lado bom das coisas, e que estou vivendo e até existindo.

O que acontece é que eu não quero ter que escutar de novo e novo. Não quero ter que tapar os ouvidos estando a escutar do mesmo jeito. Não quero parar de fumar, de comer carne, de tomar porre, em prol da minha salvação. Não quero ter que me explicar, não quero que me esperem nas festas ou na vida, nem quero essa superestimação não... Tudo que é demais não presta.

Estou mais perto do que nunca do equilíbrio. Equilíbrio não é só bondade, nem só maldade, não é só luz, nem só sombra – falo de equilíbrio de verdade, o qual eu comparo com a perfeição. Perfeição é isso: orquídeas azuis, espada e cruz, árvores centenárias, linguagens binárias, sol nascente, lua crescente, socos no estômago, alcance do âmago, águas, mágoas, fumaça, cachaça, fiordes, fords, Ogum e Shiva, Exu e Vishu, Deus e Zeus, tudo num mesmo mundo. Balança equilibrada.

Não quero nada do que eu tenha visto. Não quero lugar que eu já sei como é. Não quero ninguém que eu conheça. No momento, eu não quero nada demais, só almejo a estabilidade material, porque o resto está em paz. Quero é continuar a apreciar silêncio, sentir vento, entender pensamento, saber pegar o andamento. Me dou bem com quem sabe compartilhar silêncio, com quem gosta de sentir vento, com quem troca pensamento, com quem sabe do andamento. Quem sabe ouvir silêncio, vento, pensamento, andamento.

Quero é sensações novas. Em outras latitudes, altitudes, atitudes. Quero só os meus amores platônicos de sempre e aqueles que são casuais, ou que são potenciais em ser – do mais, quero quem eu nunca vi, onde eu nunca estive, cheia do que eu nunca senti.