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Afonso Sauniére
Bagunça de afetos
Escrito por Afonso Sauniére

A cidade é minha, mas é muito pequena.
O país é meu, mas é muito distante.
E até a noite me pertence.
Mas é vazia.
É tudo oco, exagerado.
O café é frio, exacerbado.
E também tem o silêncio
que nunca é bom quando tu não tá.
Me viola como enchente notória
em dia cinza de domingo
levando cada pedaço de paz.
É tudo exagero, mas é sentido,
que quando se gosta, a hipérbole é lei.
O eufemismo é que passa longe
nessa bagunça afetiva de gente insana.
Mas eu queria te falar, meu bem,
te cuspir umas verdades minhas.
Que nada disso é tão bacana.
Que a tristeza só é bonita em poesia.
Que a vontade é maior do que o pacífico
e essa falta me rouba a delícia de te ter.
Dizer que tua ausência é o maior pecado
desde a inquisição na idade média.
Que a tua voz é a cadência
de uma análise transcendental.
E se pra mim é indizível a harmonia
de "for the love of God" por Steve,
teus intervalos sonantes embaciam
a delicadeza dessa sinfonia.
Mas se eu escrevo é pra não ter que dizer.
Talvez ser covarde e não ter que encarar
tuas retinas transparentes e profundas.
Talvez pela razão de já ter abusado do ridículo,
porque quando se gosta, o ridículo também é lei.
A não ser que ele persiga só a mim.
E eu vou ficando com a tua falta,
com o silêncio, com o ridículo
e te sequestro ridiculamente
em meus pensamentos mais absurdos.