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Afonso Sauniére
Rebentação
Escrito por Afonso Sauniére

Num solo profundo de argila
eu enterrei meus pecados.
Na rara aurora que no outono
não se via o chão de folhas.
Enterrei à sete palmos o que fiquei de falar.
Enterrei também o que falei
e dispensei o lamento.
Mas como lamento essa minha mania.
Antes taquicardia que a louca euforia
de jogar com saliva as palavras da ponta.
E, meu Deus, como eu sei jogar!
Quisera eu a paz de não ter tanto a dizer.
Quisera eu omitir na descarada casualidade,
de comer o silêncio à garfo,
de saber pensar mais baixo
e não gritar aos quatro cantos
como joão-de-barro alegre.
E tenho, no entanto, um raio de esperança
de que um dia me abandone o soro da verdade
injetado em minhas veias sem minha permissão
e que minhas hemácias transportem menos gritos.
Que não estourem, os gritos, como bolhas de sabão
no meu pequeno corpo desfigurado.
Mas, se for pra arrebentar,
antes de dentro pra fora
que de fora pra dentro.
Ou, pelo menos, o drama fica sendo só meu.