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Afonso Sauniére
Lugarzinho meu
Escrito por Afonso Sauniére

 

Há um lugar aqui que inspira a reverência do teu nome e, apesar de você não o conhecer, é quase como te olhar e ver teus traços nas sombras refletidas no chão. Parece que a vida já não se contenta em tudo que me lembra você e ainda me mostra esse espaçozinho de concreto e madeira como se fosse indicado pra conter um pouco a minha saudade.

 

É uma pracinha pequena num lugar isolado da cidade com seus cinco ou seis bancos, mas com um em especial virado pra onde nasce a lua. Um pedacinho de chão meio triangular com umas poucas árvores altas, um gramado bem descuidado e inúmeras folhas secas peregrinando na calçada. Falando assim pode não parecer, mas é lindo. Talvez não pra maioria das pessoas, talvez não comparado aos oásis da Líbia, porém, lindo, da sua maneira. E sua beleza é mais realçada ainda nas manhãs de domingo e principalmente ao anoitecer. Fica lá com os galhos secos pintando um cenário indescritível, tendo como cúmplice um avião passando ao longe e a lua parcialmente coberta por uma ou duas nuvens. Claro, tinha que envolver a lua. É ainda ligeiramente iluminada por duas luzinhas incandescentes e ostenta em uma das pontas uma placa de sinalização escrita ‘pare’. Um lugarzinho com aquele gosto de poesia que você sempre deixou.

 

De início eu nem entendia o porquê daquilo tudo me lembrar justo você. O porquê de coisas tão obsoletas vagarem no meu inconsciente e trazerem à tona a tua companhia. Mas aos poucos a razão foi clareando lucidamente e eu ainda caminho por lá quase que diariamente lembrando cada detalhe teu que faz falta. Bom, pelo menos eu sinto que cumpro um pouco com minha cota diária de você. E, até hoje é o que me deixa mais próximo de sentir o vento como um beijo teu.

 

Eu percebi que aquelas poucas árvores altas numa pracinha tão miúda me lembram você porque, apesar de ser tão pequena a ponto de caber nos meus braços, tuas virtudes ultrapassam a avenida e, ainda que você não se veja tão inestimável como eu vejo, você é maior do que o que eu sinto e ainda maior do que o recinto mais recôndito e exacerbado do planeta. Também percebi que aquelas folhas secas e amarelas voando pra todo lado, ainda algumas estáticas e ainda outras livres como balão me lembram a tua inconstância que eu sempre gostei. Me lembram o teu jeito às vezes imprevisível, às vezes quase certo e sem dúvida nenhuma a tua vontade de voar livre de toda a letargia do mundo.  Percebi que aquele gramado descuidado remetia a você pela tua necessidade de ser cuidada, de ter um carinho aconchegante pra se sentir protegida, de ter um ouvido companheiro pra se sentir aliviada e de ter alguém disposto que possa te servir como segurança nos momentos mais aflitivos e que, mesmo que talvez nem tivesse essa necessidade, eu quero tanto ser esse alguém pra te cuidar que lembro de você como sendo o meu vaso que é tão valioso, mas também frágil.  Percebi que aquele banco solitário virado pro nordeste me lembra você porque quando eu me sento nele nas noites de frio ouvindo o silêncio e olhando pro firmamento, não há nada que eu queira mais do que tua companhia segurando minha mão, sentada ali do meu lado e falando bobagens pra gente rir o tempo todo como antigamente, antes dessa distância maldita. E nesse lugar eu te sinto tão mais perto como um velejador que sente a brisa do mar sem poder mergulhar até as profundezas. Percebi, por fim, que até aquela placa escrita ‘pare’ me lembra você. Me lembra quando eu cheguei batendo na porta da tua vida e você até hesitou em abrir, mas eu pulei a janela e você nem percebeu. E de tão amoroso que é teu coração, nem se incomodou de me ter lá dentro e de invadir a tua casa e de invadir o teu espaço.

 

E eu só espero te ter em breve sem toda essa agonia de circunstâncias indevidas que me pungem afiadamente. Espero como transeunte que não vê a hora de chegar em casa em meio à tempestade e encontrar o seu porto seguro. Porque mais importante que estar em casa é se sentir em casa. E quanto àquele pedaço meu que eu deixei por aí, só cuida bem dele e, por favor, não devolve. Até hoje ninguém mostrou tanto zelo como o teu.