⌠ 29 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Afonso Sauniére
Erotografomania
Escrito por Afonso Sauniére
         
         Quando eu saio assim na chuva pra caminhar, até tento te sentir nos pingos que escorrem do meu rosto. Mas parece meio inútil toda essa caminhada e pensamento que quase nunca leva a nada, exceto à uma tristeza mórbida, porém não letal. Eu volto pra casa e fico vendo da janela o céu desabar e derreter em águas que fugirão pra algum lugar. E eu lembro da chuva que a gente nunca tomou junto. Lembro da briga que a gente nunca resolveu, do disco que a gente nunca ouviu e das ruas por onde nunca caminhamos. O vento, suficiente apenas para balançar o cabelo, é demasiado pouco pra quebrar a janela e me fazer fechar os olhos. Porque se eu fecho os olhos por conta própria, meu mundo vai direto pro teu e nem sequer pensa em voltar. Na realidade, eu só queria uma notícia tua, um sinal de vida, um aval de que o tempo ainda não me apagou aí de dentro. E eu também podia confessar um milhão de coisas nessas minhas cartas. Eu podia te mostrar em desenhos e gráficos a constância do teu nome em cada pedaço do meu âmago; eu podia explicar a relação entre os meus olhos e os teus, provando por A+B que nada me é tão elétrico quanto os sons da tua voz. Eu podia confessar que te ter ao telefone é como ver o tempo parar e que, na hora de dizer adeus, o choque da realidade seguinte é doloroso. Meu dedo e o botão de desligar se repelem como se tivessem pólos iguais, mas é tudo vontade do eterno, de continuar te ouvindo. A gente tem essa mania de eterno, de querer que tudo dure mais tempo do que na realidade é pra durar. Eu...
         Eu só queria saber se teu olhar ainda se fixa no céu, se tua lembrança de mim ainda mexe em alguns nervos. Na verdade, confessar é se expor ao extremo. Sabe aquela ave que constrói um ninho enorme na árvore de galhos secos e tronco longo? Confessar é aquele ninho com os ovos expostos lá em cima aos gaviões. Mas confesso que muitas confissões são apropriadas, embora eu quase nunca saiba discernir quais são. As cartas são só confissões e minhas confissões são mais baratas que batata no camelô de centro baiano. Confesso, no entanto, que de todas as cartas que já escrevi, ainda tenho uns quatro dicionários pra te contar.