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Karina Harley
Sobre insegurança e medo de críticas
Escrito por Harley


Eu sempre gostei daquela parte de “Tempo Perdido” em que Renato Russo diz “todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia”. É simples, direto e até óbvio, mas diz muito. Acho que é por isso que tanta gente gosta dessa música. É até engraçado pensar que as melhores músicas são sobre pensamentos corriqueiros e coisas simples do cotidiano transformadas em alguns versos dentro de um apanhado de acordes. Costumo pensar que o maior desafio de um compositor é exatamente isso: fazer com que as pessoas se apropriem de suas músicas. Dar voz ao seu público, traduzir seus sentimentos e pensamentos. Só um compositor muito sincero, sensível e engajado conseguiria fazer isso. Mas enfim, não é exatamente sobre isso que quero falar, pelo menos não agora.

Comecei falando desse trecho de “Tempo Perdido” porque ontem a noite percebi que, ao invés de lembrar e esquecer como foi o dia, eu tenho o hábito de fazer outra coisa antes de dormir. Algo um pouco menos comum, mas ainda clichê: escrever artigos. E não são quaisquer artigos. São daqueles que quando lidos por algum editor na internet, rendem um convite para uma coluna em um jornal ou uma revista famosa. Que fazem a autora agregar centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, afinal, ela  escreve de uma maneira brilhante. Mas curiosamente não sinto coragem para levantar e escrevê-los, de fato. 

Esses artigos que eu escrevo mentalmente antes de dormir fazem mesmo eu me sentir brilhante, e talvez seja por isso que eu não os escrevo propriamente, para não correr o risco de que alguém – ou eu mesma, minha maior e mais cruel crítica - diga que eles, ou eu não o são. Dessa forma, eu os mantenho efêmeros e inquestionavelmente brilhantes em minha mente, ao menos por alguns minutos antes de dormir. Pela manhã, já dissolvidos, eles voltam para o infinito, de onde provavelmente vieram.

Acontece que ontem me deparei com uma situação que me fez querer escrever, algo que não faço há um bom tempo, talvez por preguiça, falta de inspiração, ou simplesmente porque alguém me disse que eu escrevo bem. É, eu sei que é estranho, mas em poucas sessões de psicoterapia descobri que desenvolvi essa “trava” ao longe de meus singelos vinte anos. É alguém me dizer que faço algo muito bem, que começo sentir uma pressão insuportável que me faz ter um terrível medo de não ser boa o suficiente e ironicamente isso faz com que eu não seja. Dizem que o nome disso é atelofobia, mas já me disseram que pode ser medo de críticas, já que, eu pessoalmente sou muito crítica comigo e tenho um pouco de dificuldade de assumir que fiz um bom trabalho.

Pra você ter uma ideia, consegui meus últimos dois empregos porque minhas chefes disseram que viram algo especial em mim, que eu tinha muito potencial. Não preciso dizer que isso, com certeza, comprometeu meu desenvolvimento e desenvoltura nos dois empregos. Há pouco tempo comecei a fazer aulas de canto erudito no conservatório de minha cidade e em poucas aulas o professor já me encheu de elogios. Disse que eu tenho uma voz linda, uma ótima extensão, que eu tenho muita facilidade de aprender e me pediu pra que eu fizesse os exercícios todos os dias e ensaiasse uma música nova para a semana seguinte. Eu, como não tenho a disciplina como uma de minhas virtudes e por me deparar com vários outros compromissos – inclusive com o ócio - não fiz nada do que ele me pediu. Resumindo, na semana seguinte eu não fui à aula. Tive a impressão de que ele ficaria completamente decepcionado pelo fato de eu não estar treinando, e eu não suportaria.

Lembro-me de que no último ano do médio minha sala foi convidada para montar e apresentar uma peça sobre sustentabilidade num evento importante para alguns homens de negócios. Por sorte, uma das alunas, na época pertencia a um importante grupo de teatro da cidade e chamou seu diretor – que chamou um outro amigo muito entendido no assunto - para nos ajudar. A experiência foi uma das mais incríveis da minha vida e a peça foi um sucesso. No final, eu chamei minha mãe para apresentar o diretor –  por sorte àquela altura já podia chamar de amigo - e me lembro que ele disse algo como “parabéns, sua filha é um prodígio”.

Ouvir aquilo de alguém que eu admirava foi tanto um grande susto como uma grande honra, mas aquelas palavras também me trouxeram um enorme peso. Com certeza eu queria fazer teatro, porque era algo que me dava um prazer imenso e fazia eu me sentir exatamente onde eu deveria estar, mas e se eu não fosse um prodígio? E se fosse apenas sorte de principiante? E se eu não fosse realmente boa? Pior do que isso, e se eu fosse um fracasso e ele percebesse que estava errado sobre mim? Eu senti que foi um elogio sincero e isso me fez muito feliz naquele momento, mas tudo o que pude sentir sobre isso algumas horas depois era dúvida e medo.

Passei também por uma fase em que fazia os trabalhos do curso de informática e não entregava. Tudo muito bem escondido e guardadinho numa linda casca de “não preciso provar nada pra ninguém”.

Alguns devem lembrar que eu tinha um blog. Inclusive está na lista de blogs desse site. Eu gostava mesmo de escrever nele, mas depois de uma indireta cruel e seguida de um olhar de desdém de um de meus colegas de classe na faculdade de moda (algo como “tenho nojo de alguns blogs”), eu simplesmente perdi a vontade de escrever. Eu até cheguei a escrever um texto meio perdido no meio das coisas vintage e moda alternativa, pretendia escrever umas 5 partes, mas nunca consegui passar da primeira. Até tive um milhão de ideias (antes de dormir), mas nunca coloquei “no papel”.

Bom, depois de tantos rodeios e desabafos, acho que está na hora de dizer que “num belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer”. Quase isso. Chegou um momento em que eu percebi que precisava quebrar esse círculo vicioso e mandar pro espaço todo esse pavor de crítica e necessidade de aceitação. Vou a escrever meus textos, começando por esse aqui, por mais idiotas e imaturos que eles me soem quando eu os leio. 

Uma vez eu li num blog que faz bem identificar essas travas (ou sabotadores) dentro de nós e rotulá-los. As vezes é preciso dizer "cale a boca crítica, eu não pedi a sua opinião" ou "não procrastinadora, eu não vou deixar isso pra depois". 

Parece papo de doido, mas dessa maneira eu descobri que eu posso voltar a gravar e publicar meus vídeos cantando e tocando, por mais horríveis que eu os ache quando os assisto. Posso me apresentar numa peça de teatro. Posso fazer aquela prova de solfejo o qual eu não estudei direito. Posso ir à aula de canto mesmo não tendo me dedicado o suficiente. Posso ser a última a sair da sala do vestibular. Posso voltar pra trás caso eu tiver errado o caminho. Posso fracassar, de novo e de novo, tudo bem. Eu posso TUDO! 
Só cabe a mim a decisão de deixar que esse medo me paralise e me impeça de ser tudo aquilo que eu posso ser  ou deixar ele de lado.

Que se explodam as expectativas que as pessoas depositam em mim. Eu não sou responsável e nem devo ter um compromisso com elas. Sei que não vai ser fácil, vai exigir disciplina e esforço. Às vezes esse medo me pega desprevenida e vem bater na minha porta, mas eu sempre vou ter uma escolha. 
Estar consciente de si mesmo, se auto analisar e tentar encontrar um equilíbrio talvez seja a coisa mais difícil a se fazer, e até acredito que nunca chequemos lá, de fato. Porém, com certeza é uma jornada que vale a pena, tanto para nós, quanto para os que nos cercam. 

Meu primeiro passo foi não deixar que essas palavras voltassem para o infinito e se deteriorassem, mas jogá-las no universo, plantá-las nesse mundo que tantas vezes nos é muito mais real. Talvez eu possa tocar alguém de alguma forma. Talvez pra alguns seja um texto bobo. Não importa. Porque ela também fala, e ela presisava falar.
E pra Harley medrosa e insegura que me suplicou pra não publicar essas ideias, vai o meu enter, vulgo "in your face, bitch". <3