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Ramon Bernardo
Ao meu passado
Escrito por Ramon Bernardo


“Devo-lhe muito!

Ao meu passado devo minha cultura.

Minha sabedoria.

Minha paciência.

E minha ignorância.”

Vagueia menina, nostálgica vida dentro deste quarto. Pegou todos os meninos para cuidar. Cuidou menos de si do que devia. Escreveu seu nome em bocas sujas. Esqueceu-se de lavar a sua boca antes de proferir seu próprio nome. Se já se sentes envergonhada com o caos que lhe caiu em vida, já não se sentes magoada por todos quantos deitados em sua cama morderam parte do seu futuro.

Mas quem quer saber de futuro? Perguntas do que vem pela frente são tolas, quando se teme o presente e não se esquece de o que se viveu. Não lhe deve contas! Não deve nada ao seu futuro, embora saiba que é dele a incerteza capaz de assombrar os homens.

Ao seu presente deve menos! Seu presente é deitar-se. Abrir-se. Não ousa sentir-se coitada! É boa demais para isso. Para lastimasses.

Ao seu passado deve-lhe tudo. Deve sua força, e sua fraqueza. Deve o medo de monstros e de homens. Sobre tudo de homens. Deve menos ontem, do que deverá amanha. O passado acrescido de juros diários é a regra vital de esse inóspito viver.

Essa menina é alguém que não ouso dizer o nome. Ela é dona de uma grande casa e de muitos filhos. Mas não é dona de si. Só é dona de seu passado, e nada mais lhe resta.