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Dani Ribeiro
Mesmice
 
Cabelos ondulados levemente tingidos
Versava alguma poesia que não ousasse dizer
 
O “nó da garganta” deslizando em seus dedos
À espera do dito que a ela foi negado
 
O passo e a sandália abotinada nos pés
As unhas refeitas para serem esquecidas
 
E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
Criando o seu tempo de trás para frente
 
A noite presente na ausência de corpo
O vício sustentado pela cobiça de fuga
 
Os trajes despidos, a carne branca e nua
O desejo contido em toques de mão fria
 
E ficou entre um átimo e a semi-insanidade
manipulando o seu tempo de trás para frente
 
 
Dani R.F.
 
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Dani Ribeiro
Vende-se

Anunciaram a construção de um loteamento
"Condomínio Nova Era"
Com domínio particular

Compraram a terra
o morro do cruzeiro
o verde, a fé, a pedra
privatizaram o morro inteiro

Implantaram na cidade
As antenas da modernidade
A gente toda se alvoroçou
Menos os especuladores
Que em tudo seu preço colocou:

o mato, o tato, o beijo
o vinho, o vôo, o jogo
o sonho, o toque, o jeito
o calor, o fogo, o gozo

"As taxas de juros são tabeladas em, no máximo, 12% ao ano ..."


Dani Ribeiro

 
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Dani Ribeiro
Declínio
A Odalisca (Matisse)

As mãos suadas esfregavam-se na calça jeans. Ela não gostava de sentir suas mãos úmidas. Ao alisar os cabelos, fios e fios caiam pelo chão devido à oleosidade. Recolhia-os e partia ao meio como um gesto de alívio. A fragilidade dos fios causava-lhe um certo consolo. Sua beleza a cansara tanto que fizera com que ela procurasse, a todo instante, um pequeno descuido destrutivo.

Desejava ardentemente o aparecimento de espinhas em seu rosto só para ter o prazer de espremê-las e ver sair o pus branco. Ela dizia que a sensação era semelhante à de um orgasmo, e o pus, ao de uma porra bem gozada. Seu empenho por comprimir aquelas tão bem-vindas espinhas valia mais do que um belo e harmonioso rosto marcado.

Mordiscava suas unhas e deixara de pintá-las. As vezes, alguma sujeira acumulava, e ela limpava-as com os dentes.

Não tinha os mesmos cuidados com os dentes que, outrora alvos, agora já apresentavam alguns sinais de amarelamento. Parara de passar fio-dental e frequentemente dormia sem escová-los. Só fazia isso quando não suportava mais o seu hálito.

Mas durante algumas ligeiras noites... transformava-se numa mulherzinha quase perfeita e formosa. Saía pela rua, e o pus noturno se transformava em um sêmen jorrado em sua entranhas.


Dani Ribeiro
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Dani Ribeiro
A um qualquer



Vou sair em busca do amor em qualquer esquina,
Vou oferecê-lo à primeira roda de amigos,
Cantarei em versos na porta de um bar,
Regarei a flor com vinhos e mijos.

E na busca, encontrá-lo-ei no fundo do copo,
Bebê-lo-ei até a última gota
E depois guardarei dentro de uma garrafa
Com o gosto dele amargando a boca.

E todos os dias, alimentarei o amor
Com gosto de mel e dose de cachaça
Para que ele não acorde sóbrio
E não perca o fôlego depois da ressaca.

O meu amor renascerá bêbado todos os dias
Em todos os cantos da cidade vazia.
O meu amor não perderá seu fogo
E nem se queimará fazendo acrobacias.

O meu amor será alcoólatra
Com sede de arte e ânsia do tédio.


Dani Ribeiro
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Dani Ribeiro
O Sofá

Um quase-luxo
Um pequeno descuido.

O assento digno do sofá
Servia obediente às bundas
Fedidas, cheirosas,
Gordas, magras
Lisas, peludas
Esculpidas ou com celulites

Da chegada à visita
Uma preguiça crônica
Um descanso do cansaço
Cabeças imbuídas de imagens televisivas

No centro do pomposo sofá
Uma mancha imperceptível
Coberta pelas nádegas

Era ele, o sofá
ora servido ao deleite dos prazeres
ora servido ao social de acomodar as bundas

 
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Dani Ribeiro
Descarrego



Ela mal sabia que descolorir os rabiscos chapiscados tornaria-a menos benevolente com seus ímpetos. Mariana desconcertava cada letra da sua estória. Estava determinada a não seguir o percurso. Entre o trabalho às seis horas da manhã, com olheiras que encobriam a suavidade do seu olhar, ela maquiava-se toda, maquiava o sorriso do bom-dia. Enfrentava pessoas e papeladas. Resolvia os problemas do trabalho que mal cabiam em sua caderneta de anotações. Esperava as horas ganharem ânimo. A sua vontade era dependente do ponteiro do relógio. Esperava.

À noite, ela desprendia-se. Já tendo conquistado sua ilusória autonomia, Mariana não encostava suas manias infantis, desarrumava sua cama com bichos de pelúcia e quarto com decoração verde-musgo. Lia um livro que costumeiramente ficava sobre a cômoda empoeirada de pensamentos frívolos e alimentava seus caprichos com uma pequena dose de vinho ou vodca. Agarrada ao seu travesseiro de infância, masturbava-se para aliviar as tensões do dia. O travesseiro infantil, tão íntimo as suas vontades, transformava-se até virar um objeto fálico. Mariana não se arrependia. Do orgasmo colossal ao cansaço físico, o seu travesseiro continuava casto como sua remota infância, mesmo com as manchas do gozo e o escurecimento devido ao excesso da fumaça de cigarro. E dia após dia, de personalidades aparentemente alternadas, uma menina com rosto de menina e com vontades de mulher, tudo variava de acordo com as exigências. Mariana só não gostava de perder a linha, apesar de ter encontrado os dois caminhos...

Dani R. F. 

 
 
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Dani Ribeiro
Baco


Badalam os sinos da torre, já é meia-noite. A igreja acentua os mistérios dos anjos, e a iluminação permite ver vagamente a sua escultura perfeita e simétrica. A rua está deserta, prevalecendo o silencio e o uivo do vento invern
al. A igreja, com seu ar barroco, toma a frente como majestade e poderosa, mãe das noites, dos enamorados, dos pecadores e dos boêmios. Mas ela não está só, apesar da sua presença soberba, mora ao lado a acanhada casa. De repente, as portas se abrem, e a movimentação de mesa e cadeiras se arrastando para seu devido lugar, pratos e copos sendo lavados, e um grupo de homens e mulheres se dirigem ao local. Ainda o barulho é mínimo. Todos conversam discretamente, talvez tomando cautela de não incomodar as casas adormecidas. Aos poucos, o lugar começa a ganhar vida e se fazer presença única no meio daquela noite. O dono da casa e sua companheira se prontificam a prestar serviço às pessoas que ali chegam, com vinhos e tirsos.
 
 
A calmaria tímida e sonolenta trespassa os indivíduos anônimos, esvaecendo-se a cada riso hiperbólico. Estão todos sóbrios, conversando paulatinamente. Entre pausas, uma fala e vários goles de uva fermentada. Anunciou-se a noite ritualista. Aos poucos a Igreja vai se esmorecendo perante a ebriedade nascente e inicia-se o culto dos ali presentes.
 
 
O mais belo e esbelto estava sentado no centro da mesa e, a sua direita, a mulher envolve-o com uma manta de pele de leão e uma coroa de pâmpanos. O frescor das uvas enleva todos os demais que se deliciam ao som da flauta doce. O sexo palpitante de cada um deles florescem como o desabrochar de uma rosa impaciente. Os donos da casa, depois de feito suas tarefas, entregam a chave para o homem enfeitado de Deus e retiram-se para dormir em outro ponto distante da cidade, onde a suntuosa Igreja e a singela casa já não são capazes de adentrar em seus olhos e em seus ouvidos...
 
 
Entre a Igreja e as portas fechadas da casa, morava o desconhecido. 
 
Dani R. F.

 
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Dani Ribeiro
Adultério

Noite fria, movimentação intensa. Em cada canto, um bar rodeado de pessoas efusivas. Em meio aquela neblina que ofuscava a noite, um olhar rasgado passou por ali. Dois olhos e um anseio. O outro que os observou, seguiu obediente a sua intuição noturna. Era ela, a dona daqueles olhos convidativos. "Você!". Murmurou o rapaz ainda pouco cegado pela bruma. A mulher caminhou indiferente, afastando-se de qualquer olhar suspeito e impôs a sua graça perante a fragilidade da noite cinza. O que ela queria era apenas um gozo e um bocado de amor que foram esquecidos durante sua vida conjugal: "Os rapazes não me servem, o que eu quero não existe!"


Na realidade nua, desconhecem o amor.
Eles só almejam um pouco de ostentação e luxúria,
Mas cultivam entre si o amargo-doce do cotidiano...


Dani R.F.
http://suburbanamente.blogspot.com/

 
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Dani Ribeiro
Amor Digital

Texto de Márcia Tiburi



A história da teoria e da prática do amor está intimamente ligada a uma conceituação do corpo. O que entendemos por corpo está, por sua vez, condicionado às teorias e práticas da ciência e da tecnologia. O amor platônico é das épocas dualistas em que corpo e alma se opõem. O amor romântico é o do tempo da crença na procriação e no casamento e, por isso, é amor regulador do corpo das mulheres. O amor livre dos anos 1960 e 70 do século XX resulta de uma compreensão do corpo como experiência do prazer e de uma liberdade possível. Assim é que cabe avaliar o estatuto do que chamamos de amor em uma era digital.

Não é possível não falar desse afeto essencialmente corporal quando suas novas formas revisitam os modelos mais antigos e as mesmas questões teológicas que fizeram sua história mostram-se inultrapassáveis. Como sempre tivemos medo do corpo, natural que tenhamos também medo do amor que dele provém, no sentido mais primitivo de sua experiência. Aprendemos o amor como o aconchego máximo no corpo do qual nascemos. Podemos dizer que o amor é o modo de ser de nossos corpos mamíferos que sobrevivem no calor. Normal que uma cultura da produtividade e da competição desenvolva o horror ao corpo, já que abandonar-se a ele seria abandonar-se a Eros.

Eis a hipótese básica da teoria freudiana que contrapõe Eros e civilização. Assim é que, de aconchego e prazer do corpo, o amor tenha sido sublimado em linguagem e, em sua forma mais antiga, a do mito com o qual ainda não perdemos o contato. Embora o amor tenha vários significados, ontem como hoje ainda vemos o amor como um deus – o que os gregos chamaram Eros e os latinos chamaram Cupido. Passamos a entender isso que os gregos chamaram Eros como o próprio amor romântico. O afeto – ideia e prática – que um amante dedica a outro é necessariamente mediado pela imagem de um deus que nada mais é do que um agente mediador de uma relação. Assim, o mito de Eros expõe um jogo sagrado: flechando o desavisado, Eros o condena ao pathos, ao afeto que ultrapassa sua capacidade de autocomando pela razão.

Meios para chegar a fins
Absorvidos nessa experiência, aqueles que falam "do amor" pronunciam-se sempre segundo uma perspectiva hipostática, como que falando de uma substância sobrenatural e não de uma invenção cultural articulada em discurso e, como tal, fala pronta que pode ser repetida ad nauseam. Posto como verdade ancestral que suspende a questão do poder e da política própria a qualquer discurso, a compreensão romântica do amor é uma redução que favorece uma sublimação do corpo. É o corpo, o grande abismo, que os discursos do amor se especializaram em evitar. Mas, se antes o discurso vinha da Igreja e do Estado, instituições que detinham a máquina ideológica, hoje ele provém de democráticas mediações virtuais que naturalizam o artificial. Quem precisaria da flecha do Cupido quando tem a internet por perto?

O amor é histórico. Muda conforme mudam os meios pelos quais se estabelece uma relação com o corpo do outro. A forma de relação a que chamamos amor sempre foi mediação em relação ao abismo que é o corpo do outro. Essa mediação foi ideológica, poética, religiosa, científica, estética, política e filosófica. Atravessado por teorias, o amor foi também fruto dos media, dos meios de comunicação que, historicamente, permitiram que seres humanos se relacionassem uns com os outros. O amor romântico começa com a poesia, segue por séculos com a troca de cartas, chega à literatura pelo romance, expande-se contemporaneamente por meio de chats, plataformas virtuais e redes sociais em geral.

Os meios sustentam discursos e, assim, abonam a existência do corpo manifestando que a história do amor é a da morte da libido pelo triunfo do discurso. O amor é, entre nós, basicamente o desejo pelo corpo do outro, mas esse desejo pode prescindir do corpo como se pode perceber na ideologia do amor platônico – como amor idealizado – que avança no romantismo como culto a uma mulher idealizada, intangível, doente ou até morta. A versão contemporânea do amor digital, este amor que se estabelece como uma relação de linguagem possibilitada pela vida dos dedos sobre as teclas, impõe-nos pensar a máximarealização do discurso e da idealização. A era digital vem confirmar que não é apenas o corpo que lançamos no abismo, mas que podemos, na verdade, nos livrar de todo abismo pelo discurso.

O amor tornou-se facilmente uma forma de discurso que determina relações corporais como institucionais. Seja o da Igreja afirmando que o que Deus une o homem não separa, que teologiza a instituição do casamento, sejam as memórias do conquistador Giacomo Casanova, que pelo menos rendeu boa literatura, seja a conversa do conquistador que antes da revolução sexual usa sua "lábia" como único modo de acesso ao sexo com uma mulher antes que os rituais institucionais legalizassem a questão. O amor digital não precisa da passagem ao corpo, pois o que ele garante é um completo conforto distante do corpo pela substituição da libido. Enquanto falo, não faço, e, assim, economizo tempo, o risco de doenças, o sofrimento como um risco emocional. Garanto, assim, a sustentação da economia política dos afetos.

Questão semiótica
O amor é basicamente ligação. É aquilo que liga nosso corpo à nossa linguagem. Como questão corporal e como prática discursiva, o amor é também um problema semiótico sempre dito por meio de signos que o sustentam. A esse propósito é interessante lembrar que o signo mais importante da história do amor, a saber, o coração, perdeu seu estatuto. Por meio dele podemos compreender a crise do afeto mais desejado da história humana. Crise que se deve ao fato de que a sociedade, seguindo a medicina moderna, creditou ao coração a posição de órgão da vida e da morte por muito tempo. Desde que o coração deixou de ser o órgão da vida, o que aconteceu quando uma comissão de médicos de Harvard propôs o conceito de morte cerebral, no fim dos anos 1960, a semiótica cotidiana e poética do amor está prejudicada, afinal, continuar usando o coração para falar das tais razões desconhecidas perdeu o sentido. Essas razões são descartadas na nova ordem do amor digital.

Sem o coração o amor entra na era cerebral. As desvantagens das razões do coração aumentam com o avanço das ciências do cérebro que, em algum momento, farão um mapeamento do amor. A complexa questão do cérebro, no entanto, serve aqui apenas para lembrar que ela combina bem com os novos tempos do amor digital, posto que o cérebro é órgão análogo ao computador. Se o amor é afeto que nasce de nossas necessidades corporais, se ele é memória do aconchego, o amor em tempos digitais vem apenas mostrar quão distantes estamos de nossos corpos desde que nos bastamo nos meios pelos quais podemos praticar um amor sem corpo.

A era digital impõe pensar teorias que orientam práticas, sobretudo, que uma teologia-política do amor se transformou em tecnologia-política. Prática digital de nosso tempo, o discurso amoroso sempre se valeu da impossibilidade do amor alcançada pela idealização. A mais nova versão do amor para além do corpo é esse amor digital que, sem corpo, e pela ponta dos dedos, vem digitalizar a experiência corporal mostrando-nos que, neste mundo secularizado permanecendo na mediação, estamos no ápice da teologia. Amor digital é a vida da relação em que, jogando fora o corpo, mantemos apenas o que nos liga a ele sem que, paradoxalmente, ele esteja entre nós. Eis que o "desejo do corpo" tornou-se um "desejo dos dedos" medido em caracteres. Cada teclada vale como uma flechinha lançada a fundo perdido no deserto onde o desejo sem ter o que alcançar não sobreviverá sozinho.


 Texto extraído da Revista Cult

 
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Dani Ribeiro
Ponto de Partida


O ponto
A ida
O adeus

O ponto era eu
O destino era seu
Da partida ao fim

Ficou o amar-go
Levou uma parte
De amor

Sozinho
No ponto
Da partida

Partiu
Em pedaços
Um pouco de mim

Dani R.F.

 
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