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Dani Ribeiro
Carnaval

Batuque crescente Indecente
Pretas descompassadas no ritmo do tambor
Cheira a acre o seu frescor
Dança em frenesi a cabocla

Que não pára, ó maluca
Descontraída é a mãe
Ô velha caduca
Vem aqui ó ver como ela dança
Em ritmo quase cai que balança

Salve São Jorge, áfrica
Bate tumba catacumba 
Veja como mexe essa mucamba
Se der gol vai ser macumba
Quer ver como no pé da samba?

Ô nega, vem trazer meu vatapá!
Vem fazer meu carnaval
Celebrar o amor carnal
Fazer a vida uma festa, minha flor
Que o tempo voa em ritmo de batuque, amor...

 

Dani R.F.

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Dani Ribeiro
Nostalgia
Tive uma pequena reminiscência
Daquela cidade congelada.
Seus casarões imutáveis
Resistiam aos séculos que aniquilam lembranças
E sepultam consigo os bons momentos.

Um pouco de nostalgia tomou conta de mim
A noite inerme revelava só ausência
Não havia aquela gente
Nem os mesmos aglomerados
E a baderna que agitava e consolava a escuridão.

Não fui advertida dos anos que se passaram
Iludi-me com a barraquinha de pipocas-doces
Senti o cheiro de hortelã da caipirinha baiana
O gosto doce estonteante do meu vinho
E uma alegria repentina invadiu-me como um tufão.

Fui buscar meu tempo perdido.
Mas não avistei a roda de samba no Largo de São Francisco
Não encontrei o casal de italianos que faziam pizzas parisienses
E nem pude desfrutar da agitação costumeira do São Jorge
Somente os sinos setecentistas das igrejas continuavam a anunciar o tempo passado.

Retornei para o instante vivo
Contentei-me com as frituras do simpático casal de velhinhos.
Exausta, procurei um abrigo para passar a noite
E foi naquele velho hotel rococó onde encontrei um pouco de esperança
Recordando as promessas de um tempo venturoso.

Na laje do hotel, descobri uma visão panorâmica da cidade envelhecida
As luzes dos casarões e avenidas harmonizavam-se com a noite solitária
Um casal de enamorados contemplava o ribeirão corrompido
E um homem, sentado em cima da ponte,
Pensava na morte, entorpecido.

A cidade viva e festiva,
Regada de boemia e pretensos amigos noturnos
Hoje está reduzida a pequenos estilhaços da memória.
Sinto-me agora expatriada do meu próprio lugar imaginário
Com minhas raízes extraídas desse chão que jamais pertenci. 

Dani R. F.

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Dani Ribeiro
Retorno
Ressuscitei...
Como aquela que quer devorar os extremos
Ter de volta os pequenos versos
As pequenas mágoas e grandes paixões
 
Voltei...
A embriagar-me de desejos
De pensamentos insanos
E de loucuras desmedidas
 
Senti Saudades
De ver encostada em brancas paredes
De lagrimas convulsivas
E olhos borrados
Boca seca entreaberta
O espanto desatinado
Em gritos incontroláveis
Anunciando o decadente
 
Quero meu café quente
Quero deleitar-me em sonhos rústicos
aconchegar-me das noites frias
Dos ventos nórdicos
Descansando, inventando...
 
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Dani Ribeiro
A Estrangeira

Uma viajante neófita
Revelou seu estado de alma
Era uma estrangeira incalculada
Distante do mundo
Perdida de si

As vozes longínquas
Inalcançáveis que são
E os bairros solitários
Foram só vontade insossa
Da mocidade desperdiçada

Esqueceram-se dela
Pobre mulher pequena
Só corpo esmiuçado
De vaga memória
Uma boniteza estragada

Ninguém se lembrou do tabaco podre
E da garrafa reutilizada
Abandonada, despiu-se da carcaça
Estrangeira que foi
Ao ir embora, desapareceu.

Sou uma estrangeira, distante do mundo, perdida de mim!
 
Dani R.F.

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Dani Ribeiro
Juventude Verde

Avistei aquela menina
Que por um corte no dedo, um dia chorou
Frágil, pequenina, achava que ia morrer
A mãe, assustada, socorreu-a
Fez os curativos e tentou acalmá-la.

Espasmos, cortesia bruta
Vida inda, crescente
A comida da mesa com mimos
A regrada monotonia dos dias
O surto do calar antes de dormir
O êxtase demasiado agonizante
Tempo passa, do calor aos dias frios
Corre depressa, levando a inocência ninfal.

Juventude verde, repentina
Floresce no frescor macio da pele
Ao som do rock drop, despertou a vadiagem
Leviana, fugia da solidão maléfica
Indo parar nos botecos fora da criação mesquinha

Incontida, saiu dos domínios da mãe
Entregou-se sem saber amar.
Esquivou-se de seus bons modos
Já não era a aparência frágil de quem chora por um dedo cortado
Mas a vi, tão solitária e deprimente.
Nas andanças da banda triste
A barriga crescendo, o rosto encolhido

Sim, a fragilidade disfarçada de quem perdeu a alma

Dani R.F.

Pintura de Gustav Klimt. "Hope" (1903)

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Dani Ribeiro
A Ruiva

Um sonho de consumo
Dos garotos pubéricos
Mulher menina dos cabelos avermelhados
Com um copo de caipirinha,
Desconversava.

Entre manhãs e noites,
Uma pitada de cultura
Ao sol da meia-noite e o blues
Incendiava-se como seus cabelos de fogo
Palpitante.

Desvirginada aos treze
Prostitui-se aos vinte e poucos anos
Deu para um, dez, oitenta
Adoeceu
E morreu de aids.

Dani R.F.
Imagem de Henri de Toulouse-Lautrec - "A Ruiva", 1896

 

 
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Dani Ribeiro
Em Paz

O ato
A insônia
Solidão
E fome
Amordaçados,
E no fim da noite
O abandono do madrugar.

O galo canta
Astuto
Imperioso.
Lá fora, a geada
Gandaia dorme
Em paz
Sossegando

O movimento
Ainda se espreguiça.
Bêbado morto
Por deus, não!
Está deitado na rua
Roncando
Encardido.


As horas mau-vindas
Senhores, acordai-vos!
A noite ainda espera
Sedutora
Ansiosa.
O bacanal resguarda
No sono, os filhos da noite.

Dani R.F.

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Dani Ribeiro
O bêbado
Um vulto sai do nada
É a figura de um bêbado
Vestido como maltrapilho
Escuro em sua imundície.
 
O odor alastra por onde passa
O cheiro desagrada os cachorros
Como uma carniça viva
Que está pronta para o abate.
 
Seu andar tortuoso
E os olhos que se embaraçam
Buscam a linha reta
Que se desequilibra e engana.
 
Com as mãos, busca o apoio
Tocando no vazio
O bêbado cai anestesiado
E com dificuldade, levanta-se.
 
Continua em passos tortos
Para lá e para cá
Abanando as mãos
Abandonado no meio da rua.
 
De repente, a ladeira
Atraente, mas traiçoeira,
Ela convida-o a subir devagar:
"Venha alcançar o céu, querido."
 
O bêbado baba de felicidade
Seu hálito etílico vira perfume
A ladeira estende suas mãos
Para o destino do indigente.
 
Ele sobe, sorrindo
Ao levantar suas mãos
O bêbado desapoia da parede
E cai no chão, desacordado.
 
Com a cabeça no chão
O sangue escorre fresco
A noite encobre-o com seu frio
E no meio da rua, ele morre.
 
 
Dani R. F.
 
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Dani Ribeiro
Maryazinha

Ordinária, mas não bonitinha. Mary era, para muitos, considerada vulgar, não dispensava seu salto alto e calça extremamente colada para realçar a bunda gorda. As unhas tingidas de vermelho, porém descascadas, revelavam um decadência nem um pouco elegante. O amarelo-gema de seus cabelos entrava em total desarmonia com o negro de sua raiz. Seu estereótipo se resumia em algumas palavras: uma morena torrada de sol, dos cabelos gemados e salto alto, com um diferencial, era estudante universitária.

Típica dessas garotinhas que não tinham merda nenhuma ou merda alguma na cabeça, mas que faziam toda a diferença por serem universitárias. O suficiente para os machos de plantão vangloriarem-se da inteligência delas, ou melhor dizendo, da ignorância mais sofisticada e disfarçada que a dos imbecis. Um deles casou-se com ela. O camarada de bom emprego, salário bom, boa reputação, que bancava os seus estudos e mordomias, porém, cheio de pagode e futebol na cabeça, nada mais além disso. A mulher deitava-se no sofá a ler trechos de poemas e livros para seu marido, que gozava de tesão; “Mas como minha Maryazinha é culta!”. E depois davam uma bela de uma trepada, daquelas que faz qualquer homem pensar que tem uma deusa em suas mãos.

Na faculdade, o sucesso não era assim tão notório, pois havia outras concorrentes que também eram universitárias, só que mais gostosinhas e bonitinhas. Mas Maryazinha, bem esperta, não gostava de perder. Arranjou o orientador mais gostoso do seu curso para fazer sua monografia, e todos os dias vestia decote e calça colada, com a sua bolsa de oncinha. Na sala do professor bonitão, ela trazia textos e mais textos e lia-os em voz sexy para ele. O professor fingia estar extremamente interessado com o seu resumo totalmente plagiado de outros artigos e elogiava-a: "Muito bem menina, você conseguiu captar toda a ideia do texto!" E na despedida, apertava indiscretamente sua bunda. “Te espero amanhã aqui na minha sala novamente pra terminarmos nossa conversa.” E no dia seguinte, ela voltava e continuava a sua lição.

As amigas começaram a sentir inveja de Maryazinha. E ela, para intensificar ainda mais a ira de suas concorrentes, dizia: "Sabe, o professor me disse que eu sou diferente das outras alunas, muito inteligente, bem intelectual, saca? "

E voltava para casa rebolando com a bunda empinada e o peito estufado de tanto encolher a barriga. Ao encontrar-se com o seu marido, ficava toda assanhada pensando no professor. No ato, ela transbordava de tanto tesão e tinha orgasmos múltiplos, e o marido enchia o peito de tanto orgulho de sua amada Maryazinha.

 

 

Dani R. F.

 

 
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Dani Ribeiro
Inverno

Está tarde,
Um frio seco começa a invadir o corpo
Já não é tempo de apreciar a carne
E o erotismo dos contornos femininos

Num lugarejo, a escuridão
O espectro ranzinza e esmagador
Revela a face de algo desfeito
É a mulher protegida do seu próprio desejo

Reina a decadência elegante
Esconde em seu abrigo o pecado desperto
O mistério atiça a mente
E o porvir das horas quentes

O vislumbre que rasga, que corta
Reflete na mulher uma calma suave
Seu semblante vazio e emudecido
Enfadonha turbulência do sofrer

A mulher senta-se calada
Seus olhos fatídicos revelam a embriaguez
Diante de si, um copo de conhaque
Um cigarro e a solidão.

 

Dani R. F.

 
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