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Deni Mazur
Uma Carta de Marina

Ela quer...
Um lugar em que as ruas sumissem, uma rua em que as pessoas sorrisem, um sorriso que a lágrima engolisse.
Sorrir docemente, para que os lábios em meia-lua, dissipassem a tristeza das estrelas em lágrimas cadentes. 
Agora ela sobe na colina mais alta e contempla sua via-láctea, não mais branca que seus dentes, e disputa entre as estrelas qual delas pulsa mais ardente e, de todos os pulsares, nenhuma palpita mais forte do que seu coração ao reviver o passado, tão presente nas linhas tortas desenhadas no tronco de uma árvore que na noite passada virou carvão.
Na lareira ardia não apenas as chamas que aqueciam seus pés, mas também as lembranças daquele dia em que o nome de uma lembrança em fogo se consumira e, na fumaça, subia.
Agora ela volta à colina, não para ver a via-láctea que em seu alvo colo, a noite, reflete no céu, mas para ler, abraçada pelo calor do sol que desponta, as poucas palavras que na última carta ficaram escritas. 

                                                                         "Encontrei outro amor..."

Como poderia ter a outro encontrado? Isso na mente de Marina significava nunca antes ter amado. E assim Marina foi, de encontro ao mar, de onde vira pela última vez seu amor partir para nunca mais voltar.

 

 
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Deni Mazur
Revoluções de Berlim!

Então assopro...
Não sei se são as nuvens ou a fumaça do cigarro...
Ou se são os pedaços de algo...
Ou serão os detritos do muro de uma Berlim reunificada...
Ou serão apenas lembranças?
Talvez sejam novas linhas nas velhas palavras...
Ou sera que é a indignação de um país que não é nação...?
Com leis que não funcionam... ou talvez um dia funcionarão...
Revoluções mudam o mundo... ou é o mundo que cria sua eterna revolução?
 

 
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Deni Mazur
A Filha da Lua

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Cansei desse céu bobo e azul, tenho saudades do cinza chumbo do dia em que nasci
nasci na madrugada, filha de uma lua cheia
e o sol não apareceu para me dar boas vindas,
quando deu a sua hora
as nuvens cinzas é que vieram orgulhosas a me saudar, com uma chuva caudalosa
lavando tudo, batizando me antes de todos 
me disseram que não chorei, e por qual  motivo choraria?
ainda não conhecia nada além das relvas macias do meu quintal!
chorei bem depois, bastante, diga-se de passagem,
ao descobrir que os homens fizeram da terra um campo de guerra,
se disso antes fosse informada, teria ficado abraçada, de alma nua
no calmo ventre da lua.
 

 
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Deni Mazur
Do Lado de Cima do Muro

De alguma maneira escondida, entre os cigarros e as bebidas, ela pinta os lábios de uma cor viva, cor de fogo, cor de sangue, de uma vida corrida. A escada de corpo caracol leva a um terraço, aqui estou a observar, o som vem dançante pelo ar, até se confunde com o movimento cambaleante do vinho doce em seu copo, do sangue quente em seu corpo. A vista aqui é única, de todo lugar é, mas daqui as pequenas estrelas de prata no céu, encontram as luzes de bronze no chão.

Aquela esfera laranja ao leste anuncia, é hora de ir. Meu ninho na praça central me espera, frio e solitário, mas meu, forrado de recortes de jornais que li, abandonados pelas ruas, rasguei as notícias que eram de algo sobre uma crise financeira de um país distante, me importo mais com as crises de caráter das pessoas. Por aqui tudo em paz, se em nome da (des)ordem e do progresso desfazem minha morada, bato logo as asas e de outra vou atrás, reconstruindo cada vez melhor o que me tiraram sem pensar. Aqui não há crise, talvez por não haver dinheiro para isso, bem, na verdade dinheiro tem, o problema é quem o tem, mas não me importo, vivo de migalhas, aprendi isso com os porcos, que agora andam sobre duas patas, usam roupas, falam, constroem casas, destroem vidas, diminuem as esperanças, aumentam as armas...

Vou me mudar, sim, talvez para aquela árvore de frutinhas perto de onde vive a menina de lábios cor de fogo, lá ouvi discutirem sobre a crise, gente esperta, não essa crise boba que os porcos criaram e que adoram aumentar, mas sim a crise dos ouvidos, de quem ouve mas se recusa a escutar.

 
 
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Deni Mazur
Febre Primaveral

Vamos para um descampado francês, onde o sol grita o vermelho, o chão chora o dourado e as aves se pintam em preto.

Te deitaria na grama dourada e te amaria com o desespero da alma condenada, com o céu derretendo-se em fogo e o corpo se ardendo em brasa.
Cada ave que passava entoava um trecho de Vivaldi, a primavera, o verão, o inverno, o outono, tudo eterno, nobres aves de terno, nadam sob um céu de fogo, mergulham em frondosos montes verdes, somem no horizonte, reaparecem de repente.
Cada beijo doce é...  Cada toque arrepiante se faz, a cada inspiração só se expira calmaria.
E cada colher que vem, um líquido amargo traz, recobro a sanidade, a grama dourada tornada em lençóis brancos, o sol vermelho sangue é uma lâmpada amarelada, as aves negras estão pintadas, paradas, coladas, no teto o céu não é tão infindo, mas ao menos o doce som de Vivaldi continuo ouvindo...


 
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Deni Mazur
Parafrasear

E é quando perco a paciência que reencontro a saudade,

escancarando os velhos álbuns em fotos de cores saturadas de vermelho,
outras em branco e preto, como se fossem um soneto,
posso ouvir os sons do lugar, que outrora chamei de lar.

Assim me dói só de relembrar, que entre as cores fixadas no papel de foto,
resta desbotada uma fonte de memórias que o tempo não pôde apagar,
lembro de quando as pernas corriam oito quadras sem descansar,
como era bom brincar de pique-esconde.

Lembro dos rústicos carrinhos de rolimã, o freio eram os dedos, as cicatrizes, os troféus,
tudo girava tão mais colorido, igual aos peões de madeira, ou o reflexo das bolinhas de gude,
toda tarde era ensolarada,
se lá fora chovia, dentro de um pote de doces o sol resurgia.

Mas hoje tanto faz, sol ou chuva, tudo é coberto, não preciso me preocupar,
aí então que de vez em quando perco a paciência e reencontro a saudade,
e sem deixar perceber, perco a saudade e reencontro a paciência,
voltando ao ser cinza, no cotidiano das cores em decadência.

 
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Deni Mazur
Meu Cárcere Privado


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Então você vem...

Abre a porta como se fosse a sua casa,

Rompe minha intimidade, me rompe,

e acaba se corrompendo
 

Falta-lhe tempo, então é rápido...

 

Acha que me usou, 

e que agora vai me descartar,

Mas não sou eu quem voltará a deitar em uma cama de agulhas

Não serei eu a fingir um sorriso amarelo 
 

Sua esposa lhe espera, com seus filhos...
 

Tampouco serei eu quem inventará desculpas inconsistentes,

antes de chegar em casa,

No meu cárcere sou livre,

E você prisioneiro de uma ilusória liberdade
 

Suas mentiras lhe corroem...
 

Minha cama...

meus cigarros...

meu café...

minhas algemas de vento...
 

Sou prisioneiro por opção, e você novamente corre...
 

Tudo isso é concreto,

menos a vida fútil que levas,

a futilidade é fumaça de cigarro, 

que some antes de chegar ao teto, 
 

inventando desculpas para chegar em casa...


 
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Deni Mazur
Aquilo que está no vento.

Aquilo que se procura vem com o tempo,

e o que você necessita vem com o vento,
certa vez na noite

ao relento

você repousava em meu peito,
chorando as lembranças que queria esquecer,
e me indagando o porque, de sempre lembrarmos coisas,

que gostariamos de esquecer

Pois sinta a corrente de ar,
aspire o vento da mudança,
o sopro do relógio canta
que já apagou suas lembranças.

 
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Deni Mazur
Suspeitas de amor...

Se veneno tem prazo de validade, 

Por que o que corre em minhas veias não para de fazer efeito?

Nem o antidoto do tempo me cura,
Quais eram os planos?

O esquecimento faz parte dos efeitos deste inseticida,
que sempre ataca diretamente o formigueiro açucarado que nomearam coração. 

"We can't go on toghether
   With Suspicious Minds" 

 
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Deni Mazur
Um Conto de Rosas...

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Fui ali fora pedir que o sol me abraçasse
e acabei por pedir a ele que a chuva chamasse
para poder me embalar, a chuva não veio
estava ocupada dando vida a outro lugar
 
O chão esturricado clamou por água semana passada
lhe dei de beber, a rosa triste, vermelha sorriu
e assim fiz todos os dias, até hoje,
só para ver o sorriso vermelho, da rosa que hoje não se abriu

Pobrezinha, já vinha perdendo cor a algum tempo
e hoje por efeito dos dias, que para ela foram anos
resolveu se retirar, do vermelho da rosa sobrou o azul em minh'alma
então vieram os meses, e me pediram para não azular
 
Me explicaram que na terra toda vida é pura,
e com o tempo há de se renovar 
então veio um vento de sul, que me carregou até o fundo do quintal,
aonde na surpresa do vermelho das rosas, fez-se ir meu azul funeral.

 
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