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Gustavo Hobold
O Apanhador no Campo de Centeio
Escrito por Gustavo M. Hobold

“Eu fico imaginando essas pequenas crianças brincando num grande campo de centeio e tal. Milhares de crianças pequenas e ninguém por perto – ninguém grande, eu digo – só eu. E eu estou na beira dum penhasco gigante. O que tenho que fazer é apanhar todas as crianças caso elas corram pro penhasco (...)”


 

J. D. Salinger é um escritor americano e mais conhecido por este livro, O Apanhador no Campo de Centeio, que é considerado um clássico da literatura dos EUA, estando na lista dos 100 melhores livros desde 1923, da Times.

O livro conta uma história um tanto quanto desinteressante de um garoto de dezesseis anos chamado Holden Caulfield e seus devaneios pela cidade de Nova Iorque por alguns dias, depois de ser expulso de sua escola-internato, expondo a verdadeira face de uma vida adolescente, na qual o personagem principal é, também, o narrador. O que é, talvez, mais interessante é que ele possui um estilo de vida tão depressivo e solitário que, para aqueles que já passaram por essa idade, é quase impossível não se identificar em algum ponto com esse personagem único, porém universal.

Quando comecei a ler este livro, acabei me viciando, embora ele não envolvesse enredo algum. Realmente não tem, é apenas um cara falando sobre sua vida. Mas é Holden que você lê. Eu nunca havia lido, em toda minha vida, um personagem tão bem desenvolvido como vejo nesse livro; é simplesmente brilhante, porque você realmente sente que é o adolescente quem fala com você – com todas as gírias, jeitos e manias – não um intelectual como Salinger. Provavelmente é esse o motivo pelo qual esse livro é tão viciante: é uma narrativa limpa, sem obstáculos e intuitiva, que a dá uma sensação de realidade e muitas vezes você acaba se perguntando se aquilo realmente aconteceu. Eu tenho muito contra escritores e filósofos que são aclamados como gênios fantásticos e maravilhosos, mas eles sabem – ou muitas vezes não querem – escrever claramente, como Salinger faz. Esse livro pode ser lido por qualquer um – de fato, seu público-alvo são os adolescentes e eu os recomendo a ler – e qualquer um que colocar o olho no que é escrito nele irá entender, por mais que não goste.

Falei demais sobre a escrita de Salinger e de como o livro é maravilhoso, mas acabei não falando absolutamente nada sobre ele. Pois é. Então Holden Caulfield é esse garoto que perambula por Nova Iorque e vive uma vida bem adolescente – não esquecendo que a história é situada nos anos 50 – e se encontra na transição da infância para a vida adulta; enfrentando problemas como adulto – e provavelmente é por esse motivo que Salinger o coloca sozinho em NI – mas ainda com uma cabeça de criança. Enquanto tenta evoluir, começa a perceber que todo mundo é falso, desinteressante e clichê, o que acaba o tornando um completo hipócrita, embora não admita – e esse é o foco do livro.

O título merece cinco estrelas apenas por si só. Embora o livro possa ser lido até a metade sem conseguir entender onde o livro quer chegar – a lugar nenhum, já adianto –, quando Holden ouve um garotinho cantando uma música sobre um apanhador no campo de centeio – que na verdade estava sendo cantado errado –, aparentemente tudo começa a fazer sentido e você começa a identificar cada vez mais os padrões que Salinger quis deixar. Holden passa as páginas do livro tentando encontrar alguém para se apoiar ou admirar, alguém que irá segurar sua mão enquanto passa por uma das fases mais difíceis da vida de qualquer pessoa: a transição para a vida adulta, enfrentando sua puberdade, desejo sexual e pensamentos deprimentes da adolescência. É isso que ele busca, muitas vezes até inconscientemente.

Sem conseguir nada de interessante de suas atuais amizades ou relações interpessoais – representadas por seus amigos do internato –, ele volta à inocência da infância e traz memórias na tentativa de conseguir sobreviver os duros tempos do crescimento psicológico. Quando finalmente consegue apanhar esses sentimentos, vê que não é mais uma criança e que sua mente há muito mudara. Tentando encontrar seu “apanhador no campo de centeio”, Holden desenterra até mesmo seu irmão caçula já falecido e entra em contato com pessoas que ainda estão na inocência – como sua irmã – e pessoas que já passaram por tudo isso, como seus antigos professores.

A transição é facilmente vista em todos os sentidos. De  tentar beber ainda na minoridade até uma mudança drástica de suas opiniões a respeito do mundo e da sociedade. O livro mostra esse forte contraste de como Holden lembrava que as coisas eram para como elas são agora. Eu realmente recomendo este livro para qualquer pessoa, independente da idade, pois, apesar de ter adolescentes como público-alvo, sua história é certamente universal.

Avaliação: 100/100

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