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Gustavo Hobold
Deus, um Delírio
Escrito por Gustavo M. Hobold

Antes de começar a ler, saiba que esse texto é a resenha de um livro que aborda religião. Todo conteúdo que expresso aqui é minha opinião e não reflete, de maneira nenhuma, o pensamento da página Juventude Clichê de maneira nenhuma. Se você é facilmente ofendido por críticas religiosas ou coisas do tipo, peço que simplesmente não leia. Se você não gosta de ler, também não leia, pois o texto é bem grande.


“ Poderíamos nós, através de treino e prática, emancipar-nos da Terra Média, tirar nossas burcas negras e alcançar algum tipo de interpretação intuitiva – e também matemática – do muito pequeno, muito grande e muito rápido? Eu realmente não sei a resposta, mas eu estou ansioso para viver numa época na qual a humanidade está beirando os limites do conhecimento. Ou, ainda melhor: podemos descobrir que não há limites.”

 


Richard Dawkins é um cientista britânico e mundialmente conhecido por ser ateu e lutar pelos direitos de sua classe. Também é um reconhecido biólogo e evolucionista (embora eu ache que ambas estão bastante conectadas), professor emérito no New College da Universidade de Oxford, onde teve a cadeira de Professor de Compreensão Pública da Ciência de 1995 até 2008. A maior parte de seus livros publicados é em defesa da ciência, da razão e do humanismo e, por isso, fundou a Fundação Richard Dawkins pela Razão e Ciência.

Sempre vi Richard Dawkins como um ateu militante (e ainda o vejo assim, de fato), apesar de concordar que seus argumentos em prol da ciência e da razão são legítimos e certamente bem desenvolvidos (eu ainda não vejo como alguém pode não confiar na ciência, de qualquer jeito). Nesse livro, ele critica e apoia a inexistência de Deus, esse descrito na maioria dos livros sagrados das religiões modernas. Mas, ainda assim, o principal propósito do livro é colocar ao chão a fé no sobrenatural em todos os sentidos. Dawkins divide o livro em dez capítulos – provavelmente para fazer algo análogo aos dez mandamentos bíblicos – e, em cada um deles, trata de um problema (e solução) para a existência, inexistência e necessidade de deus e da religião (e o faz bem).

Se você for crente, esse livro não mudará sua cabeça. De fato, esse livro sequer tocará sua fé – ou não deveria, de qualquer jeito –, qualquer seja seu credo. Esse livro irá, é claro, mostrar um ponto de vista ateu sobre a vida, o universo e tudo mais.

Admito que não seja ateu, apesar de tender a agir como um algumas vezes. Eu sou agnóstico ou qualquer rótulo que queira dar pra alguém que não liga se existe ou não um deus (ou pelo menos eu tento não ligar) e acho esse comportamento o melhor para mim. Um dos motivos pelos quais eu considero Dawkins um ateu militante é que ele está sempre tentando pregar o ateísmo assim como padres e pastores pregam o evangelho – de fato, alguns me disseram que esse livro mudaria minha cabeça sobre a militância de Dawkins, mas não mudou. Eu acho bem mais fácil viver uma vida sem se importar se as outras pessoas possuem um amigo imaginário ou não. E ele critica os agnósticos por estarem em cima do muro – e até concordo com ele em alguns momentos, como quando diz que a ciência destruiu e tem destruído a humanidade e seu potencial para o desenvolvimento científico e tecnológico. Como você deve saber – ou não –, gosto muito do método científico.

Dawkins usa as controvérsias bíblicas provocativamente para fazê-lo pensar – ou, melhor ainda, raciocinar – se existe um deus todo poderoso que é tanto bom quanto mau e mostra que o mesmo argumento que é usado para apoiar a existência desse ser sobrenatural pode ser confundido com padrões psiquiátricos da mente. Ele até mesmo ri – e de coisas bem risíveis, se quiser minha opinião – sobre alguns credos que ainda são amplamente aceitos pelas pessoas que acham que religião ainda possui a verdade absoluta, como a lenda de Adão e Eva, os doze mil anos da Terra, o Dilúvio e algumas outras coisas que muita gente toma como verdade irrefutável.

Dawkins usa alguns argumentos realmente bons a favor da ciência e contra a religião – e eu concordo com a maioria deles, senão todos –, mas ele é um péssimo examinador da realidade. Ele é bom em descrever e talvez até filosofar um mundo sem religião. O que acontece é que a realidade não está livre da religião. De fato, a sociedade ainda sustenta um laço muito forte com entidades e poderes sobrenaturais; é um fato indiscutível. Dawkins parece se esquivar disso e não oferece qualquer solução; ele apenas critica religião e coloca a ciência acima de tudo, imaginando como o mundo seria se as pessoas abandonassem suas crenças. O fato é que isso não irá acontecer tão cedo. Nós temos que lidar com a religião e infelizmente é assim que funcionará pelos próximos *muitos* anos. Não estou dizendo que nós devemos sentar e ver o mundo queimar em fé infundada, mas devemos ao menos respeitar se queremos ser respeitados. A maior parte da sociedade crê e, por isso, somos uma minoria. Se quisermos ser respeitados, devemos respeitar. É mais ou menos assim que a democracia funciona.

De qualquer jeito, esse livro é uma leitura fascinante. Recomendo para pessoas religiosas e não-religiosas que desejam ter uma visão única do jeito de crer de Dawkins. Só peço que não vá e mande-o queimar no inferno porque não concorda com sua visão. Talvez esse livro o ajude a entender o que é ateísmo.

Avaliação: 80/100