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Ederson Oliveira
nota sobre fotografar a natureza

Quanto mais a civilização se desenvolve, menos nós nos sentimos pertencentes ao planeta em que habitamos. A distância entre o mundo natural e a humanidade cresce na mesma proporção em que as telas pelas quais vemos a vida aumentam. Conexão nos remete muito mais a redes de compartilhamento de internet do que ao pertencimento ao ciclo em que todos os seres vivos estão ligados. Curiosamente, o próprio desenvolvimento tecnológico me deu os maiores instrumentos de reconexão que eu já conheci: um sensor, um corpo e um conjunto de lentes.

 

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Anuro fotografado na Reserva Ecológica de Guapiaçu, Cachoeiras de Macacu (RJ). Por Ederson Oliveira.

 

Fotografar a natureza é um exercício de dupla sensibilização. Eu me sinto imerso quando estou no meio da floresta, fazendo imagens, sendo só mais um animal isento da prepotência humana. Meus conceitos morais e valores construídos no convívio social não representam nada para a vida que me circunda ali. Ao mesmo tempo, tudo que é registrado serve para levar pílulas dessa sensação ao resto das pessoas. Cada registro é uma oportunidade de levar o meio da floresta pra quem não está lá.

 

 

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Vista do amanhecer no Pico do Papagaio, Ilha Grande (RJ). Por Ederson Oliveira.

 

Uma foto pode lembrar a quem já esqueceu que existe um mundo onde a cor não é cinza, onde o julgamento não existe e onde o tempo não está com pressa. A imagem é, potencialmente, instrumento de sensibilização e convite para reconexão. Aquele velho clichê (e eu acredito no poder dos clichês) já dizia: a gente só protege o que conhece.

 

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Fungo fotografado na Reserva Biológica União, Casimiro de Abreu (RJ). Por Ederson Oliveira.

 

 

Vamos fotografar?

 
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Ederson Oliveira
Só sei que foi

Eu não sei o que foi.
 
Não sei se foi o jeito de rir sem se conter, do jeito mais sincero e feliz que eu já vi.
Não sei se foi por causa das flores, sejam elas de verdade ou estampadas, grande ou miúdas.
Não sei se foi, quem sabe, a simpatia que faz todo mundo reparar.
Não sei se foi a luz indireta e pouca da sala de cinema.
Não sei, também, se foi a luz intensa e solar da praia.
Não sei se foi o espelho nos olhos, refletindo o mundo
Não sei se foi o sol no cabelo ou o gliter no rosto.
Não sei se foi o amor no peito ou o brilho do olho.
 
 
Dizem que nunca é uma coisa só, e sim uma mistura de detalhes e idiossincrasias.
Ou amor mesmo, da jeito mais simples possível.
Só sei que foi.
 
 
 
 
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Ederson Oliveira
A vida é sobre não estar imune
 
Ninguém está imune de, em uma quarta-feira nublada de dezembro, achar alguém que torne seus dias mais leves e cheios de borboletas (que a essa altura já saíram do estômago e estão voando por aí). Depois disso, a relatividade do tempo fica tão evidente quanto seu sorriso bobo lendo mensagens no meio da tarde. Horas, meu amigo, podem ser uma intragável eternidade e minutos podem durar um século inteiro. Ele, o tempo, só reflete a velocidade do que a gente está sentindo, ora congelado pálido e ora mais apressado que a luz. Uma vez eu li que as coisas mais legais acontecem quando a gente está distraído, sem procurar, sem grandes expectativas. E fazendo uma rápida retrospectiva é muito fácil perceber que o que a gente tem de mais valioso hoje vieram de encontros casuais, de lugares comuns, sem nada de premeditado ou esperado por semanas. A vida tem esse capricho, de dar quando a gente não espera receber. Então, não menospreze o poder das quartas-feiras nubladas de dezembro e muito menos da gentileza que o universo é capaz de prover...

Ninguém está imune, entretanto, de, em um sábado chuvoso de março, deixar ir alguém que já não estava de verdade há tempos. É a ampulheta do tempo virando, e a gente com ela. As tais borboletas já foram sobrevoar outros lugares e a chuva de fora não é nem um pouco comparável ao dilúvio de dentro. É como se aquilo que começou naquela tarde de dezembro não apenas tivesse apenas se iniciado naquele momento, mas tivesse começado a acabar a partir de lá. “A gente começa e já começa a terminar”, porque o universo tende ao caos e a gente não seria diferente.

Não duvide da imprevisibilidade dos dias despretensiosos, não ache que a gentilezas vão durar para sempre e, sobretudo, nunca pense que outras tantas ainda não virão. Porque a vida, amigo, é sobre não estar imune.

 

 
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Ederson Oliveira
apenas uma nota

Que a beleza do meio me inunde. Qualquer esforço pra compensar a erupção interna com a calmaria de fora é aceito. Quero ouvir o ensurdecedor, ele ajuda a calar as vozes byronianas que me acordam e que me levam para a cama. Quero provar o amargo, sem o qual o adocicado não teria qualquer atenção e seria corriqueiro. Falar também, mas aquilo que não é qualquer um que ouve. 
O mundo, imagino, é repleto de oásis prontos a acalmar o espírito do menino confuso e medieval. Talvez não seja fácil encontrá-los. Aliás, difícil mesmo é conseguir calar os ruídos externos que tornam difícil para percebê-los. Mas o rapaz consegue. Hoje pode ser que não, mas isso não é nada pra quem tem a eternidade. E não adianta contar isso tudo ao menino, ele ainda não entenderia...

 
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Ederson Oliveira
Carta

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É, já faz um ano que não escrevo nada. Muita coisa mudou, mas ainda está tudo igual. Mudaram as pessoas que tenho que ver todo dia, a atendente daquele bar que a gente ia nas sextas e até o aquele meu jeito que você achava engraçado de amarrar o cadarço do all-star. O que resistiu a esse tempo? A mania de sempre sair de casa com um bloquinho e escrever as bobagens que penso na rua. Só que um pouco da graça desse hábito foi embora junto com você. Parte importante do ritual era chegar, te mostrar a “produção” do dia e agüentar seus deboches – dos quais sinto falta. Qualquer dia te mando as coisas que escrevi. Na verdade, é provável que não mande. Não saberia lidar com o fato de não conseguir ver as suas reações ao lê-las. É estranho encontrar com seus amigos e não ter notícias suas pra dar. Não saber onde vive, com quem anda ou que tipo de música anda ouvindo. A propósito, distribui entre eles aquela coleção conjunta de vinis que tínhamos. Cada um mais lindo que o outro, cheios de histórias. Como aquele do Nirvana que você colocava pra ir animando a galera que ia lá em casa antes de parar em um boteco qualquer, ou aquele do Chico Buarque que já deveria estar cansado de embalar as tardes preguiçosas de domingo. Dei todos. Entenda, era difícil ter que olhar e lembrar de tudo que não vai acontecer de novo.
Deve estar estranho eu ter digitado isso, ao invés de escrever. Logo eu, o “ultrapassado averso a qualquer tipo de avanço tecnológico”. Pois é, aprendi que nas horas de solidão esses avanços servem pra te enganar e te iludir a respeito dessa condição. Me fazem não me sentir só, apesar de estar. Talvez e-mails e mensagens sejam efêmeros demais, e não quero ser mais um ao lado de spam de loja de eletrodomestico.
É isso, agora vou ter que sair e fingir que não estou com saudade e que talvez você volte e que talvez eu consiga escrever de novo. Ou esperando que, quem sabe, você me responda pela primeira vez. 
 
 
"Com carinho, R"    (18 de junho de 2011)
 
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Ederson Oliveira
(in)certeza


Eu não sei de nada e foi nessa conclusão que eu cheguei na vida.

Não sei quem são as pessoas, elas mudam tanto e de formas tão inesperadas que a gente só pode confiar que, talvez, elas saibam o que estão fazendo. Não sei nada sobre os lugares, que são moldados por pessoas, logo, mudam tanto quanto elas. Não sei nada sobre assunto dos quais eu jurava ser phD, não passo uma conversa sobre eles sem que alguém refute algo óbvio que eu nunca havia percebido. Não sei nada sobre mim, sequer. Não sei afirmar sem a presença de dúvidas o que vou fazer no futuro, quais são os meus objetivos, no que eu acho importante investir. Não sei nem sobre aquilo que já passou. Não sei explicar os motivos que me fizeram tomar decisões contraditórias, não consigo entender atitudes que hoje vejo como absurdamente idiotas e não sei o motivo de mudar tanto de opinião. Não sei nem o que vou almoçar amanhã, e sequer me lembro do jantar de ontem. Muitas pessoas constroem certezas e regras que, sinceramente, não servem para nada. A única certeza eu tenho é que as minhas dúvidas não precisam ser vistas como coisas ruins ou como fontes de ansiedades. Não saber de nada (mas saber que não sei de nada) é que o faz com que eu ande pra frente e não fique parado nesse mar sem ventos das certezas.

"a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza"

 
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Ederson Oliveira
“muito ajuda quem pouco atrapalha”


Carrego algumas coisas, que estão comigo em todo lugar. São coisas imateriais que a gente vai juntando enquanto vai vivendo, com a vantagem de poder acumular o quanto quiser sem precisar pagar bagagem extra. E essas bagagens são as que regem o modo como vejo o mundo. Algumas a gente carrega por vontade própria, outras as circunstâncias vão plantando e, quando a gente percebe, já são pelo menos uma bolsa de mão na nossa vida.

Uma dessas coisas é a não necessidade de julgar o modo como as outras pessoas vivem suas próprias vidas. Ou melhor, a ciência de que a única vida na qual eu posso aplicar todas as minhas leis e ideias é a minha própria. Nessa eu mando e desmando, e sofro o que vier por consequência. Nas demais, eu apenas respeito. E não estou falando de se isolar e colocar-se como o único alvo das suas preocupações. Acho justo que amigos se preocupem uns com os outros e tentem mostrar outras possibilidades, a fim de ajudar. Não me refiro a esse tipo de “julgamento”. Falo daquelas críticas sem o menor traço altruísta, feitas apenas para destilar a falta de empatia de quem as faz.

É um lugar-comum dizer isso (pelo menos pra mim já é uma ideia recorrente), mas as coisas se tornam mais leves quando a preocupação maliciosa é substituída pelo zelo sincero. Ou pela indiferença, também. Porque é isso, se não for pra ser construtivo, que não seja nada. Ou, como a gente gosta de clichês verdadeiros, “muito ajuda quem pouco atrapalha”.

 

 
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Ederson Oliveira
Em um banco de praça

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Alguns dias são bonitos só de existirem. Não precisam que nada de extraordinário aconteça para aumentar o nível de contentamento que a gente sente com a vida quando se está em um deles. Talvez esses dias não sejam os mais frequentes, então há de se sair de casa e abusar da sua efemeridade. E hoje foi assim.
Acordei como quem não sabe exatamente de onde veio esse ânimo que andava ausente, mas que sabe exatamente para onde canalizá-lo. Andei pensando que o fato de a gente acreditar que tá feliz pode ajudar, alguma coisa como efeito placebo. Desde então, acordo fingindo que não me preocupo com esses problemas (tão bobos, vá) e aproveito a liberdade que isso gera. Então, cá estou, em uma tarde de quarta-feira sentado em um banco de parque , pensando no quanto tudo pode ser mais leve se a gente deixar.
E isso tudo me parece menos bobagem quando olho pro lado e vejo mais pessoas assim, só sentindo a vida em uma quarta comum. Penso que, lá na frente, essa gente que tentou não levar as coisas tão a sério é que vai sentir ter feito algo da vida além de passar por dias seguidos e automatizados. A vida é mais que isso...
 
 
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Ederson Oliveira
Mas em você dá pra confiar


Eu acho que deveria te agradecer, pelas coisas que eu gostei e (principalmente, talvez), pelas coisas que eu não gostei de receber. Na verdade, acho que a gente ajuda mais o outro quando é autêntico e sincero no modo como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas do que quando vestimos a fantasia de super-herói e nos propomos a salvar a pátria. E você, ainda que de um jeito bem atropelado e desastrado, sempre manteve a coerência. Tudo bem fazer merda, elas fazem a gente aprender coisas tão lógicas e simples que não existe nada além da experiência que ensine. Não estou falando que você esteve sempre certa (embora adore bradar que é a dona da razão e que não a divide com ninguém), estou falando que seus erros mostraram o quanto a gente pode errar que ainda dá pra ter uma vida legal, sem entrar naquele estado de ficar cultivando equívocos antigos. Engraçado saber quando você tá com raiva de verdade ou quando tá só irritando pra achar graça. Mais engraçado ainda não ter a mínima ideia do que vai estar pensando amanhã, mas saber que não preciso me preocupar porque dá pra confiar. É essa a questão. A gente não conhece completamente ninguém nessa vida, mas em algumas pessoas a gente sabe que dá pra confiar. Não vai jogar fora seus hábitos estranhos, eles fazem o papel de interessar aqueles que sabem enxergar o quão legal você é. Não precisa ter medo de começar tudo de novo (de novo), você é boa nisso! Não fica desesperada com coisas tão bestas, porque eu vou rir muito da sua cara por isso ainda. Não precisa parar com o cigarro, só precisa parar de assoprá-lo na minha cara. E não, isso não é um texto de despedida. Bora tomar aquelas cervejas no final de semana?

 

 
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Ederson Oliveira
"Eu sei, mas não devia"

(O texto dos nossos tempos, parido por Marina Colasanti e adotado por mim.)
 

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."
 
 
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