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Ederson Oliveira
Agora eu cansei

Nunca foi minha conduta ficar reclamando dos acontecimentos e dos problemas que perpassam esses árduos dias em que vamos (sobre)vivendo. Sempre acreditei naquele papo loser que os problemas são feitos pra gente aprender e nos tornam mais sábios e essa balela toda.

Mas agora eu cansei. Cansei de ter que esperar o próximo ônibus porque o que passou estava completamente cheio e não queria acabar com o pouco de dignidade que me restava. Dignidade essa que gritava na minha cabeça que não se pode ficar resignado pagando um preço alto por um serviço tão precário. O próximo vinha e, adivinha, lotado. Tinha que dar adeus a dignidade, então. Era ela ou chegar atrasado de novo e ficar sem o emprego. No final, acabaria a perdendo mesmo.

Não acho que devo mais achar normal jogar lixo por aí. Seja no chão, seja na televisão ou nos subempregos por aí. Não tenho mais que aceitar ser passado pra trás na fila porque o outro dispõe de mais recursos ou pode prestar mais favores que eu. Tenha influência e tenha grana, consciência é dispensável.

Cansei de fingir que não escutei uma grosseria aqui, uma arrogância ali e de achar que não vale a pena tentar mudar a forma como as pessoas se tratam porque isso “vem de berço”. Que berço é esse que as pessoas andam tendo, meu deus? Não posso mais acreditar que quem faz as coisas de maneira sensata tem que se curvar as vontades daqueles que vomitam arrogância todos os dias, em todos os lugares.

Não acho mais cabível apertar pra caber mais um, aguentar o chefe abusar do poder que tem porque talvez consiga uma promoção, beber cerveja quente porque não se pode esperar muito de um lugar tão barato, aceitar qualquer companhia porque é digno de pena andar sozinho por aí, levar vantagem sempre que for possível (ainda que isso derrube alguém, que também tentaria levar vantagem) ...

Eu pensei em gritar por aí que as coisas não andam certo. Pensei em levantar a voz e não aguentar mais as coisas com as quais a gente se acostuma. A gente se adapta demais, talvez mais do que deveria. Mas aí seria chamado de desordeiro. “Sem violência, rapaz”.

 

 
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Ederson Oliveira
O que eu preciso.

"Boa tarde! Precisa de alguma coisa, senhor?"
 
Olha, eu preciso. Preciso de mais pessoas que se importem com as outras e menos que acham que vão chegar a algum lugar sozinhas. Preciso de gente que saiba que somos muito mais que mostramos, e que não julgue todo mundo com os mesmo critérios. As pessoas são diferentes, com habilidades diferentes, dons diferentes e conceitos de "sucesso" diferentes. Preciso de climas mais amenos, pra conseguir pensar na vida direito. Preciso pensar mais na vida e pensar menos nos problemas dela. Talvez precise de um café pra aguentar a noite. Talvez precise de coragem pra enfrentar o dia. Ando precisando também de tempo pra canalizar outros tons, cores e sons. Tempo a toa. Preciso de férias, de amor, de orgasmo, de silêncio. Sem falta, preciso ler aquele livro e ouvir aquele disco. Mas o ônibus está lotado e a vitrola não tem agulha. Bater na sua porta, de madrugada, na chuva, e falar todas as coisas que já passaram pela minha cabeça. Mas isso, talvez, eu nem precise mesmo, mas me agrada imaginar a cena típica de filme de drama barato. O que eu preciso não cabe aqui. (Eu não preciso de nada)
 
"Não, não. Só estou dando uma olhadinha."
 
 
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Ederson Oliveira
A validade das coisas
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Sonhei com você. Isso já aconteceu outras vezes e eu sempre te contei, com todos os detalhes que a amnésia do dia seguinte permitia. Mas, dessa vez foi diferente. Não foram aqueles devaneios típicos de se ter com pessoas que você ama e que a gente fica feliz de compartilhar. Não tinha, como das outras vezes, lugares bonitos, aventuras para as quais eu te arrastaria, festas ou viagens. A única coisa que tinha era a indiferença com a sua presença. E com isso, definitivamente, eu não estava acostumado a lidar.
Foi nesse dia que as coisas mudaram. Aqueles momentos epifânico que mudam alguma coisa pra sempre. A partir dessse estalo eu percebi (ou aceitei o que, inconscientemente, já tinha entendido) que, assim como as coisas que a gente compra no mercado, os relacionamentos tem data de validade. Pode ser bem grande, ou curtinha. Mas nada é infinito, tudo é perecível. Não adiantaria mais eu fazer aqueles programas que uniram a gente no princípio, ou mostrar aqueles filmes que tinha certeza que iria gostar (porque eu sempre conheci mais seu gosto que qualquer outro), ou mesmo fazer nada juntos. Nada disso teria o mesmo efeito. Eu só queria saber, meu deus, quem determina o quanto as coisas vão durar. Se conhecesse esse cara, pediria mais um tempo. Mas, acho que ele, sensato como de ser, negaria. "Se passar da validade estraga, rapaz." 
Só que isso de amor não acaba (eu penso assim, de forma inocente até), se transforma em outra coisa. E, nesse caso, virou um sentimento de cuidado e de ligação maior que esses que acabam quando as pessoas brigam. E, enquanto forma de amor (grande), ainda precisa de cuidado e "espaço pra crescer". E isso eu tenho certeza que você já ouviu isso por aí...
 
 
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Ederson Oliveira
Sobreviver não é uma escolha

Você sobrevive.

Por mais torta, sinuosa, estreita e desconhecida que seja a estrada. Ainda que faltem placas e que as existentes não sejam lá muito encaminhadoras. Por mais que seja preciso voltar para a bifurcação anterior e ir pelo outro lado, ou, quando isso não for possível, fazer com que o caminho errado dê certo. Por mais sem graça que seja o palhaço, umas hora o espetáculo acaba, as luzes se apagam, as pessoas vão embora e você pode procurar um outro motivo pelo qual valha mais a pena rir. Ou esquecer essa ideia de procurar motivos e achar graça da desgraça mesmo. A fase ruim do seu time, o período deveras complicado, a crise dos 40, o fim do primeiro amor, a falta de ânimo, o frio na barriga de sair de casa... Tudo isso passa. E você sobrevive. Não se enxerga a amplitude do furação estando no olho dele, precisamos de um certo distanciamento. Então, não, você não vai morrer porque ficou doente. Sim, você ainda pode se formar e se firmar profissionalmente mesmo com uma nota baixa. Não, esse não foi o último amor da sua vida (e o próximo também tem grandes chances de não ser). Sim, você vai sobreviver. O que não vai passar é essa nossa ânsia de esperar que todas as coisas estejam em seus lugares para, finalmente, a tal da felicidade chegar. Não passa a predisposição de querer controlar os rumos que a vida toma e não conseguir se sentir bem até que tudo se encaixe nos seus planos do filme de sessão da tarde. Isso não vai acontecer, e você pode ter uma vida legal apesar disso.

 

Só não vai se jogar do primeiro prédio que encontrar, cara. Porque disso você não vai escapar, e não vai ter tempo de sentir a delícia de sobreviver ao “insobrevivível”.

 

 
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Ederson Oliveira
Extinguir.

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Grandes diversidades biológicas são posteriores à períodos de extinções. Quando determinada espécie é extinta, o espaço que ela ocupava no ambiente em que estava inserida (seu "nicho") fica vago. Consequentemente, é menos um predador e maior quantidade de alimento disponível. Isso possibilita uma certa "expansão" biológica. Calma, não precisa parar de ler. Não vou escrever nenhum artigo científico (até por não ter competência para tal) ou qualquer coisa parecida. Apenas resolvi dividir a ligação que eu fiz disso com um mundo nada científico.
É exatamente o que acontece na nossa vida. Ou pelo menos o que me parece. Nós só crescemos depois de eliminar alguma coisa, para que sobre espaço para as novas entrarem. É como se fosse preciso extinguir de nós o que não evolui afim de não despender energia. Energia, essa, que é fundamental para desenvolver facetas que ficam esquecidas, às vezes. Acho que a gente tem mania de ir guardando as coisas na esperança de que elas ainda sejam úteis. Ou só por guardar mesmo. O problema é quando isso passa do limite e não cabe mais nada nos nossos "nichos". 
Falo de extinguir aquele tempo todo que a gente fica no trânsito. Aquelas horas que a gente fica na frente do computador fazendo coisas tão relevantes que não vamos nos lembrar daqui a 10 minutos. Aquela sensação de que poderíamos ter feito alguma coisa melhor. Extinguir o orgulho que não deixa as coisas andarem... tanta coisa. Com isso iria sobrar espaço pra ler aquele livro que você andou adiando, pra ficar sentando na praia olhando o sol ir embora ou ainda pra fazer nada na companhia de quem importa. 

(Se fez sentido para mais alguém, além de mim, manifeste-se. Por favor.) 
 

 
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Ederson Oliveira
Sensações

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Sensação de frio na barriga. Quando o que está por vir depende de muito mais que sua vontade para dar certo. É como se, mesmo sabendo que vai fazer o que deve ser feito, alguma coisa ainda insiste em deixá-lo desesperado. O instinto de preservar o que já conquistou. Mas, é boa de se sentir. Aí você percebe que está vivo e que o mundo está em movimento.  A respiração antes do mergulho, os segundos antes da queda livre.

Sensação que chamam de saudade. A ausência daquele amigo que tem desde o colégio perto quando dá vontade de beber uma cerveja numa tarde quente de domingo, e falar sobre coisas inúteis muito importantes. E não, não é a mesma coisa "matá-la" com computador, celular ou qualquer outro modo que envolva quilômetros de distância.

Sensação de solidão. De tempos em tempos eu penso que somos sozinhos no mundo. Apesar dos amigos, apesar dos amores. São importantes, mas não somos nós. A maior viagem que a gente faz é pra dentro. Descobrir (ou tentar) o que somos e pelo que estamos dispostos a mudar.

Sensação de desafio. Essa é a que nos move. Se não está bom, se poderia estar melhor, se o salário não é justo, se a namorada não é cúmplice,  se os "se's" estão incomodando... Porque perdemos muito tempo fazendo só o confortável. Tenho a impressão que, quando tiver idade pra ser chamado de velhinho, vou me lembrar com mais apreço de quando fiz o que queria fazer e de quando enfrentei os medos que eu mesmo inventei.  
 

 
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Ederson Oliveira
Parabéns

O cara nunca ligou pra peso, mas engordou sete quilos esse mês.
O cara nunca guardou mágoas, mas já tinha que escolher onde iria por quem estivesse lá.
O cara nunca amou. Agora vive.

Bancar o durão esse tempo todo não foi útil de nenhum modo. Agora é só uma criança, daquelas que só entravam na brincadeira porque eram as donas da bola. Daquelas quer não deixam a infância ser, e a vivem agora.  Meu caro, enquanto você lê isto, ele está em um bar qualquer acabando com o estoque de cerveja barata do lugar. O intuito é se cedar. Resolveu comemorar o dia em que foi, inescrupulosamente, obrigado a ser mais um habitante deste planeta de acordo com a vida que andava levando. Sozinho e buscando realidades paralelas. O mundo parecia um livro aberto depois de algumas doses. Essa data talvez nem seja importante. Só mais um dia comum, com o peso de ter gerado ao mundo mais uma alma vagante e ignorante para as coisas dela. Um ano a mais, ou um ano a menos?

Agora ele vai voltar pra casa.
Agora ele vai acordar em um outro dia, que não é seu aniversário.
Agora ele vai voltar pro trabalho, que nunca foi dos seus sonhos.
Agora ele vai repetir isso até o última dia.
Parabéns pra ele. Parabéns pra ele? 

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Ederson Oliveira
A carta que eu deveria ter mandado.

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Eu gosto de você. Na verdade, a amo. E, mesmo sabendo do imediatismo do que a gente sente, tenho certeza que vai se tornar a minha maior referência emocional da vida. Aquela que vou lembrar quando estiver velho o suficiente para sentar ao pôr-do-sol e ter mais coisas para lembrar que o tempo da lua chegar.
Se você se afasta, cada distração é bem-vinda. São elas que fazem a minha mente (ou coração?) visitar outras terras e esquecer o quão isso me deixa apreensivo. Mas, fazer isso é te tirar por alguns momentos de mim. Não quero! É um tiro no pé  ir aos lugares mais bonitos desta cidade se lá sempre penso que deveria estar junto. Se eu me afasto é por não ter certeza das coisas. A falta de certeza me faz precisar que me dê a mão e me tire da inércia que vem junto. E é um afastamento ridículo. Se penso, não está longe de verdade.
Quando fico irritado com seus amigos, não é por não gostar deles. Como não iria gostar de quem te faz bem? É só medo. Medo de ser subtituido, de que alguém mais legal/cool/divertido me empurre da sua vida. Sou corajoso o suficiente para dizer que sou medroso. Esse sentimento me assombra todo o tempo, e faço besteira.
Lembro exatamente quando a vi pela primeira vez. Eu, o garoto do interior, distraido e fazendo de tudo para não ser notado. Você, a (que tentava parecer) confiante. Só não imaginei o que viria. Que bom que veio.
Talvez leia isso e ria disso tudo, me ache um bobo mesmo. Talvez perceba o quanto esta pieguisse é honesta. Talvez me ame e fique. Talvez me ame e vá. Talvez não.

Talvez eu tenha coragem de mandar esta carta.
 

 
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Ederson Oliveira
Porque o mundo pode ser bonito.

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Foi a primeira vez que se sentia bem, em meses. Bem a ponto de não sentir as horas passarem. Outrora? Até os segundos se arrastavam. Era uma liberdade sem a vigília que a tornava inútil. Era a efêmera, mas intensa, sensação de que a vida é bonita e prazerosa nos detalhes. Que as coisas bobas e que não se tornam nossas com dinheiro são as que fazem a diferença. Era a segunda vez ali, como se a paz do mundo todo se concentrasse naquele lugar. Catarse, no pôr-do-sol. Quando a prestação não importava, o trabalho era bobagem, a briga com a mulher não fazia sentido. Apenas olhar e esperar virar noite. Como é possível se sentir tão à vontade onde sequer é conhecido pelo tio da padaria¿ Onde nem mesmo existe um caminho que faça todos os dias? Não existe explicação. Existe apenas o fato: Se a felicidade existe e não é uma utopia, estaria ali.

A partir dali, soube o que escrever nas dedicatórias dos livros que acaso desse: “Que saiba fazer do quintal da sua casa ou do resto do mundo, o seu lugar. E que lá tenha o pôr-do-sol mais bonito para dividir com quem ama. E que leia este livro lá. Abraços.”

(Escrito ao som de Cazuza - http://www.youtube.com/watch?v=6K3oWkpPfHA - Foto: Pedra do Arpoador).

 
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Ederson Oliveira
Tempo


“Pedi tempo”. Sem culpa ou arrependimento, se assim não fosse talvez não tivesse me tornado o que sou. Calculando, planejando, preparando. Era como colocar todas as coisas nos seus lugares antes de agir, residiu aí a questão. Nunca teremos todas as peças encaixadas nos espaços que reservamos para elas em nossa mente tão imaginativa quanto cruel, e usei grandes porções de vida, chame de tempo, com isso.

Repito, não existe remorso. Aquele velho clichê é a verdade crua: Aprendemos com os erros. Clichês, inclusive, são onde as maiores verdades do mundo moram, mesmo a gente não pensando neles com o devido cuidado. Se aprendi alguma coisa, se melhorei em algum aspecto ou deixei de fazer besteiras a partir, como posso dizer que o tempo desprendido à tal fato foi perdido¿ E o mesma não é uma grandeza escalar, daquelas que aprendemos no colégio e que podem ser medidas com exatidão. Sei que temos horas, minutos e afins, mas não me refiro a isto. Uma hora deitado num píer olhando pro céu cheio de estrelas com quem você gosta é uma fração de segundos ao ser comparada com 60 minutos em um metrô de uma grande metrópole em horário de pico. Falo disso. Tempo psicológico. Tempo que a gente sente.

Perderei anos se me parecer interessante. Vou correr com tudo para sentir a vida passar mais devagar se for conveniente. Renato Russo, gênio, foi muito preciso: “Temos nosso próprio tempo”.

 
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