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Ederson Oliveira
Ela

Ela

Em algum momento da vida, sentimos uma alegria tão grande e espontânea, sem a pretensão de durar pra sempre, que os problemas ficam anestesiados e o que era pra ser uma barreira enorme, não passa de um estímulo para continuar. Era assim que ela se sentia agora. Sua casa estava na desordem, física e psicológica, completa. Suas relações com as outras pessoas não era o que se podia chamar de sólida e madura, viva cheia de discussões e interpretações tortuosas. No trabalho não conseguia ser a profissional que gostaria, não tinha o dom de transformar todo o conhecimento que tinha em algo prático que desse retorno profissional. Sua família? Desde quando saiu de casa perdeu aquele vínculo que a gente cria com quem a gente fala todo dia. Passou a falar com os pais raramente, naqueles almoços de domingo que ninguém gosta de ir ou por telefone no final do horário de almoço.

Tinha tudo pra se tornar uma inconformada com a vida e viver a La Bukowski. Inconformada se tornou mesmo, mas sem se tornar revoltada. Aprendeu a canalizar suas frustrações para torná-las impulsão para buscar algo além. Mesmo com os ventos soprando ao contrário, conseguia acordar todos os dias e sair de casa certa que podia fazer naquele dia o que mudaria sua vida. No geral, vivia tudo igual todos os dias. Gosto de pensar que o que a fazia de diferente das outras era esse espírito de busca. Se perdia, levantava com um sorriso maior do que quando caiu. Se ganhava, queria uma vitória maior ainda.

Não sei até que ponto viver assim é bom. Mas que isso me encantou e mudou meu modo de ver a realidade é inegável. É o que eu sempre digo, honrar a luz dos olhos.

 
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Ederson Oliveira
Tenha Medo e Vá

Chega a ser assustador...

Nunca saber como vai viver daqui a algum tempo. Não ter a certeza que tudo que planejou vai acontecer mesmo. Não saber nem mesmo se vai continuar tendo os mesmos objetivos, quando novas experiências aparecerem e mudarem seu ponto de vista.

Ele sabe que nada que é perpétuo. O que ainda vai ter que enfrentar o fará ter novas visões sobre as mesmas coisas, visões que antes pareciam inconcebíveis; sabe por que já passou por isso. Quantas vezes se viu diante daquele momento em que tinha que optar entre as suas antigas verdades e as novas idéias? Aquela hora em que era questionado sobre algo que ainda estava vagando em sua mente, mas tinha que se posicionar... Escolhia o novo, ainda bem.

Achava muito estranho quem se deixava levar pela conveniência de achar aquilo que todo mundo achava, pela facilidade de fazer exatamente tudo que os demais faziam. Preferia ser àquilo que Raul dizia, “essa metamorfose ambulante”. Seu lema era “tenha medo, mas vá.”

Andava com esses devaneios por um bom tempo, mas aí a rotina apertava. Com os dias cheios ficava mais fácil levar a vida, nem via o tempo passar. Colocar no automático e seguir em frente. Quando parava e se rendia a circunspecção de novo, via o quanto odiava esse negócio de passar os dias sem perceber, sem fazer nada que marcasse e virasse uma memória daquelas que todo mundo gosta de contar pros amigos. Talvez essa tentativa de estar consciente, de não estar anestesiado pelo mundo, era simplesmente porque queria estar muito vivo quando o desconhecido viesse mudar os rumos de sua vida.

Nunca veio, mas ele ainda espera...

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Ederson Oliveira
Estado Imaginário

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Sentiu-se estranhamente feliz, sem saber muito bem o motivo. Precisava saber, só assim conseguiria repetir esse momento. Na verdade, nem acreditava muito nessa história de felicidade. “É um estado imaginário” costuma repetir, ao som do Barão Vermelho. Achava que conseguiria alcançá-lo independente do que estivesse à sua volta, preferia acreditar nisso. Estava numa fase de busca de amizades. Não conseguia mais lidar com o fato de ter tanta gente em volta e poucas delas serem pessoas com quem podia contar de verdade. Passou a valorizar aquele que não aparecia tanto na roda de amigos, mas que era o primeiro a perceber quando alguma coisa não estava bem e tentava ajudar. Notava mais as sutilezas do comportamento dos outros com o propósito de saber quem era mais parecido com ele. Pensou por um instante que essa felicidade viria daí.

Desde que andava muito ocupado não ouvia música alta, se contentava com o fone no caminho do trabalho ou mesmo com o computador num volume baixo. Com a falta, notou que era uma das coisas que o fazia se sentir vivo. As letras, os riffs, tudo muito alto devolvia aquele brilho no olhar que a cidade tentava apagar. Quem sabe daí viria a felicidade?

Olhava seu caderno cheio de anotações que preferiria que ninguém lesse. Viu ali passagens de sua vida, não fatos, momentos psicológicos. Guinadas de pensamento. Engraçado como qualquer lugar servia pra depositar no papel a confusão que era o seu pensamento. Ler aquilo tudo depois de certo tempo trazia uma nostalgia, saudade mesmo, mas não dor. Talvez fosse a válvula de escape do que não conseguia, ainda, dividir com a humanidade. “Que bom se ser feliz depender só disso”, pensou.

Ali, perdido nesses devaneios, se deu conta que esse “ser feliz” já passou. Lembrava, sim, que tinha milhões de coisas pra fazer, mas aquela brisa passou. Talvez fosse apenas um lapso de esperança na vida passageira. Afinal, a felicidade é um estado imaginário.

etenhoditoblog.blogspot.com

 
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Ederson Oliveira
Vai Suportando...

Vai suportando...

Fingindo que não se incomoda com os sorrisos amarelos, aqueles que não carregam nada além da obrigação de tentarem ser simpáticos; e tendo que dá-los também, tentando ardentemente passar despercebido para essa gente tão estranha.

Fingindo que não liga para usura que cega alguns a ponto de esquecerem o mais importante na vida: os sentimentos. Tentando trilhar um caminho paralelo a esse, embora tudo o impulsione a se deixar levar pela correnteza.

Fingindo que o fato de conhecer tão poucas pessoas que pensem como ele, é normal. Mesmo buscando, são poucas, e agora ele começa a entender que sempre vai ser asssim... São os "poucos e bons", os nossos.

Tentando acreditar que os políticos vão melhorar o país, que o povo vai valorizar as músicas com alma, que os preços não estão tão altos assim, que a educação está preparando os alunos pra vida, que o sistema de saúde vigente salva todos que precisam dele, que a pobreza vai ser eliminada... Se enganando para preservar o que de sincero ainda lhe resta.

Assim, vai se adaptando, se moldando, para conviver com os demais. Sem deixar, porém, suas partes vivas se apagarem. Reservando essas pra alguns.


Vai suportando... Mas uma hora cansa.
"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz.
O caminho mais curto, produto que rende mais.
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz.
Um tiro certeiro, modelo que vende mais."

Engenheiros do Hawaií

 
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Ederson Oliveira
Ser, mesmo diferente.

pessoasMe perco pensando no jeito como as pessoas tentam impor o seu modo de viver sobre as outras. Qualquer caminho que se desvincule daquele que elas escolheram "já é tido como errado". Se você pensar que só pode ver o mundo de uma forma, acabará perdendo a chance de conhecer pessoas interessantes e, até mesmo, de se renovar. Porque só se renova quem consegue buscar alternativas diferentes da que acredita atualmente.

Admiro quem enxerga que as escolhas que cada um faz não podem ser rotuladas. O que vai definir o que foi uma boa opção ou não é o tempo: e esse ninguém pode controlar, ainda bem. Imagina a monotonia que seria um lugar onde o jeito de viver fosse "padronizado", sem a beleza da diversidade que as diferenças acrescentam.

Ser, é viver de acordo com o que se acredita e deixar que os outros também vivam de acordo com suas crenças. Quando todos estiverem convictos que não existe erros ou acertos quando o assunto é viver, vou acreditar que o ser humano é realmente livre para fazer o que quiser. Até lá, a gente vai driblando esses ditadores, buscando nossa verdade.

 
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