⌠ 15 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
As árabias e as quantitativas mortes árabes

alt

Imagem retirada de http://correiodobrasil.com.br/israelenses-abrem-fogo-contra-manifestantes-e-matam-13-palestinos/240346/

 

Tantos acontecimentos que se deram nessas últimas semanas que mereciam um comentário, uma análise que pudesse desvendar, li recentemente uma frase num e-mail, cujo autor desconheço, que calha para as ocasiões,
 
“Nas últimas semanas beatificamos um papa, casamos um príncipe, fizemos uma cruzada e matámos um mouro... Bem-vindos à Idade Média!” E de fato, pouco se tem que explicar, de tão óbvio que seja, o mundo é ainda medieval, e os donos das armas e da verdade, ainda têm direito a fazer quantas cruzadas bem entenderem.
 
Mas quando é que iremos obter a resposta crucial, quantos árabes são necessários para pagar pelos 3.000 estanunidenses mortos nas torres. Estima-se que já vai para a casa do milhão o número de mortos no Afeganistão, Iraque e Paquistão desde 2001. Minha pequena matemática das operações básicas diz que a conta vai dar 333,33333... (como se a pessoas se pudesse dividir, talvez com bombas?) árabes para 1 estadunidense, o que indica que a matança ainda deve durar, visto que essa estatística chega a ser miserável para um povo que tem por herói o Rambo e o Exterminador do Futuro.
 
Mas é tudo uma questão de nomes. Meter um avião nas torres gêmeas e matar 3.000 capitalistas “inocentes” é terrorismo, invadir território alheio, com ou sem consentimento da ONU (o que não quer dizer lá muita coisa) matar supostos terroristas (segundo a Wikileaks, 63% dos mortos no Iraque até 2009 eram civis) com mísseis, tropas e aviões não-tripulados é guerra.... “e o Oscar vai para...GUERRA AO TERROR”.
 
Mas para sermos atuais, na velocidade que a contemporaneidade pede, vamos falar das últimas notícias, dia 16/04/2011, fonte Blog do Mello, tropas israelenses atiram contra palestinos que protestam nas fronteiras do Líbano, Síria e Gaza, 13 palestinos morrem e 82 ficam feridospara “prevenir” (a palavra é essa mesmo) que os palestinos entrassem em território judaico, já diz a sabedoria popular, melhor prevenir que remediar. Em 22/03 desse mesmo ano. aeronaves israelenses mataram 4 pessoas, sendo 2 crianças e feriram outras 4 em represália a morteiros disparados contra Israel, segundo a BBC. Mas são meras notícias por aqui, e vamos com calma que chamar o estado de Israel de Assassino é visto como anti-semitismo.
 
Além do mais, não há novidade nenhuma em falar de estadunidenses e israelenses matando árabes. O que preocupa, é a consciência que o povo árabe está tomando, e a práxis revolucionária de um povo querer escrever a própria história.
 
Aguardemos o que está por vir, mas adiante-se já, não são tempos de paz. Mas o mais importante, que torna o Bin Laden herói entre os anti-heróis, derrubou um símbolo, o maior símbolo do capitalismo, no espaço aéreo mais vigiado do mundo. Outras coisas podem cair também, principalmente hegemonias.
 
 
Por Fernando Fantin Vono
 
 
⌠ 27 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
Exorcisando Demônios Antigos

Mesmo para discordar de alguém, é interessante conhecer com profundidade o que a pessoa diz. Estamos aqui para criticar um autor que pouco conhecemos, registre-se já. Por isso a crítica corre o risco de parecer superficial, mas que não se trata de um aprofundamento nas idéias do autor, é antes, uma constatação a cerca do método científico.

Joseph Campbell, do que dele sabemos, após analisar vários mitos e a produção imaterial de algumas sociedades, parece perceber algo comum, ou parecido, na maioria das narrativas míticas e demonstra que a concepção do mito está profundamente ligada com fenômenos corporais humanos. Chega à estrutura do que chama o monomito do herói, e mostra que a jornada do herói é a mesma, ou parecida, em muitas das histórias. Além disso, estende a dimensão do herói para todas as pessoas, a individuação se torna possível não mais no nível social, mas no nível individual. E não estranhe o leitor, que por mais que individuação individual possa parecer redundante, não o é. É um movimento histórico que surgiu com o renascimento, e foi possível em larga escala, se concretizando com as revoluções européias. Também aponta que as sociedades "arcaicas" que observou, tinham um motivo corporal para iniciarem apenas os meninos na vida adulta. Para ele, as meninas possuem a menstruação que marca a passagem, os meninos não tendo nenhuma mudança radical, precisam de um ritual de iniciação.

Realmente o conceito de monomito do herói individual é uma observação interessante, e se tornou um instrumento importante, principalmente, na análise e na produção de obras de arte, que são criações humanas, e possuidoras de uma intensa relação com o real, por mais que o artista tente fugir e, portanto, é uma análise, ou um modelo que também possui alguma relevância na realidade. Mas a primeira questão que surge é que essa estrutura de análise, aplicada a nível individual, não consegue computar todas as dimensões, não prevê (apesar de ser possível encarar o meio social como o anti-herói) o peso dos fatores externos e as estruturas sociais que agem na vida individual das pessoas. Mas esse problema não é o único que a análise monomítica traz. A aplicação da individuação universalizada está profundamente relacionada com o individualismo solitário que a modernidade, e com ela o capitalismo, trouxe e a supermodernidade exacerbou. Ao colocar o herói no plano do individualismo, as pessoas acreditam poderem se individuar solitariamente, pouco se lixando com o mundo que as cerca. A questão é que pode-se tornar o herói da própria vida mesmo que as condições externas sejam contraditórias e mesmo que se contribua com essas contradições. O herói é, então, isolado do mundo real e busca, em pequenas aventuras, assumir o seu papel na jornada. Na prática temos o consumo se realizando como narrativa mítica, e as pequenas fugas da realidade, na forma do sexo adúltero, das drogas, das viagens à deslugares, como salvação. Não se trata de um moralismo, é apenas uma verdade empírica, um resultado da contra-cultura, que o modelo de Campbell justifica. E a visão se plenifica, atinge o ápice, na obra do diretor Allan Ball. A Beleza Americana é a individuação solitária do herói de meia idade que encontra no arquétipo da anima garota de torcida, o chamado para a aventura que o tira da rotina insuportável.

Também é hora de observar a visão de Campbell em "O poder do mito", sobre a mulher. O mito, quer trate de homens ou mulheres, é sempre uma narrativa masculina. Surgiu com a sedentarização que se deu pelo fogo no gênero Homo. A sedentarização humana foi, sobretudo, a sedentarização da mulher, na caverna e no antigo protótipo de fogão. O homem, por razões de sobrevivência do grupo, se torna o caçador, passa a pertencer à irmandade aventureira do gênero masculino. Assim, os homens se intitulam mais importantes, pois arriscam a vida, passam a comer os melhores pedaços de carne e, assim, se tornam mais fortes na musculatura e passam a ditar as regras do grupo. Quando surgem as histórias e os mitos, são os homens que as inventam ou contam, para perpetuar uma ordem masculina da história. E é o que sucede desde sempre, o homem ditando como deve ser. O maior exemplo é a sociedade capitalista posto como ápice da humanidade. É o ápice masculino. Então, temos o real motivo de serem os meninos, e não as meninas, os iniciados na vida adulta. São os meninos porque eles devem ser os caçadores, eles devem dominar, e o grupo das meninas, que brincava junto com os meninos quando crianças ambos, não terá um rito e não ingressará em nenhuma irmandade. Não se deve à menstruação, se deve a uma estrutura de dominação masculina.

Outro ponto importante que deve-se debater, é o caráter político da ciência. Ciência é política, quem diz o contrário, é favorável à ordem vigente. E por mais que diga o contrário, sua obra é política. Podemos citar o exemplo ilustrativo da figura que disseminou esse conceito da ciência neutra, o positivista Augusto Conte, que apesar de delegar a favor de uma neutralidade científica, em toda a sua obra defendia a ordem da sociedade e do estado burguês. Desconheço o ponto de vista de Campbell sobre se a ciência deve ou não ser neutra, o que significa simplesmente um desconhecimento sobre uma postura hipócrita ou verdadeira do autor. Esse fato foi trazido apenas para dizer que Joseph Campbell faz política também, só não sabemos se admite. Faz política no sentido que, usa sua teoria da jornada do herói, da iniciação masculina na vida adulta, do chamado à aventura, para justificar as múltiplas guerras que os Estados Unidos participam. Ele alega que o jovem euano encontra nas forças armadas, a materialização do chamado para a aventura e passa a sentir, no exército, o enlevo de estar vivo ao participar de uma instituição maior e mais forte que ele. Diz com isso, que os "crimes de guerra" não devem ser julgados como crimes comuns, pois o soldado estaria cometendo-os enlevado por uma transe heróica, portanto a punição deveria ser menor. Talvez seja verdadeira a análise, talvez os soldados realmente tenham esse sentimento, portanto a análise estaria verdadeira. As a questão que deve ser levada em conta é que as guerras que os EUA participam são guerras falsas, causadas por motivos falsos, onde incitam um transe e um medo coletivo nos euanos, para justificar um modelo de dominação neoimperialista que na verdade só está preocupado com petróleo, mercado e hegemonia. E o "soldadinho americano", tão corajoso, querendo ser herói da própria vida, não é capaz de enxergar o que a guerra realmente significa e a mentira que ela é. Assim, ele participa, mata civis e até morre, no enlevo de uma ciência que o instiga a ser "herói", no intuito de proteger a "pátria", algo muito maior que ele.

Fantasmas estão aí aos montes, e suas leituras nos propiciam uma análise que é válida por muito tempo, e talvez pela vida toda, sem que os questionemos. É a vitória da anti-dialética. Mas sobretudo, os fantasmas estão aí para serem superados, porque a sociedade se move, e as verdades que pareciam lógicas, podem sucumbir, pois eram terríveis contradições.

 

Por Fernando Fantin Vono
Originalmente em:http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010/09/exorcizando-demonios-antigos.html

 

 
⌠ 33 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
Dar nome aos bois
__________A expressão “Dar nome aos bois”,usada corriqueiramente, quando pronunciada, é de fácil entendimento, sendo que não é preciso interromper o fluxo da conversa para remontar a sua origem, ou significado. A curiosidade, entretanto, me impeliu a procurar o significado na Wikipédia, e eis que a frase não é um privilégio do Brasil ou da língua portuguesa, possui variações no inglês, no francês, e até no grego do século I d.C. O que nos leva a uma observação da importância de revelar as coisas, descobri-las, desvenda-las, nomeá-las. Denys Cuche, em um texto sobre a noção da palavra cultura nas ciências sociais, coloca “Nomear é ao mesmo tempo colocar o problema e, de certa maneira, já resolve-lo”.
 
Entretanto, não estamos aqui para falar de rés, de pecuárias, mesmo que outro nome para esse texto que aqui se segue, pudesse ser “Deixando de rodeios”, o leitor irá entender o por quê.
 
Falamos em uma necessidade de se nomear, por causa de uma constatação visível sobre a consciência das pessoas manifestada em seus discursos, nas falas do dia-a-dia. As muitas discussões, as frases que são reproduzidas, os assuntos escolhidos nas relações sociais diversas, apesar da nossa liberdade de expressão, e sobretudo de pensamento, não são tão aleatórias, seguem um padrão, que muitas vezes não é definido pelos autores do discurso.
 
Podemos perceber isso facilmente, ao exemplo do recente caso da tragédia dos homicídios na escola do Rio de Janeiro, em que “todo o mundo” praticamente, conversou sobre o assunto com algum conhecido. Foi um acontecimento bombástico, uma tragédia, poderia-se argumentar, mas não se pode negar, foi assunto geral.
 
Outro ponto importante, é a nossa autoconsciência. O que achamos da gente mesmo, o modo como nos definimos, o que acreditamos, como entendemos o mundo, nossas relações de superioridade e inferioridade, o que pensamos das instituições, a classe social a que pertencemos são aspectos que muitas vezes não são discutidos, mas em nossas conversas, sobre os mais variados assuntos (futebol por exemplo), são elementos que compõe, explicitamente ou nas entrelinhas, a nossa fala.
 
Ao se reparar nos discursos das pessoas em geral, poder-se-á ver que existem muitas distorções no modo como as pessoas percebem o mundo e a sua própria condição, distorções no modo como se vêem colocadas nas relações de poder, o que leva a posicionamentos diferentes do que a sua condição verdadeiramente percebida deveria gerar, em discussões. Tal aspecto, seria conhecido como alienação, nos termos Marxistas, produto do trabalho alienado. Mas não vamos nos valer desse conceito, muito complicado para um texto que pretende ser curto. Até mesmo porque da estranheza desse fenômeno, é que se manifestam as mais variadas formas de sobreviver e relacionar que os grupos humanos encontram. E também as consciências, por mais alienadas que possam vir a ser, não são totalmente submissas e passivas.
 
Mas se esse escrito, não é uma crítica, então o que pretende? Por que falar mal de algo e não desferir o golpe final? Simplesmente porque não se pode querer reformar a sociedade, mudar paradigmas, revolucionar algo, através de um simples escrito de internet, que terá apenas uma pequena quantia de leitores, e mesmo que fossem muitos. Não, esse texto se pretende apenas nomear algo que é frequentemente esquecido, algo que a grande mídia não menciona, algo que nos é diário mas passa desapercebido, algo que determina o modo como comemos, moramos, trabalhamos e nos vestimos, um algo que é inimigo da maioria da população, e utiliza o trabalho dela, e até seu desemprego, para se procriar e ficar maior, um algo que é abstrato mas está por toda parte.
 
Estamos a falar do capitalismo (em negrito, itálico, sublinhado e maiúsculo). É ele com uma minoria de sacerdotes em seu Vaticano particular, Davos, que está por toda a parte, ele que determina muitas coisas, e é ele o pai de todas as contradições. Sobretudo, e apesar de seu poder, ele não é imortal. O capitalismos existe, e sua riqueza se multiplica somente através da exploração do trabalho. A destruição ambiental e a pobreza extrema são consequências deste, pois a lógica de funcionamento desse sistema, se assemelha à de um câncer. É ele o nosso inimigo escondido, a quem queremos desvendar. Que somente isso seja nossa proposição, pois só assim evitaremos que nos enganem, nós e nossos companheiros.

Deixo aqui uma citação de Saramago em Todos os Nomes para terminar (...)“de facto não há nada que mais canse uma pessoa que ter de lutar, não com o seu próprio espírito, mas com uma abstração”.
 
 

Por Fernando Fantin Vono
 
 
⌠ 48 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
A festa dos ratos primaveris na pós-modernidade
Pequenos e presos, e um pouco perdidos
Encontramo-nos aqui, entre tantos
Outros lugares possíveis, outros cantos
Por entre utopias e sonhos partidos
Encaixamo-nos como podemos
Vendo passar o que perdemos
Seguimos nos sentindo tão sozinhos,
Num supra-sumo individualista
Não nos vemos encaixados em parte alguma
Mas não largamos mão do que nos movia
E o mesmo nos segue movendo,
Aparentemente sem rumo, itinerário
Seguimos sem sentido
Tantos homens e mulheres trabalhando para,
Tanto sangue derramado à toa,
Para nos construir fragmentados
Com pedaços de tantos sonhadores mortos
Para que vivessem algumas idéias
Que agora estão desfiguradas
Vagamente em nossa consciência
Somos o que sobrou do sonho
Mas somos, sobretudo, dele
O que o mantém vivo
Se o mundo todo segue dormindo
Nós seguimos sonhando acordados
Se o todo está acovardado
Nós clamamos por sangue
Seguimos sorrateiros, acocorados
Transformaram-nos em ratos,
E roedores, pomo-nos a roer
Infiltramo-nos despercebidos
E fazemos o que de melhor sabemos,
Contaminamos.
Um dia a cidade estará infestada,
Aí veremos, os ratos trazendo as flores
 
Por Fernando Fantin Vono
 
 
⌠ 41 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
A Passarola Saramaguiana

Imagem retirada de: http://conversavinagrada.blogspot.com/2010/10/homilias-dominicais-citando-saramago-13.html

 

Quem vê, de longe, a construção
Duvida, de pronto, o que dela se espera
A física e as engenharias,
As quinquilharias ali empilhadas
Em uma estranha forma alada
Não haverá, não haverá de voar
Nem sequer se levantará do chão

Que estranho dispositivo encerra,
As vontades humanas
Aprisionadas em esferas?
São elas que sustentam o céu
E movem as coisas cá na Terra
E que casal mutante é que constrói o sonho
De navegar por sete sóis e sete luas? 

Triste é quando a vontade se desprende
E deixa o homem, apenas arcabouço
Do que fora outrora, talvez moço,
Quando apaixonou-se por uma moça
Ou vice versa,
Quando vivia pra um sonho
Morto por uma vida de cansaço

Voar é vontade de ser pássaro
Ou quiçá, pétala de flor no vento
Numa barca flutuante
Velas de humana imaginante
Da escola dos devaneantes, é possível?
Viver do sonho, da vontade
E do amor 

E mesmo sendo sonho
Voar é demasiadamente humano
Porque é fantástico
Quando o real é sufocante
Viva como pode,
Sonha, queira
E ame.


Publicada Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/04/passarola-saramaguiana.html
Poesia enviada para o CONCURSO MUNICIPAL DE POESIAS BRASIL PINHEIRO MACHADO – EDIÇÃO 2011. PONTA GROSSA - PR

 
⌠ 64 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
Me encheste e partiu, de malas vazias? (a poesia do medo do adeus definitivo)
Sobra um resquício no canto ressequido
Do lábio partido por um beijo que,
Perdido, fora outrora
Um sinal qualquer a me lembrar
Da impossível felicidade
E não havia de durar
Sê humano devir, aceite
Fui rio que correu em sua vida
Te banhou e se esqueceu
Mas ficou em minhas águas todas
 
 
Correndo não sei pra onde vou
Lembro itinerante nossa alegria
Mas esse maldito gosto pela infelicidade
Essa ironia meticulosa
Mandando saudade vir
Eis você não passou de mim,
Mas e eu, passei pra você?
Queria saber por onde vai
Você que me tirava da rotina
Você quando eu observava
 
 
Te vi saindo com a mala vazia
Mais me assusta a sua felicidade
Mais me assusta você me ter esquecido
Na sua nova liberdade
Em que não estou incluído
E todas as suas possibilidades
 
 
Trancado, passam os dias
Que deveriam responder,
Mas preferem calar, sabe-se lá
A infelicidade mantém vivo
Prazerosamente triste, alimento do querer
Desejar o que se tinha
Antes do imperfeito pretérito
Que apunhalou nossos planos
 
 
Nós que parecíamos viver em um sonho
Nós que nos refugiamos na lua
Pra o sol não ver
Nós que não suportávamos o relógio
Chamando à realidade
Nós que éramos uma verdade
Nós que desdenhávamos de tudo
Que éramos o sonho do acordar
 
 
Como foi pra nós despertar?
Lembro-me de você de costas
Com as malas vazias, indo embora
De mim não levou nada?
Ou preferiu ignorar?
Me assusta não ter olhado para trás
Mais me assusta não voltar.
 
 
 
 
 

Poesia enviada para o CONCURSO MUNICIPAL DE POESIAS BRASIL PINHEIRO MACHADO – EDIÇÃO 2011. PONTA GROSSA - PR
 
 
⌠ 30 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
Metamorfose Primeira
E só me resta te escrever
A distância a que me pus
A lembrança de você conduz
A um mundo de idílico ver
 
Saudade, saudade, saudade
De você objeto, outra
De você ser, eu
Que na saudade me vi você
 
Escrevo que me recomendaste
Espero, pois é só o que me resta
Mulher sou, mulher serei
Paciência, que se há de fazer
 
Te espero com um beijo
E um fingimento, não leve a mal
Que você é homem, pobre também,
Mas de intuição
 
Mulher sou sua, mas ainda sou eu
Humildemente te espero
O tempo que pedido for
Mas não espere muito tempo
Que meu coração ainda bate,
Torça para ser por você.
 
 
 
 
 


Por Fernando Fantin Vono
 
 
⌠ 19 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
A Educação Deseducada do Estado de SP

O rumo que a história humana tomou desde as teorias dos homens das luzes, mais precisamente a partir de 1789 com as promessas de emancipação humana, que mesmo com a “recente” crise da racionalidade, fez com que se depositassem muitas expectativas em torno da educação. Não se é para menos, sendo que cada ser humano vive em um constante processo de formação, mas mesmo assim, ainda não houve uma tomada de consciência generalizada que fizesse do racional (coloquemos nele os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade), o real, como desejaria Hegel. Porém, tantos séculos de discussões sobre o processo de educação como agente emancipador, de nada parecem contar aos governantes do estado de SP, empenhados em retroceder qualquer avanço, no discurso e na prática pedagógica, retrocesso que não faria sentido algum, se desconhecidas as intenções do partido político que há 16 anos está “mexendo os pauzinhos” cá neste estado. Como intenções não podem ser medidas e, assim, levadas em conta em uma discussão séria, partiremos dos fatos e seus desdobramentos.

Uma primeira visão sobre a educação no estado de SP, nos mostraria um retrato um tanto curioso. Uma proposta educacional voltada para o mercado de trabalho, com material escolar de livros e revistas com aulas já prontas intentando uma suposta padronização que, na prática, retira a autonomia e a liberdade dos professores, um modelo de progressão continuada que consegue excelentes níveis de aprovação (obviamente, se não podem haver reprovas exceto por faltas), salas de aulas lotadas e falta de espaço físico para acomodação de todos os alunos, segregação dos professores e professoras através de divisão em categorias (transformando-os em competidores entre si e enfraquecendo-os como classe), dificuldade de obtenção de trabalho fixo e de estabilidade para os docentes, com pouca quantidade de provas de efetivação, com vagas mínimas, salários miseráveis, e alto contingente de professores temporários (esses com salário ainda menor, maiores incertezas e, também, menores direitos trabalhistas), sendo que as professoras e professores recém-formados (jovens) são os que mais dificuldades encontram para ocupação de cargos, tendo seu potencial (característico da idade) suprimido. E absurda é também uma lei assinada pelo governador José Serra (PSDB) em que os professores e professoras da categoria O (semelhante à casta dos Intocáveis na Índia, pois esta apresente os menores direitos e é a última da fila na atribuição de aulas) após o término dos contratos, devem permanecer 200 dias afastados das salas de aulas, sem receber nenhuma remuneração, claro está.

Também visualiza-se um enxugamento na grade curricular das licenciaturas em universidades públicas e privadas, talvez na tentativa de tornar os cursos mais atrativos, frente as condições futuras de oferta de trabalho que os graduandos enfrentarão.

Ao mesmo tempo, observa-se uma discrepância entre a realidade e a aparência, uma vez que na propaganda (está com caráter eleitoreiro), apareciam professores com ótimos salários, 2 professores em salas de aulas, educação em tempo integral, informatização da educação e desempenho mascarado nos índices do IDESP. Esse abismo entre a “verdade verdadeira” e a “verdade mascarada” é reforçado pelos detentores da produção midiática impressa e televisiva (leia-se Veja, Estadão, Folha de SP, Globo, Band, editora Abril, etc) numa mensagem de que toda a culpa dos atrasos educacionais se devem às professoras e aos professores, alegando, entre outros absurdos, que as aulas deveriam ser cronometradas, como se os docentes já não fossem suficientemente podados.

O leitor inocente, se é que o estivesse metido em tal leitura, se perguntaria se é realmente verdade que o Sr. Serra é lobo em pele de cordeiro e se essas mídias tão comprometidas com a “imparcialidade” pertencem de fato ao chamado PIG (Partido da Imprensa Golpista). Para também sermos “imparciais”, vamos abstermo-nos de responder essas questões e, apenas, colocarmo-nos a investigar alguns desdobramentos do que essa impressão inicial da realidade educacional nos propiciou.

Quando Locke formulava sua teoria educacional, essa era direcionada aos filhos dos “Gentleman”, sendo que aos filhos dos indigentes e das camadas mais baixas da sociedade, cabiam as “escolas de trabalho”, em que eram submetidos ao trabalho forçado e ao ensino religioso como forma de aceitação da submissão. Notamos por aqui, que essa visão pouco mudou, primeiramente pela valorização que o governo PSDB tem do ensino técnico em detrimento ao ensino não técnico, segundo pelo descaso com este último. A formação precária do professorado, bem como a dificultação de sua inserção (dificultando o cumprimento de um plano de aula anual para as classes ou salas) possuem reflexo direto na precarização dos ensinos fundamental e médio, sendo que estes ficam multiplamente comprometidos, por esses dois fatores que citamos, e pelo acorrentamento à estrutura do livro didático no cumprimento do diário de classe. Corrobora com esse processo empobrecedor as medidas adotadas em relação ao próprio aluno com a deturpação do que deveria ser a progressão continuada (essa deveria apenas ser aplicada nos anos iniciais, e com atenção redobrada aos alunos que não conseguissem as notas mínimas), sendo que essa torna-se apenas um mecanismo para atingir índices elevados.

Esse modelo parece coerente com uma proposta de formação de mão-de-obra não crítica, que não tome consciência e não reivindique, em coerência também com o processo de criminalização dos movimentos sociais e das reivindicações por parte dos governos do PSDB e do DEM, como tivemos nos recentes exemplos de repressão violenta às manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, e no ano passado, outra repressão violenta à greve dos professores. Um governo que marginaliza os direitos de locomoção dos trabalhadores e trabalhadoras e de dignidade das professoras e professores, só pode querer a formação de cidadãos não conscientes, através de uma educação não-problematizadora, distanciada da realidade social.

Outra visualização explícita se dá na consciência dos professores e professoras enquanto classe social. A consciência de si somente é possível na relação com o outro, como proporia Marx. A divisão do corpo docente empregado e não empregado em categorias, faz com que cada uma das categorias enxergue na outra, não uma semelhante, como deveria ser o caso, pois são todas compostas por professores e professoras, mas uma antagônica. Tal achado faz com que não se consolidem como uma classe, com os mesmos objetivos, os mesmos direitos e as mesmas lutas, e assim, passem a competir entre si, uns para a manutenção do status que lhes é favorável, outros por um pequeno lugar ao sol. Fato este, que influencia, em última instância no não solucionamento dos inúmeros problemas que cada cede de escola possa enfrentar, uma vez que toda essa energia seja desviada de qual deveria ser o seu fim último.

Um descaso com a educação é, antes de tudo, um descaso com o ser humano. Sonhamos com uma educação que de fato liberte os homens e as mulheres, mas já nos habituamos ao fato de que o ser humano seja relegado à segundo, terceiro ou último plano, uma vez que, no capitalismo, toda a lógica é a do capital, ele e só, ele é a prioridade. Mesmo a social democracia proposta por Keynes não estava de fato preocupada com os direitos dos trabalhadores e sim, com as crises no capitalismo, então o que esperar de um partido político que leva o nome de social democracia, e nem mesmo se comporta de tal maneira (que já seria contraditória) no poder? Claro está, que a solução não deve vir de cima para baixo, cabe aos seres humanos que sofrem com o produto desse desrespeito, os e as professoras, pais e mães, alunos e alunas, isso se os buracos da sinta forem suficientes para o tempo que a greve for necessária. 

Por Fernando Fantin Vono

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/02/educacao-deseducada-do-estado-de-sp_24.html

 

 
⌠ 21 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
Tout Puissant Mazembe

         Um evento futebolístico recente, o Mundial de Clubes de Abu-Dhabi, especifiquemos, mostrou uma “coisa” do futebol, que alguns torcedores céticos, e que talvez por isso mesmo não mais torciam, já haviam desacreditado. As notícias na TV e na internet chamam essa coisa de Zebra, e pareciam desesperadas em frisar, grifar, supersalientar a palavra, e com isso deixar claro que seria impossível, estatisticamente falando, um raio cair três vezes no mesmo canto. Bater o Pachuca, o Inter, haviam sido tristes coincidências, e o Inter de Milão trataria de colocar os africanos no lugar que a Europa convencionou que cabia a eles, para não usar a palavra condenou, talvez muito forte para os refinados ouvidos europeus. Mas aqueles velhos torcedores pareciam saber que a “coisa” de que falamos, na verdade tinha outro nome, e inocentemente, ignoravam todas as estatísticas e probabilidades para o jogo de domingo. Timidamente acompanhavam, sem algum motivo que saberiam explicar, o jogo do Mazembe, a esperar algo que, por fim, não veio.
         O que passou, passado está, diriam, e a vida segue para o time que foi derrotado. Não adianta ficar remoendo, e a dor não é tão grande como quando perde o Corinthians ou o Flamengo, até mesmo que esse tal de Mazembe era-nos um desconhecido até o ano passado. Mas mesmo assim, algo nos parece ter ficado engasgado, e se não dito, aquele desencanto com o futebol há de retornar.
         Mas o que é isto do futebol que nos parece tão difícil de tragar, perguntaria quem estivesse a procurar a próxima palavra, lendo ou escrevendo estivesse. E ao procurar a resposta no Google, que também para isso serve, chegaria em alguns pontos que julgaria fundamentais, mesmo que parecesse não fazerem o menor sentido, mas eis que estão todas aí, as questões de sempre, que não cessam de repetir-se.
         A primeira grande questão que aparece é a resistência negra, do time, ao jogar o que jogou e mostrar sua força sem abrir mão da cultura, dos rituais e das danças, sem negar o que os torna especiais, mesmo que o pessoal da grande mídia os ridicularize (sutilmente, que nisso são especialistas); e também dos africanos e do seu orgulho, nos mostra no rap do estudante angolano Kanhanga em Porto Alegre, a mensagem contra o convencimento do Inter e contra a caracterização do Mazembe como Zebra, canta ele “Que a África tem time o mundo ouve agora” e o pessoal do Inter, e o resto do mundo ouviu bem.
         A próxima é uma questão menor, bem menor, uma questão de Bosta, ou melhor, de Bastos, Rafinha Bastos (não me lembro corretamente o lugar do “a”e do ”ó”). Nosso humorista do “brilhante” programa CQC, frustrado com a derrota do Inter, e desaforado pelo rap do Kanhanga, também resolve adentrar na música negra (deixando subentendido com a poesia infantil que elabora, que o rap seja uma música simples, “inferior”) e elabora algumas frases excepcionais (excepcionalmente racistas e carregadas de preconceito) como “Foi uma derrota intrigante pra um time que treina com um bando de elefantes”, ou criticando o Inter, “Não adianta botar a culpa na Macumba”, como uma provável alusão à religiosidade africana, claramente uma referência às religiões negras como sendo religiões de segunda, falsas. É esta uma questão pequena, mas dentro do contexto do racismo no Brasil, mostra-nos que o discurso racista ainda hoje (apesar de absurdo) encontra espaço na mídia brasileira.
         Tal achado nos remete novamente a um outro caso em que o rap como expressão da resistência negra, curiosamente com um apresentador da mesma emissora que abriga o tal rafinha. Quando o tal Boris Casoi ridicularizou dois garis em um vazamento de áudio e o rapper Garnett campos uma música para responder à ofensa do apresentador elitista. Essas duas realidades continuam a ser conflitantes, os ricos e brancos e seus veículos continuam a querer explorar e ridicularizar o preto e o pobre, e estes contunuam a resistir e a ganhar cada vez mais espaço, pois sua luta é legítima. Se existe, falamos da visão elitista dos civilizados, um Eu (rico e branco) e um Outro (negro e pobre), existe uma contradição que nos leva a outra grande questão que encontramos no Google. O poder do dinheiro.
         Se existisse um Deus, e ele fosse o responsável pelos placares do futebol e se esse tal Deus fosse coerente, sendo o Mazembe o que representa (todos os anseios e expectativas duma realização histórica, para não dizer mais) e o Internacional de Milão o que representa (o futebol como negócio que movimenta milhões e como colaborador das grandes marcas, também para dizer outros maises), o placar só poderia ser um, e os vencedores seriam “os corvos”. Como de fato existe um Deus, que se chama Capital, que tem a sua coerência, porém dentro de uma outra lógica, o resultado foi o que foi, e a vida segue, capitalista. E o Inter ganhou, e ganhou também uma receita total, em 08/09, de 196.500.000 €.
         A outra questão que surge, que nem bem é uma questão, talvez uma abstração. A esperança. O Mazembe trouxe-nos essa coisa que, por vezes, é esquecida, mas que é necessária, no futebol e na nossa vida cotidiana, para seguirmos lutando contra, porque sobreviver é lutar contra, esse sistema que nos impede de levantarmos a taça, necessária para seguirmos nesse campeonato da economia mundial em que a Europa (e os EUA, que nisso não são piada como no futebol) sempre vence(m), ou sempre vencia(m). De fato, esses torcedores de um algo melhor devem muito a esse time da África, que fez bonito, por jogar, mais do que contra 11 jogadores, contra milhões, de euros estamos a falar. Obrigado Todo Poderoso Mazembe.

 

Por Fernando Fantin Vono

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010/12/tout-puissant-mazembe.html

 

 
⌠ 18 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
O medo da viagem e a dúvida do real

Quando a noite chega na rua,
Vem e cobre a fagulha que resta
Do engano do dia chamado lucidez
E aparecem as coisas profanas
Na luz do poste alumia-se a festa
Das libélulas voando tontas
E à noite, nada foge do registro
Do macabro, irreal

E o que é real, dirão filósofos
E é noite ou é dia?
Ou sonho?
Estranho estranhar
As próprias entranhas
Sem saber a diferença
Do cão bestial, da moita,
Ou saco de lixo

E o sonho continua se acordado,
Entorpecido no real,
Que esquece o que deveria de ser,
O de tanto nos gabarmos,
Racional

Se acorda sonhando
Estando onde se queria estar
Longe da noite estranha,
Perto do amor não desgastado
Num outro tempo e lugar

Espere se puder, diz virá.
A promessa há de cumprir
Sua sina o que é que há?
Sem a bússola o barco não se acha
No meio do oceano me encontro
Sem terra à vista,
Sem você.

 

Por Fernando Fantin Vono

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010/12/o-meio-da-viagem-e-duvida-do-real.html

 

 
<< Início < Anterior 1 2 3 Próximo > Fim >>

Página 2 de 3