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Gustavo Hobold
O último beijo de um homem

O branco das roupas que ela vestia era inconfundível. Fora a primeira vez que a vira, mas não completamente. O rosto parecia invisível aos seus olhos, mas sua pele pálida o tocou e o acariciou como sua mãe costumava fazer. Embora pequeno, conseguiu sentir o medo que a mulher lhe passava.

O segundo encontro só aconteceu aproximadamente dez anos depois, mas a criança, agora adolescente, era capaz de reconhecê-la mesmo sem poder ver seu rosto. Ela lhe despertava interesse, mas coragem ainda lhe faltava. A mulher lhe ofereceu suco, mas suas lembranças da mãe o fizeram recusar. Seu cérebro trabalhou rapidamente remontando o primeiro encontro e lembrou que o vestido antes branco agora era azul, mas, embora tenha se comunicado com aquela estranha, sua voz ainda não lhe era familiar.

Saía do bar quando a viu pela terceira vez. Era tarde da noite, mas o amarelo brilhante do vestido e o branco pálido deixava claro que era aquela a mulher que vira em sua escola há tantos anos que já nem lembrava mais de sua face. A mulher lhe despertava desejo e, talvez por estar bêbado, a adrenalina que estava sendo jogada no seu sangue o obrigava a ir atrás dela. Quando o homem viu-a correndo e inalcançável, parou e tomou em mãos o papel que vira cair do seu vestido. Números sem sentido algum estavam rabiscados em caneta verde.

O quarto encontro aconteceu somente muito tempo depois que havia ganhado na loteria. Se no terceiro estava com seus trinta anos, no quarto já estava beirando os sessenta. Ver a mulher de verde falando com sua secretária despertou toda sua memória, embora comprometida com o Alzheimer. Pensava como ela poderia ter o encontrado em outra cidade e quem era aquela mulher que o fizera milionário. Seu rosto ainda era invisível aos seus olhos, mas ela parecia não envelhecer.

No leito de morte, sabia que uma última visita deveria acontecer e sabia que o quarto 502 do hospital não deveria ser apenas coincidência com os números que ela deixara no terceiro encontro.  De fato, não era tarde quando ela atravessou a porta e subiu em seu colo. Seu pau endureceu como nunca havia feito antes e a mulher de preto cavalgou segurando forte ao seu peito. O prazer que ele sempre desejou havia-lhe sido concedido e o orgasmo chegou no último beijo que a morte lhe deu.
 

 
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Gustavo Hobold
Ensaio Sobre o Arbítrio (Parte I)

O que é “fazer o bem”? Você pode me responder: fazer o que é bom para alguém ou algo que alguém gosta. Aqui começa minha indagação: se eu gostar de sofrer, quando você tomar um chicote e lascar meu couro, você estará fazendo o bem? Se você gosta de estuprar crianças, fazendo isso estará fazendo o bem a si mesmo?

Embora nesse texto eu não queira tocar no assunto religião, acredito que seja praticamente impossível alguém que lê não levar para esse lado, mas eu espero que as pessoas credoras consigam interpretar isso de uma forma a não levar para nenhuma crença pessoal. Meu objetivo aqui é questionar qual a origem do bem e qual a origem do mal. Da onde nasce nossa moral e por que nossas leis são definidas dessa forma: de fato, por que é errado matar uns aos outros, estuprar crianças ou até mesmo transar em público? O que há de tão intimamente errado nessas coisas que nos faz ter extrema repulsa?

Desde a origem da humanidade, temo-nos organizado em grupos, pois, de fato, a convivência é mais útil para nós mesmos do que a solidão, pois, no fundo, nós, seres humanos, somos criaturas extremamente selvagens e egoístas. Olhe a sua volta e absolutamente tudo que você faz é em benefício próprio: ninguém faz algo a alguém sem esperar algo em troca. Quando você dá um presente a alguma pessoa, por mais que não espere nada material em troca, quer o carinho desse indivíduo, pois esse afeto lhe faz se sentir confortável. De fato, não me retraio a dizer que toda a demonstração de amor é, de certa forma, egoísta. Mas está tudo bem, pois nascemos assim, nossa sociedade cresceu e desenvolveu em cima dessa ideologia e isso faz a maioria das pessoas sentirem-se confortáveis com sua existência.

Mas o que isso tem a ver com a essência de bem e mal? Bom, o que foi escrito no parágrafo anterior não possui muita relação se não a de descrever nossos instintos mais selvagens e suas origens, mas acredito que esse egoísmo (e não quero que isso seja retratado como algo ruim, pois de fato não é) está intimamente ligado com a origem do bem e do mal.

Fazer essa ligação é uma tarefa extremamente difícil e talvez até tediosa demais, pois é necessário muito estudo (que eu certamente não tenho, por isso chamo esse texto de ensaio e não de tese) sobre as diversas áreas da psicologia, história e filosofia humana (coisas nas quais estou longe de ser especialista, pois, de fato, minha área são exatas), mas me atrevo a cutucar certos desenvolvimentos com meu leigo conhecimento.

Para organizar ideias, vamos tomar uma certa tribo primitiva que, em nossa cabeça, será uma organização humana cujos integrantes jamais tiveram qualquer contato com os integrantes de qualquer outra tribo. Agora retrocedamos mais um pouco, tomando um único indivíduo constituinte dessa tribo e o chamaremos de fundador. O que levou esse homem ou mulher (ok, vamos supor que tenha sido um homem, realmente não faz diferença) querer realmente fundar (interprete fundar como algo completamente inocente, é claro, nada formal) uma comunidade? É aí que nosso egoísmo entra em cena. Sendo selvagem e possivelmente tentando transar com animais e até seres inanimados, encontrar o primeiro parceiro da sua espécie (homem ou mulher, tanto faz), sentiu-se provavelmente saciado com o sexo e quis tê-lo por perto para transar quando quisesse. Mas e se o homem tivesse sido zoófilo? Bom, ele poderia ter-se saciado com um lobo ou qualquer outro animal e o lobo, por sua vez, tê-lo devorado ou ele simplesmente teria parado de procurar um companheiro da mesma espécie, não se tornando o fundador da tribo.

Mas é claro que a busca pelos prazeres sexuais podem não ter sido a causa de sua busca por outro humano, mas decidi falar sobre isso e, de fato, não faz diferença qual “benefício” um poderia extrair do outro, mas instintivamente não haveria qualquer razão de um homem envolver-se com outra pessoa da mesma espécie se não estivesse procurando algo em troca, por mais que esse “algo em troca” seja o afeto do outro indivíduo.

Note que descarto aqui qualquer intuito metafísico ou chamado divino que poderia ter usado a união de elementos da mesma espécie para um objetivo prescrito, pois não chegaríamos em lugar nenhum e eu poderia simplesmente concluir dizendo que “uma entidade metafísica quis que o bem fosse tal coisa e assim se fez”. Meu objetivo aqui não é esse, mas sim descrever como o bem e o mal pode ser explicado através do estudo psicológico humano.

Então o homem conheceu o outro indivíduo e sentiu-se satisfeito. Percebeu que além do benefício que os fez unirem-se, podia extrair muitos outros, como mão-de-obra para serviços sobre os quais ambos poderiam usufruir. Então foram percebendo que sua sociedade poderia ficar ainda maior e mais beneficiadora, unindo mais pessoas a seu redor e, finalmente, fundando nossa tribo completamente isolada de qualquer outra comunidade humana a partir do egoísmo de uma ou duas pessoas.

Notando que sua tribo começara a ficar tão grande que perdera quase que total controle pessoal sobre ela, estabeleceu leis que julgara corretas, como, por exemplo, achando que a dor infligida a si era ruim, baniu a causa de dor alheia de modo que não fosse expurgado de sua própria tribo e perdesse seus benefícios.

A pergunta que deixo para a segunda parte é: e se o fundador fosse masoquista?

 
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Gustavo Hobold
O Porco

Bom, eu quero avisar que se você não tiver mente aberta, por favor, não leia esse texto. Eu realmente não tenho nenhum interesse em que ele seja agradável. De fato, espero muito que seja totalmente repugnante, é esse o objetivo. Ele tem várias interpretações, realmente não espero que vocês interpretem do jeito certo (bem, até porque não há), só não gostaria que fosse interpretado como uma apologia ao vegetarianismo.

Esse é o primeiro de uma série de postagens que pretendo fazer sobre algumas "paranóias" da sociedade. Todos eles tem o intuito de serem repugnantes e fortes. Não sei se conseguirei, mas tentei.


O agente federal, furioso, tirou novamente o cassetete da cintura e acertou a coluna do homem, com toda força, mais quatro vezes, abrindo uma nova ferida nas costas.

- Vou perguntar mais uma vez, agora mais devagar: por que você matou aquele suíno?

- Eu já disse, estava com fome, minha filha é doente, era minha única opção, eu tenho que ajud...

O policial tirou dessa vez a arma de choque e apertou os mamilos do homem.

- E POR QUE O PORCO? POR QUE NÃO MATOU SUA MULHER E DEU PARA SUA FILHA COMER?

- Senhor, p-por favor, pare com... – o homem fez uma pausa enquanto seu corpo chorava sangue – com i-isso...

- ADMITA, HOMEM, VOCÊ SABOREIA CARNE DE PORCO!

O agente aguardou alguns instantes e, como ele não abria a boca, levantou o relho e ameaçou bater novamente.

- ESTÁ BEM, EU GOSTO DE CARNE DE PORCO, SÃO DELICIOSAS, SABOROSAS, GOSTO DE ASSÁ-LAS E COMÊ-LAS VAGAROSAMENTE, A CARNE HUMANA NÃO ME SATISFAZ!

O homem conseguia sentir o frio subindo pela espinha do policial enquanto falava, como um verdadeiro psicopata, o que o fez tirar o relho mais uma vez e dessa vez marcar permanentemente a face do indivíduo.

- Você me dá nojo. Pra onde você vai agora apanhará muito mais do que eu serei capaz de lhe bater, seu monstro.

Por fim, o agente mandou seus capangas carregá-lo à jaula onde ficaria encarcerado pelo resto de sua vida, que seria curta, pois os outros carcerários provavelmente iriam matá-lo dentro de dias, tamanho era o crime e transgressão moral que havia cometido.

O policial saiu da delegacia tendo pesadelos acordado, jamais imaginara que alguma pessoa poderia cometer tal sacrifício com um simples animal. Cumprimentou seu amigo que parecia estar comendo uma deliciosa paleta feminina atrás de sua mesa e partiu em passos leves.

Chegando em casa, cumprimentou sua vaca e dirigiu-se ao poleiro, onde pegou a primeira criança que tinha a vista, alcançou seu machado e num único golpe manchou de sangue o matadouro, vendo a pequena cabeça cair para o lado da mesa. Com um simples chute, jogou os restos para o lixeiro e depositou o corpo agora imóvel em seu refrigerador. Escolheu um outro e levou para assar.

 
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Gustavo Hobold
Essa Modinha de Merda
 

Recentemente (bem, não tão recentemente), a sociedade brasileira (ou até a mundial, se preferir generalizar) dividiu-se quase em duas classes: os coloridos e os que odeiam os coloridos.

A nossa sociedade sempre foi moldada por essas modinhas (entre outras coisas, é claro), mas nunca deixou de se desenvolver. Esses produtos da necessidade atual sempre nasceram, sempre morreram e sempre irão nascer e morrer. No entanto, o que me assombra é que a quantidade da segunda classe que citei, os que odeiam essas modinhas, tem crescido absurdamente e eu realmente não entendo o porquê, mas juro que tento. Hoje temos as bandas de happy rock (vulgo coloridos) que se popularizaram entre o público adolescente, mas no passado já tivemos diversos outros exemplos disso, como o emocore e todos esses ficaram populares não pelo público que gostava, mas pelo público que odiava.

Eu acredito que seja da natureza humana considerar que aquilo que você não gosta ou que aparentemente não traga benefício nenhum pra você deva ser banido urgentemente da sociedade, mas isso não faz sentido algum para mim, realmente. Cada vez mais tem crescido o número de pessoas que quer parecer ser diferente e isso provavelmente inclui você e eu, pois não é a toa que você está lendo uma página na Internet chamada Juventude Clichê e eu estou escrevendo nela. Mas eu realmente duvido que na sua infância ou adolescência tenha deixado de ouvir Sandy & Jr., Xuxa, Angélica e similares, tenha usado seu tempo pra ler e criticar Neitzsche e escrever um ensaio científico a ler Harry Potter e imaginar uma história alternativa.


Tenho visto no Orkut comunidades com descrições totalmente idiotas como “na minha infância a gente assistia Power Rangers, brincava de super trunfo, jogava Super Nintendo e Justin Bieber era apenas um espermatozóide”. Numa hora dessas eu me pergunto: e daí? Hoje as crianças assistem, sei lá, Gormit, jogam XBOX 360, brincam de milhares de jogos de carta que aparecem todos os dias e a modinha de daqui 15 anos ainda é um espermatozóide. É muita prepotência (e idiotisse) pensar que a sociedade não mudaria com o passar do tempo, que não teríamos desenvolvimento e que estagnaríamos simplesmente para você entrar num ciclo nostálgico quando quisesse.

Eu respeito totalmente a opinião de quem não gosta e também de quem gosta desse tipo de coisa, não respeito a de quem vai contra pelo simples fato de ir. Além de idade diferente, pessoas diferentes possuem gostos diferentes. Nem todo mundo é (ou quer parecer ser) cult. De fato, se você quer ser assim o tempo todo, deve ser a pior pessoa do mundo pra se ter uma conversa interessante.

 
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Gustavo Hobold
Fundação

A violência é o último refúgio do incompetente.”

 


 

Para começar, posso dizer que Isaac Asimov é um gênio. Aclamado escritor de ficção científica e vencedor do Prêmio Hugo, uma das maiores honras da literatura fantástica, ele realmente consegue fazê-lo sentir-se no futuro, provando ser um gênio não só no jeito robótico de pensar (pelas suas obras envolvendo robôs, sendo ele também o criador das famosas três leis da robótica), mas também em política, economia, religião, manipulação de massas e, é claro, em todos os aspectos que fazem um humano, humano (e provavelmente é isso que faz seu diferencial ao escrever sobre robôs).

Imagine-se no futuro. Agora imagine-se num futuro ainda mais distante, onde você estuda a própria cronologia do futuro. Lembra de suas aulas de história no colégio? É lá que ele o leva. Analisando o Império Galáctico de um ponto de vista distante e onipotente, o autor apresenta um padrão no desenvolvimento da humanidade que se repete muitas e muitas vezes. Mas isso ainda não é o mais fascinante sobre Asimov e sua obra.

Tudo começa quando Hari Seldon, um famoso psicohistoriador – uma nova ciência desenvolvida por ele mesmo baseada em história, estatística e matemática – prevê a queda do Império Galáctico. Para salvar a humanidade de milhares de anos de escuridão tecnológica e científica, ele sugere a criação de uma nova colônia nos limites da galáxia – o sistema Terminus – para desenvolver o maior trabalho literário de toda a história e agrupar todo o conhecimento humano já adquirido: a Enciclopédia Galáxia.

Fundada como uma colônia científica em um planeta com poucos recursos naturais, a Fundação, como é chamada, começa a sofrer com problemas políticos e diplomáticos e é aí que a grandiosidade de Asimov começa a aparecer. Como é muito mais desenvolvida em ciência e tecnologia que o resto da Periferia – como é chamada a região da galáxias a qual o sistema Terminus pertence – outras colônias começam a trocar recursos naturais, como ouro e ferro, por aparelhos tecnológicos para controlar suas massas.

Baseando-se na ciência, cria-se, então, uma nova religião na qual os pregadores são, na verdade, pesquisadores e técnicos. Foi Arthuc C. Clarke que certa vez disse que uma tecnologia suficientemente desenvolvida é indistinguível de magia, mas essa frase encaixa-se perfeitamente nessa história, embora não estejamos falando de magia, mas sim religião (embora sejam ambas iguais se olharmos de um ângulo discreto, mas isso não é pra ser discutido aqui). Para controlar seu povo, os Quatro Reinos da Periferia compram ciência. Tudo corre bem, até que começam a aparecer crises e mais crises, chamadas de Crises de Seldon. Todas elas foram levadas em consideração quando o psicohistoriador previu a necessidade da criação da Fundação e, em cada uma delas, ele aparece como um holograma para tentar ajudar a resolver.

Mas não é apenas religião que controla massas e não é apenas a fé que é necessária para a humanidade, mas também mercantilismo, proteção, comida, aparelhos, indústria e, é claro, uma economia estável. Para Isaac Asimov, a energia nuclear moveria absolutamente tudo (considere que esse livro foi escrito no início desenvolvimento da energia nuclear) e ele realmente consegue nos fazer acreditar que daria certo um mundo movido apenas desse jeito.

O livro é bem dividido em cinco seções: Os Psicohistoriadores, Os Enciclopedistas, Os Prefeitos, Os Comerciantes e Os Príncipes Mercantis. Em cada parte, Asimov explora uma profunda ferida na civilização, psicologia e sociologia humana, baseando-se em apenas alguns aspectos dominantes e mostra que é muito fácil derrubar uma sociedade inteira batendo apenas em sua fundação.

 

95/100

 
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Gustavo Hobold
Deus, um Delírio

Antes de começar a ler, saiba que esse texto é a resenha de um livro que aborda religião. Todo conteúdo que expresso aqui é minha opinião e não reflete, de maneira nenhuma, o pensamento da página Juventude Clichê de maneira nenhuma. Se você é facilmente ofendido por críticas religiosas ou coisas do tipo, peço que simplesmente não leia. Se você não gosta de ler, também não leia, pois o texto é bem grande.


“ Poderíamos nós, através de treino e prática, emancipar-nos da Terra Média, tirar nossas burcas negras e alcançar algum tipo de interpretação intuitiva – e também matemática – do muito pequeno, muito grande e muito rápido? Eu realmente não sei a resposta, mas eu estou ansioso para viver numa época na qual a humanidade está beirando os limites do conhecimento. Ou, ainda melhor: podemos descobrir que não há limites.”

 


Richard Dawkins é um cientista britânico e mundialmente conhecido por ser ateu e lutar pelos direitos de sua classe. Também é um reconhecido biólogo e evolucionista (embora eu ache que ambas estão bastante conectadas), professor emérito no New College da Universidade de Oxford, onde teve a cadeira de Professor de Compreensão Pública da Ciência de 1995 até 2008. A maior parte de seus livros publicados é em defesa da ciência, da razão e do humanismo e, por isso, fundou a Fundação Richard Dawkins pela Razão e Ciência.

Sempre vi Richard Dawkins como um ateu militante (e ainda o vejo assim, de fato), apesar de concordar que seus argumentos em prol da ciência e da razão são legítimos e certamente bem desenvolvidos (eu ainda não vejo como alguém pode não confiar na ciência, de qualquer jeito). Nesse livro, ele critica e apoia a inexistência de Deus, esse descrito na maioria dos livros sagrados das religiões modernas. Mas, ainda assim, o principal propósito do livro é colocar ao chão a fé no sobrenatural em todos os sentidos. Dawkins divide o livro em dez capítulos – provavelmente para fazer algo análogo aos dez mandamentos bíblicos – e, em cada um deles, trata de um problema (e solução) para a existência, inexistência e necessidade de deus e da religião (e o faz bem).

Se você for crente, esse livro não mudará sua cabeça. De fato, esse livro sequer tocará sua fé – ou não deveria, de qualquer jeito –, qualquer seja seu credo. Esse livro irá, é claro, mostrar um ponto de vista ateu sobre a vida, o universo e tudo mais.

Admito que não seja ateu, apesar de tender a agir como um algumas vezes. Eu sou agnóstico ou qualquer rótulo que queira dar pra alguém que não liga se existe ou não um deus (ou pelo menos eu tento não ligar) e acho esse comportamento o melhor para mim. Um dos motivos pelos quais eu considero Dawkins um ateu militante é que ele está sempre tentando pregar o ateísmo assim como padres e pastores pregam o evangelho – de fato, alguns me disseram que esse livro mudaria minha cabeça sobre a militância de Dawkins, mas não mudou. Eu acho bem mais fácil viver uma vida sem se importar se as outras pessoas possuem um amigo imaginário ou não. E ele critica os agnósticos por estarem em cima do muro – e até concordo com ele em alguns momentos, como quando diz que a ciência destruiu e tem destruído a humanidade e seu potencial para o desenvolvimento científico e tecnológico. Como você deve saber – ou não –, gosto muito do método científico.

Dawkins usa as controvérsias bíblicas provocativamente para fazê-lo pensar – ou, melhor ainda, raciocinar – se existe um deus todo poderoso que é tanto bom quanto mau e mostra que o mesmo argumento que é usado para apoiar a existência desse ser sobrenatural pode ser confundido com padrões psiquiátricos da mente. Ele até mesmo ri – e de coisas bem risíveis, se quiser minha opinião – sobre alguns credos que ainda são amplamente aceitos pelas pessoas que acham que religião ainda possui a verdade absoluta, como a lenda de Adão e Eva, os doze mil anos da Terra, o Dilúvio e algumas outras coisas que muita gente toma como verdade irrefutável.

Dawkins usa alguns argumentos realmente bons a favor da ciência e contra a religião – e eu concordo com a maioria deles, senão todos –, mas ele é um péssimo examinador da realidade. Ele é bom em descrever e talvez até filosofar um mundo sem religião. O que acontece é que a realidade não está livre da religião. De fato, a sociedade ainda sustenta um laço muito forte com entidades e poderes sobrenaturais; é um fato indiscutível. Dawkins parece se esquivar disso e não oferece qualquer solução; ele apenas critica religião e coloca a ciência acima de tudo, imaginando como o mundo seria se as pessoas abandonassem suas crenças. O fato é que isso não irá acontecer tão cedo. Nós temos que lidar com a religião e infelizmente é assim que funcionará pelos próximos *muitos* anos. Não estou dizendo que nós devemos sentar e ver o mundo queimar em fé infundada, mas devemos ao menos respeitar se queremos ser respeitados. A maior parte da sociedade crê e, por isso, somos uma minoria. Se quisermos ser respeitados, devemos respeitar. É mais ou menos assim que a democracia funciona.

De qualquer jeito, esse livro é uma leitura fascinante. Recomendo para pessoas religiosas e não-religiosas que desejam ter uma visão única do jeito de crer de Dawkins. Só peço que não vá e mande-o queimar no inferno porque não concorda com sua visão. Talvez esse livro o ajude a entender o que é ateísmo.

Avaliação: 80/100

 
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Gustavo Hobold
O Apanhador no Campo de Centeio

“Eu fico imaginando essas pequenas crianças brincando num grande campo de centeio e tal. Milhares de crianças pequenas e ninguém por perto – ninguém grande, eu digo – só eu. E eu estou na beira dum penhasco gigante. O que tenho que fazer é apanhar todas as crianças caso elas corram pro penhasco (...)”


 

J. D. Salinger é um escritor americano e mais conhecido por este livro, O Apanhador no Campo de Centeio, que é considerado um clássico da literatura dos EUA, estando na lista dos 100 melhores livros desde 1923, da Times.

O livro conta uma história um tanto quanto desinteressante de um garoto de dezesseis anos chamado Holden Caulfield e seus devaneios pela cidade de Nova Iorque por alguns dias, depois de ser expulso de sua escola-internato, expondo a verdadeira face de uma vida adolescente, na qual o personagem principal é, também, o narrador. O que é, talvez, mais interessante é que ele possui um estilo de vida tão depressivo e solitário que, para aqueles que já passaram por essa idade, é quase impossível não se identificar em algum ponto com esse personagem único, porém universal.

Quando comecei a ler este livro, acabei me viciando, embora ele não envolvesse enredo algum. Realmente não tem, é apenas um cara falando sobre sua vida. Mas é Holden que você lê. Eu nunca havia lido, em toda minha vida, um personagem tão bem desenvolvido como vejo nesse livro; é simplesmente brilhante, porque você realmente sente que é o adolescente quem fala com você – com todas as gírias, jeitos e manias – não um intelectual como Salinger. Provavelmente é esse o motivo pelo qual esse livro é tão viciante: é uma narrativa limpa, sem obstáculos e intuitiva, que a dá uma sensação de realidade e muitas vezes você acaba se perguntando se aquilo realmente aconteceu. Eu tenho muito contra escritores e filósofos que são aclamados como gênios fantásticos e maravilhosos, mas eles sabem – ou muitas vezes não querem – escrever claramente, como Salinger faz. Esse livro pode ser lido por qualquer um – de fato, seu público-alvo são os adolescentes e eu os recomendo a ler – e qualquer um que colocar o olho no que é escrito nele irá entender, por mais que não goste.

Falei demais sobre a escrita de Salinger e de como o livro é maravilhoso, mas acabei não falando absolutamente nada sobre ele. Pois é. Então Holden Caulfield é esse garoto que perambula por Nova Iorque e vive uma vida bem adolescente – não esquecendo que a história é situada nos anos 50 – e se encontra na transição da infância para a vida adulta; enfrentando problemas como adulto – e provavelmente é por esse motivo que Salinger o coloca sozinho em NI – mas ainda com uma cabeça de criança. Enquanto tenta evoluir, começa a perceber que todo mundo é falso, desinteressante e clichê, o que acaba o tornando um completo hipócrita, embora não admita – e esse é o foco do livro.

O título merece cinco estrelas apenas por si só. Embora o livro possa ser lido até a metade sem conseguir entender onde o livro quer chegar – a lugar nenhum, já adianto –, quando Holden ouve um garotinho cantando uma música sobre um apanhador no campo de centeio – que na verdade estava sendo cantado errado –, aparentemente tudo começa a fazer sentido e você começa a identificar cada vez mais os padrões que Salinger quis deixar. Holden passa as páginas do livro tentando encontrar alguém para se apoiar ou admirar, alguém que irá segurar sua mão enquanto passa por uma das fases mais difíceis da vida de qualquer pessoa: a transição para a vida adulta, enfrentando sua puberdade, desejo sexual e pensamentos deprimentes da adolescência. É isso que ele busca, muitas vezes até inconscientemente.

Sem conseguir nada de interessante de suas atuais amizades ou relações interpessoais – representadas por seus amigos do internato –, ele volta à inocência da infância e traz memórias na tentativa de conseguir sobreviver os duros tempos do crescimento psicológico. Quando finalmente consegue apanhar esses sentimentos, vê que não é mais uma criança e que sua mente há muito mudara. Tentando encontrar seu “apanhador no campo de centeio”, Holden desenterra até mesmo seu irmão caçula já falecido e entra em contato com pessoas que ainda estão na inocência – como sua irmã – e pessoas que já passaram por tudo isso, como seus antigos professores.

A transição é facilmente vista em todos os sentidos. De  tentar beber ainda na minoridade até uma mudança drástica de suas opiniões a respeito do mundo e da sociedade. O livro mostra esse forte contraste de como Holden lembrava que as coisas eram para como elas são agora. Eu realmente recomendo este livro para qualquer pessoa, independente da idade, pois, apesar de ter adolescentes como público-alvo, sua história é certamente universal.

Avaliação: 100/100

http://www.hobold.com/outrouniverso/

 
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Gustavo Hobold
Alice no País das Maravilhas

Ela então se sentou, mantendo os olhos fechados, e acreditou um pouco no País das Maravilhas, embora soubesse que bastaria abrir os olhos de novo e tudo voltaria à triste realidade…

 

Alice

 

Com toda a audiência que Alice no país das maravilhas vem chamando devido ao filme do Tim Burton, não pude deixar de ler a obra original, já que desconhecia quase que por completo a história.

Tenho que dizer que fazer uma crítica sensata de uma obra infantil para um público que provavelmente não será formado por crianças é um trabalho um tanto quanto difícil, embora o enredo seja rico até mesmo para leitores já crescidos e possivelmente maduros. Com certeza não tive a visão da história que teria se estivesse na infância, mas mesmo assim Carroll impressiona.

Alice no país das maravilhas é uma obra de Lewis Carroll, um escritor e matemático inglês. O que é interessante nisso é que a abstração lógica da matemática pode vir a ter dado a Carroll uma visão diferente do mundo infantil organizado ao qual as crianças estavam habituadas a se situarem. Enfim, eu poderia passar muito tempo discutindo sobre o autor, que possui de fato uma história muito rica, mas estou aqui para falar do livro.

Alice é uma menina que se vê entediada em seu mundo natural, até que avista um coelho com relógio e paletó (coisa que jamais vira antes) correndo e falando. Decidindo segui-lo, ela cai numa profunda toca até atingir o chão e descobrir um novo universo, onde animais falam, plantas e comidas possuem efeitos especiais, como fazê-la crescer ou encolher. Vendo-se presa num mundo onde absolutamente nada faz sentido, Alice tem conversas com seres nada estranhos e muito surreais que a fazem refletir sobre si mesma.

Guiado pela completa falta de sentido, porém abastecido de lógica e criatividade, Lewis Carroll cria um mundo paralelo onde tudo que parece ser estranho ao nosso mundo é perfeitamente normal aos habitantes da terra maravilhosa.

É magnífico o jeito com que o autor introduz a lógica e o pensamento crítico nas crianças, através de coisas aparentemente simples, apenas rearranjadas de modo a ser desprovido de sentido aparente, mas despertando a curiosidade do leitor, que na maioria das vezes é criança. Trata-se de um livro eu diria que essencial para toda criança, um estimulante ao pensamento e às verdades que lhes são impostas logo de cara. Carroll faz com que nos perguntemos por que uma coisa tem que ser de um jeito e não de outro, por que não podemos fazer de um jeito que para alguns pode parecer idiota ou até mesmo escandalosamente fora de padrão.

Não sei se a palavra certa é arrependimento, mas gostaria de ter-me introduzido ao livro quando criança, pois não tenho dúvida que seria uma leitura interessante. Talvez hoje essa história não seja divulgada (além da óbvia falta de estímulo à leitura) porque as crianças estão cada vez mais habituadas a serem dadas tudo à boca, desgostando da fantástica experiência em tentar interpretar algo novo. Mas isso é, com certeza, algo que o livro de Lewis Carroll está disposto a fazer.

AVALIAÇÃO: 95/100

http://www.hobold.com/outrouniverso

 
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Gustavo Hobold
A Origem do Arco-íris

O sol estava no extremo leste. Embora a mulher estivesse gritando de dor, o homem continuava a tentar tirar aquilo da barriga dela, armado de facas afiadas. Aquele líquido vermelho e viscoso escorria do mesmo jeito que as lágrimas caiam de seu rosto. O homem, vestido de azul-ensanguentado, finalmente cortou a última linha que unia sua a mulher a seu fruto. Carregando a coisa anormalmente chorosa em mãos e coberta daquele líquido pertinente que não parava de querer se expor, a mulher finalmente desabou psicologicamente. O arco-íris da vida veio a seus olhos. Sabia que jamais esqueceria aquele dia.

O sol brilhava ao topo de suas cabeças. As lágrimas e sangue já eram não mais visíveis. A mulher já tinha seu cabelo grisalho e andava sobre três membros, um deles artificial. A vida que levava já não era mais colorida ou feliz como enquanto o sol ainda nascia. A coisa que o homem havia a deixado era não mais novidade ou agradável. Pelo contrário, era seu pior pesadelo. A criatura fortificou-se contra sua própria raiz e a doença da existência já fazia efeito sobre todos. O arco-íris tornou-se apenas preto e branco e, infelizmente, mais preto que branco, rasgando seu coração e manchando-o de vermelho. Sonhava que tudo mudaria; que seria apenas uma fase. Ela adoraria estar certa. Mas não estava.

O sol estava no poente. A escuridão da noite já pairava sobre o arco-íris que não mais a trazia a felicidade que esperava. A cada noite levava um tiro; já não mais sonhava, não mais pensava, só vivia pela sua prole que, ainda assim, a matava aos poucos. “Maldito homem”, pensou. Já não desejava mais a vida que tinha, mas precisava superar aquilo. Pensava, mas odiava o que pensava. O desejo da mãe caíra perante a doença e loucura de sua prole. A coisa estava ainda mais cheia de poder.

O sol já não era mais visível. O arco-íris já não mais existia e muito menos deixava rastros de sua existência, mas a prole ainda marcava os sonhos que a mãe queria não ter. Sonhos são ilusões, ilusões de uma vida não vivida, uma poesia não declarada e, infelizmente, um amor doentio. A criatura tentava voltar a sua barriga, mas agora não mais numa semente de esperança, mas numa semente de paranoia; uma semente vermelho-negro que perfurava seu abdômen. A faca que anteriormente havia sido usada para trazer luz ao mundo era agora usada pela luz para tirá-la do mundo. Seu próprio sangue rebelava-se. Não conseguia mais viver. Caiu ao chão enquanto o líquido vermelho viscoso escorria por suas entranhas. A caixa de Pandora estava aberta.

 
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Gustavo Hobold
O Dormitório
O quarto vazio, cheirando a mofo. Paredes úmidas que enrugavam a vida de qualquer um. Pôsteres cobriam as talhas de madeiras e os buracos espaçosos. Não havia ninguém. Era sujo, como um porão sugeria. Sujo, talvez, por desleixo ou simplesmente por estar. Era a necessidade do ser. A maçaneta enferrujada, dobradiças mal-assombradas. Paredes negras, sujas da escuridão do tempo. A cama dividia o quarto em dois hemisférios, cada um com sua funcionalidade. Uma escrivaninha velha de um lado – com alguns livros cheios de poeira –, uma cômoda do outro. A aparência do local registrava a semelhança de uma casa do terror.

Era Natal. Último suspiro de vida na morte do dia; a árvore fazia seu papel. Embora mal enfeitada, coberta de poeira e caindo em depressão, era a única coisa que limpava o cinza do canto do quarto.

Entrou. Os vãos da porta arrepiaram a seus nervos. A rotina impossível de doze horas diárias acabara com um último suspiro de tranqüilidade, enquanto a monotonia da vida ansiava pelo recomeço de um novo dia. Roçou a barba, jogou a mochila no canto. A cama serviu de anteparo para seu esqueleto que permaneceu imóvel.

Sonhos? Não os tinha. Abstraíra-se de todos os conceitos de sucessos que poderia obter ao longo da vida, inclusive o de ser apenas mais um humano. Era pior que isso. Permanecia, a cada dia, em sua insignificância. Não tinha família; seus pais haviam morrido. Única coisa que lhe restara era o quarto empoeirado que o seu padrinho alugara em sua própria casa.

Encostou a cabeça. Não tinha o que pensar, apenas que tudo começaria novamente, a cada dia, até o fim de sua vida. Fechou os olhos. Tinha pesadelos; sonhava que não sonhava. Mas esta noite foi diferente. Uma nuvem abstrata cruzou sua mente. Viu da porta arregaçada surgir um homem e depois vários.

Uma cruz pousava sobre sua cabeça, pessoas assistiam. Pessoas que nem conhecia; pessoas que talvez jamais vira. Era seu cérebro mexendo nas aleatoriedades da vida. Seu corpo repousava sobre flores enquanto as pessoas que nunca vira o saudavam, como se por acaso tivesse fazendo algo de importante; coisa que jamais fizera.

Foi acompanhado por uma carreata até um local que já estivera em algum momento de sua vida, mas nunca havia parado para apreciar a beleza das coisas que o rodeavam. Achou lindo. Era como uma melodia em forma de arquitetura. Soava tão bem para seus olhos. Depois lembrou que tudo recomeçaria no dia seguinte; que a vida lhe prepararia mais doze horas e vários anos de mesmices.

Reconheceu que havia voltado ao seu quarto. A parede de madeira quase preta de tão podre; a agonia de viver apertado; a casa do terror.

Acordou.

Estava tudo de volta, como esperava. Mas não havia janelas. Não havia portas. Não havia arvore de natal. Não havia maçaneta enferrujada nem pôsteres nas paredes.

Rebateu-se enquanto agonizava. Gastou os últimos minutos de oxigênio que ainda lhe restavam. A vida havia lhe preparado uma cilada. Estava morto. Era seu fim. Gastou seus últimos suspiros com gritos que ninguém ouviria, nem mesmo o coveiro. Era lixo agora; comida para bactérias; adubo para o solo.

“Merecia um caixão melhor”, foi a última coisa que lhe passou pela cabeça.

E então, começou a sonhar.

 
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