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Gustavo Hobold
Amor é câncer

Nos dias atuais, só em pensarmos na possibilidade de gostar de alguém
automaticamente, já buscamos soluções para eliminarmos esse mal pela raiz.
Alguns já entram em desespero, aquilo que deveria ser analisado para ter um
diagnóstico preciso, acaba se transformando em noites mal dormidas e muita
desesperança.


Uma pessoa aparentemente inofensiva pode interromper sua vida. Em um dia
qualquer em que nada acontece, alguém sorri, fala diferente com você, senta
mais perto entre seus amigos. Pronto! Sua vida está de cabeça para baixo.
Uma linha invisível pode estar entre o presente e o futuro, um presente incerto
por sinal. Uma pessoa como qualquer outra, planta um sentimento dentro de
você e, depois de enraizado, somente um tratamento preciso poderá lhe ajudar a
salvar o que resta de sua vida.


Não é o fato de alguém gostar de você que assusta, e sim a forma como
essa aproximação irá terminar. Se esse amor que lhe dominou aos poucos e está
afastando você das outras pessoas que você ama, é preciso se isolar até ficar curado.

Algumas vezes você volta para casa, outras, somente o que restou de você e,
por mais que pareça ser a mesma pessoa no espelho, por dentro a gente sabe
que as lembranças não são algo fácil de abandonar.


E aquele amor que seria para dar vida, nos tira sonhos, nos faz morrer aos
poucos por dentro e nos deixa chorando no escuro.


Se o amor que você sente por alguém está lhe matando, não vale o seu esforço,
e muito menos a sua desistência da vida. Se o amor que você sente não lhe
acrescentar em nada, não fizer parte do seu dia, ainda que você se perca por algum
tempo, aceite o preço, arranque esse mal. Mate, mate, mate, antes que seja
tarde.


Talvez só lhe reste alguns meses antes aparecer os primeiros sintomas e você
acabe descobrindo que esse corpo estranho que parecia ser benigno, na
verdade se trata de algo maligno.

 

Revisão: Daniele Ribeiro

 
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Gustavo Hobold
Seguro ao Suicídio

O homem tateou novamente o papel que carregava e fitou-o com raiva. Olhou rapidamente as cifras e os seis números que a seguiam, para, quem sabe, ter mais certeza do que estava fazendo. Andou um pouco mais a frente e olhou para baixo. Conseguia ver todo o movimento da rua, embora fosse pouco.

Chegou até a ponta com cuidado para não deslizar e, balançando o braço, olhou as horas no relógio que trazia no pulso. Oito e meia da noite, dia 21 de Fevereiro. Era esse o dia que ia constar no seu atestado de óbito.

Fez  questão de revisar novamente o papel que assinara pouco mais cedo e começou a pensar em sua família. Lembrou das dificuldades que haviam passado até ali, mas logo pensou nas soluções que o dinheiro do seguro proporcionaria a sua família. Além de colocar comida na mesa,     também lhe pagaria um túmulo decente, embora talvez nem merecesse.

Tirou da carteira a foto do filho. Olhou, chorou e as lágrimas demoraram até alcançar o chão. Lembrou de quando trocava suas fraudas, da primeira vez que andou, dos jogos de futebol, das conversas, dos parques de diversão. Mas queria sabia que estaria fazendo o bem agora, tinha certeza disso.

Colocou lado a lado a foto do garoto e a folha do seguro de vida que carregava. Num impulso, jogou-se para frente e caiu. Seu corpo afundava no ar e ele sentia que o calor escaldante já não mais fazia efeito em seu corpo. A perfuração o refrescava, os últimos momentos de sua vida o deixavam cada vez mais gelado, preparando-o direto para o caixão. Enquanto caía olhava para baixo e ora via seu corpo espatifado no chão, ora via ele dentro de um formoso túmulo com sua família chorando em volta. Mas não se arrependia.

Alguns segundos se passaram e o corpo espatifou no chão. O homem não sabia se estava vivo ou morto, mas tinha certeza de que  não estava mais ali. O seu seguro estava pregado à mão.

Em pouquíssimos minutos, a multidão começou a abafar o corpo. Uma única mulher que teve coragem de chegar perto do cadáver fechou-lhe os olhos, ou o que ainda restava, e tirou o papel de suas mãos.

Levantou-se, tirou os óculos da bolsa e leu.

“Seguro de vida. Válido a partir de: 22 de Fevereiro de 2010”.

 
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Gustavo Hobold
Fogos Vermelhos

É véspera de um novo ano. Mais um período de 365 dias seguirá, milhares de pessoas observarão o céu noturno minutos antes na tão esperava virada do ano a fim de observar os espetaculares fogos de artifício e então seguirão suas vidas medíocres como se nada tivesse acontecido. Cometerão os pecados que prometeram não cometer; seguirão os caminhos que prometeram não tomar; encherão a cara de rancor e usarão do preconceito para julgar e dominar os mais fracos.
Mas é ano novo, todos vestidos de branco, numa paz que parece ser eterna.


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O homem agarra a escada de corda do lado da balsa e começa a subir meio inseguro. Olha para baixo e vê a imensidão do mar com apenas o barquinho que usou para chegar ali. Odiava seu medo de altura, mas superou. Colocou o pé no casco enferrujado da embarcação e impulsionou seu corpo para cima.
Ajeitou um pouco a camisa amassada e passou a mão na testa para secar o suor. Caminhando um pouco a frente, seus olhos viram o que o cérebro não interpretou: milhares de fogos que seriam detonados em menos de vinte minutos; e ainda havia quinze daqueles barcos. Estava feliz por estar participando daquilo.
Finalmente ele caiu em si, tirou o walkie-talkie do bolso e começou a se comunicar.
– Estou na balsa; câmbio.
– Certo, você vê o foguete com defeito?; câmbio.
– Todos tem defeito?; câmbio.
– Claro que não, seu idiota. Você tem que procurar; câmbio.
– Não é melhor deixar isso pra lá? Vai demorar demais pra achar um foguetinho, deixa ele sem explodir; câmbio. – disse o homem, tentando livrar-se do trabalho infernal que conseguira.
– Você tem três horas.
O homem percebeu que entrara num buraco sem saída. Concordara trabalhar nisso, mas achava que era tudo computadorizado e que o chefe iria dar a posição exata do fogo de artifício estragado. Mas não dera; teria que procurar um a um, dentre alguns milhares; e já era 20h30min.
Enquanto o pobre trabalhador tentava consertar os foguetes, os "bens de vida" já se punham na praia em seus porsches, comprando dos mais pobres os lugares de destaque na praia. Crianças mimadas movimentavam todo o comércio, pois reclamavam que não podiam ver a onda batendo na areia, enquanto os vendedores ambulantes tentavam passar no meio da multidão vendendo refrescos.
Já se passara mais de hora e o homem continuava a procurar o maldito foguete que arruinara o seu final de ano. Pensava que ele desceria no barco e chegaria a terra sendo saudado por todos, já que salvaria o espetáculo de fim de ano. Mas sabia que não era assim. Receberia seus 50 reais e teria que manter a boca fechada.
– Já achou o defeito?; câmbio.
– Negativo; câmbio.
O tempo passava e nada de achar o foguete. A única coisa que sabia dele é que sua abertura estaria mais alargada que as demais, mas isso não era o bastante para tornar a busca suficientemente rápida. Achou que deixaria de ganhar os 50 reais. Achava engraçado que ganharia tão pouco para salvar tanta coisa, mas não tinha coragem para reclamar, afinal, acabaria indo para rua.
Depois de tanto tempo mexendo nos foguetes e engrenagens, sua roupa já deixara de ser branca e estava quase tão preta quanto sua cara. Mas pensava que depois era só passar em casa e trocar, afinal já estava quase no fim de sua busca; pelo menos era o que achava.
– Os fogos vão explodir em trinta minutos, seu maldito! Você ainda não encontrou essa porcaria?!; câmbio.
– Não, senhor, se eu não encontrar, peça pra cancelar o disparo aqui do barco; câmbio.
– Vou pedir pra cancelar seu pagamento também, infeliz.
O homem continuava a busca mesmo depois de todas as ameaças, afinal, tinha que receber. Poderia ainda desfrutar do lançamento de fogos em um local onde nenhum rico poderia ocupar: a cabine da balsa.
O tempo estava curto quando finalmente encontrou o foguete com a abertura mais larga que as demais, até que disparou um pequeno relâmpago em sua mente: não tinha sido ensinado como consertar o maldito artifício.
– Senhor, encontrei ele, como que eu arrumo?; câmbio.
– Você só tem que soltar o grampo que tá preso dentro do cano; câmbio.
Nenhuma ofensa dessa vez, achou estranho. Talvez o espírito do ano novo estivesse finalmente tocando o coração de seu chefe.
E ele continuava a mexer dentro do cano, e espreitando seus dedos, tentando alcançar o grampo. Então viu a solução de seus problemas: um galho jogado no chão, fino o bastante para desprender o grampo. Correu em direção a ele, mas sua mente voltou-se ao grito de uma multidão.
DEZ
NOVE
OITO
Suas pernas correram mais rápido que seus pensamentos, achava que dilatara o tempo e cada segundo durava uma hora. Agarrou o velho galho e correu em direção ao foguete defeituoso. Mas o povo continuava a gritar.
SEIS
CINCO
QUATRO
Suas pernas já estavam bambas, mas precisava acabar aquilo para assistir o espetáculo em um local privilegiado. Finalmente conseguiu enfiar o pedaço de pau dentro do cano, mesmo com sua mão tremendo mais do que os pensamentos.
TRÊS
DOIS
Começou a sentir um cheiro de queimado na balsa e sua audição sentiu um pequeno click. Estava feito, agora só tinha que correr direto para a cabine e esperar os fogos explodirem. Seria o espetáculo mais bonito de sua vida, disso tinha certeza.
UM
A primeira coisa a voar foram os braços, depois as pernas e finalmente a cabeça. Os fogos explodiram e formaram um lindo percurso vermelho que contrastou a negritude da escuridão.
Foram dezoito minutos de intensas explosões como em todos os anos. O povo aplaudiu, saudou o ano novo. Os "bem de vida" abriram uma champanhe e comemoraram a virada do ano. Todos se abraçaram, bateram palmas e voltaram para suas casas, de volta à vida que sempre levaram.
O chefe nunca estivera mais contente.
– Parabéns meu garoto, você conseguiu; vou levar o barco agora pra ir te buscar na proa; câmbio.
Mas o som do walkie-talkie ecoou sozinho em meio ao insuportável cheiro de enxofre.

Revisão: Daniele Ribeiro

 
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