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Manoelle
Metrô
 
    Acordar cedo todos os dias, pegar conduções lotadas, chegar em casa completamente exausta, contas, problemas, responsabilidades... e aí percebemos que no fim das contas somos simplesmente mais alguém no fluxo do universo adulto. Mas e quanto à nossa forma jovem de ver o mundo? E quanto à criatividade que tínhamos? E quanto à nossa imaginação?

    Desde que assumi o compromisso da idade adulta de mergulhar de cabeça neste mundo gigante por mim mesma, comecei a ver certas coisas com mais intensidade. Ou talvez eu só tenha voltado a ver a vida como eu via antes.
    Eu sempre tive o hábito de tentar enxergar a poesia de tudo. Procurá-la, encontrá-la, absorvê-la e compartilhá-la. Afinal, é para isso que serve a poesia, não? Alimentar-se dela e alimentar a quem dela tem fome.

    Pegar o metrô lotado todos os dias nunca será algo divertido, mas eu criei um certo hábito perante isso. Não sei ao certo se criei, às vezes mais parece que eu apenas percebi que o tinha. Eu gosto de observar as pessoas. Não observar para julgar, reparar ou incomodar... gosto de observar simplesmente. Desde pequena sou uma pessoa muito observadora. Observadora antes de falante; e sei que às vezes vejo coisas onde quase ninguém mais vê. Eu vejo poesia.
    Quando entro no metrô e tenho a oportunidade de tomar um acento, eu gosto da ideia de poder ver rostos acima do meu. Gosto de erguer meus olhos e enxergar todo tipo de gente. Gosto de olhar nos olhos de algumas dessas pessoas e perceber o que elas transmitem com suas pupilas dilatadas, com suas lágrimas, com seus sorrisos misteriosos, com sua visão de quem parece estar só no meio de uma multidão. Olho para toda aquela gente, uma a uma, e fico me perguntando para onde estão indo. Fico me perguntando onde estarão no fim do dia, se estarão sãs e salvas no conforto de seus lares, se estarão se divertindo pelos bares e festas, se estarão nas tragédias dos noticiários do dia seguinte. Fico me perguntando o que aconteceu com aquela pessoa que puxou conversa comigo e que eu nunca mais vi.

    Uns dias atrás, num desses mais desmotivados em que a gente não está a fim de prestar atenção em nada, uma moça entrou no vagão e posicionou-se no meu campo de visão. Horário de pico, o metrô estava lotado como o habitual. Olhei para cima sem qualquer pretensão, e então meus olhos cruzaram os dela, apesar de os dela não terem notado os meus — e nem nada ao redor. Estavam absurdamente vermelhos, como os de quem recebe um golpe de areia; os cílios colados e úmidos; as pupilas guardando um segredo nos olhos profundamente negros. Ela fitava o chão. Os cabelos meio desgrenhados e roupas amarrotadas de quem se asseia sem vontade.
    Não era algo realmente de chamar a atenção, até porque não há nada de incomum em encontrar pessoas tristes no metrô, mas foi algo que me chamou a atenção. A dor daquela mulher, fosse o que fosse, era aparente, quase palpável. Eu pude sentir a perda em seus olhos. Ninguém mais parecia notá-la. Era uma manhã intensa e corrida como todas as outras, cheia de pessoas que imaginam não ter tempo para olhar umas para as outras.
    A mulher piscava poucas vezes, e quando o fazia, era bem lentamente. Ela, de pé, segurava uma bolsa sem muita firmeza. Parecia estar muito, muito distante dali. A certa altura o vagão dava solavancos inesperados que deixavam os passageiros ainda mais agitados e estressados por esbarrarem ou serem jogados uns contra os outros; o corpo daquela mulher desconhecida ia para lá e para cá, ameaçava cair, era empurrado, esbarrado por outras pessoas... mas ela não parecia se importar. Sua feição não se modificava, sua reação não mudava, ela não arriscava movimentos. Ela não se segurava e nem se apoiava em nada; uma das mãos repousava sobre a lateral do rosto.
    Então um homem apareceu por perto, um pouco à frente dela. Não sei dizer ao certo em que momento ele apareceu, isso escapou à minha percepção e meus olhos. O homem tinha uma grande e aparentemente pesada mochila presa ao peito. Ele então se virou um pouco para trás, em direção à mulher, sem parecer realmente notá-la, e baixou a mão até a altura de sua bolsa, tomando-a para si. Ela sequer ergueu o rosto, não se moveu, não piscou. Ficou apenas ali, movendo-se pelos solavancos do vagão agora sem seu único pertence: a bolsa. O homem agora tinha os olhos fechados — parecia dormir de pé —, tinha uma mochila no peito e uma bolsa feminina em uma das mãos.
    Após certo tempo, um acento desocupou-se à frente do homem. Então ele voltou-se para trás novamente, tomou a mulher desconhecida pela mão e a colocou no banco vazio. Ela caiu sentada pesadamente sobre o banco, como um montante de ossos e músculos abandonados; ainda com uma das mãos no rosto, o sofrimento vermelho estampado nos olhos.
    Lembro-me de estar muito cansada nesse dia, lutando contra o sono. Em algum momento fui vencida, e quando fui acordada pelo aviso de chegada do maquinista, já na última estação, as pessoas já estavam aglomeradas frente às portas e não havia mais ninguém sentada ao meu lado. Levantei-me, olhei os grupos de pessoas, olhei em volta, mas não encontrei a mulher em lugar algum. Ao longe, vi o rosto do homem de perfil. Ao saltar do vagão, eu ainda o vi caminhando para longe com sua mochila pesada, sozinho e sem a bolsa da tal mulher.

    Sozinha e com minha mochila pesada, segui meu próprio rumo pelo mundo adulto, onde a poesia é implícita, mas ainda existe em cada pequeno gesto.

 
 
 
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Manoelle
Borrões de mim
                                                                                                                                      Crash, por Silvia Pelissero
 
 
 
 
Quem era eu?
Outrora fui cores
aromas
sabores
de aura forte e vívida
corpo são
e mente híbrida
 
Hoje não mais sou
hoje eu era
ontem eu seria
tanto queria
pouco sabia
 
Vi minhas cores espalhadas
por onde vim
pensei ser aquarela
mas eram borrões
borrões de mim
de volta aos rascunhos
de minhas certezas
extinguindo-me
morrendo em mim mesma
 
Desfazendo-me
em tons negativos
perdendo meus sonhos sensitivos
transformando-me em graxa
em piche
não peixes em lívido cardume
apenas piche
betume
 
Tornando-me estrada
tornando-me a estrada
em que muitos passam
e nunca param
nunca procuram as cores
sobre as quais caminharam.

 
 
 
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Manoelle
Dançando com a morte


                                                                            The tightrope walker, de Anna Moderska

 


A vida é o imaginário

Um imenso palco com cenário
Que muda a cada dia
Da alegria à melancolia
Da caminhada à corrida
Da volta à ida
Do sangue ao mel
Do mel ao fel.

A vida inteira é uma dança
Uma dança perigosa
Melindrosa
Em que nos movimentamos sobre a corda bamba
Do ballet ao samba
Na ponta dos pés.

O equilíbrio é o mais importante artifício
Logo abaixo um precipício
Sem volta
Sem vício.

Move-te com destreza
Com clareza
Com cuidado
Um passo em falso é o mínimo que precisa ser dado
Para que te venha a faltar sorte
E a corda bamba te empurre para a morte
Que vive no coração do precipício
Sem volta
Sem vício.

Lá de baixo ela te observa
Vigia-te sem reservas
Acompanha teus movimentos
Sopra sob teus pés
E aguarda que a queda aconteça em seu devido momento.

Avista tua queda ardentemente 
Saboreia-te com paixão
Consome-te docemente
Enquanto te desfazes na escuridão.

 

 
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Manoelle
A última carta à Maria
 

 

Sabe, Maria...

Não sei se teus olhos pareciam mesmo tanto com a lua, ou se eu que estivera enxergando luz demais nessas tuas jabuticabas. Há muito tempo ando assim, enxergando luz, vendo brilho à toa por aí.

Às vezes também acho que tu me pareces muito com o vento, Maria. Sempre fostes tão etérea e por vezes tão inconstante, por vezes até onipresente. Às vezes te abraçava e sentia como se tu pudesses sumir nos ares como um passarinho, sem que eu sequer percebesse. Quando a brisa entra pelas minhas janelas, Maria, às vezes penso que és tu, voando ao meu encontro. Voando para dentro de mim. Mas também deve ser porque dizem que o amor está em todo canto, Maria; em todos os lugares. E eu te amo.

Então acho que o amor venta. Ele voa, ele invade... ele venta, sim.

Maria, tu te lembras da última vez em que nos vimos? Faz tanto tempo. Tu te deleitavas contando-me as delícias do teu dia, com as maçãs do rosto vermelhas como elas só, repletas daquelas sardas que pareciam pequeninas estrelas no teu rosto de céu. Eu não me recordo de sequer uma palavra do que tu dizias. Mas não fiques chateada comigo, Maria. Não fiques chateada. Não me lembro do que tu dizias, porque tudo em que eu conseguia prestar atenção eram teus lábios, Maria. Ah, os teus lábios... quando tu falavas, eles se fechavam e se abriam tão suavemente, que pareciam as asas de uma borboleta preparando-se para alçar voo sobre as flores.

Eu quis ser uma flor naquele momento. Nunca na vida quis tanto ser algo, Maria. Queria ter sido a flor em que teus lábios de borboleta pousariam.

Muitas vezes, mesmo depois de todos estes anos, fico a me perguntar o que tu és de verdade, Maria; que espécie de ser fantástico és tu. Não podes ser simplesmente humana, não podes ser simplesmente mulher. Estás acima disso, Maria. Estás acima de qualquer coisa que já me tenha feito feliz nesta vida ambígua.

Mas às vezes também me pergunto, Maria, que espécie de ser sou para ti. Pergunto-me se ao menos ainda te recordas de mim. Nunca fui do tipo de sujeito que marca a vida das pessoas, o tipo de sujeito que deixa sua marca em todo canto, que é amado sem fazer esforço.

Na verdade, as pessoas se esquecem de mim facilmente. Elas simplesmente se esquecem. Faça uma semana, faça um mês, faça uma década... elas se esquecem, apenas.

Eu te amo, Maria, lembres tu de mim ou não. Ames tu a mim ou não. Eu te amo e até hoje espero tua brisa entrar pelas minhas janelas e invadir meu peito outra vez.

O amor é livre e por isso ele venta, Maria, assim como tu. Traga-me tua brisa outra vez, volte a atravessar minha vida e eu juro, juro pelo que tu quiseres, que ao voltares encontrarás uma flor no lugar do homem que um dia quisera tanto sê-lo. E meus lábios estarão para os teus, assim como as pétalas estão para o pouso de uma borboleta.

Até qualquer brisa, Maria.



Manoelle D'França

 
 
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Manoelle
Gosto



Gosto.
 
Gosto de ouvir a chuva
Do som de sapatos andando sobre as
pedrinhas miúdas do chão não asfaltado
De cheiro de livro
De chá de cereja antes de dormir.
 
Gosto.

Gosto mesmo.

De olhar nos olhos do outro
De mergulhar no fundo deles se forem verdes
De tentar decifra-los se forem negros
e refletirem minha imagem de volta.
 
Gosto.
 
De observar o movimento dos lábios
de quem fala devagarinho
De ouvir risada que assobia
De sorrir pra quem me cumprimenta
sem me conhecer.
 
Gosto.
 
De quando o Sol acorda e me desperta
atravessando minha janela
Incitando as persianas a fazerem desenhos
de luz nas paredes e no teto.
 
Gosto de verdade.
 
De fazer minha mãe rir
De rolar na cama antes de me levantar
De caminhar pela orla da praia
às vezes comigo mesma
às vezes com meu velho do lado.
 
Gosto mesmo.
 
Dos pulos e latidos do meu cachorro
quando volto do trabalho
Do vento que chega de chofre
numa tarde de 40º
De ler de madrugada.
 
Prefiro.
 
Viver tranquilamente
Amar despretensiosamente
Ser livre e deixar que sejam
Observar e aprender
Errar e aprender
Aprender e viver
Viver e aprender
Viver.
 
Gosto. Gosto, sim.
 
 
 
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Manoelle
Encantos de Ponta Negra

alt                                                                                                                                                                                      Ponta Negra - RJ

                                                                                                
As fronteiras que ultrapassei

Levaram-me a caminhos distintos e irreversíveis
O mar que lá encontrei
Carregou-me em seus lençóis
Até seus leitos mais profundos e indistinguíveis
Toquei as conchas e estrelas do seu céu inverso
Negro, esplendoroso, submerso.

As pedras me ergueram ao palato do mundo
Pintado de azul, verde e um púrpura moribundo
Que rodeavam a lua, tão tímida ao fim do entardecer
Enquanto eu pousava na areia como uma pluma
À luxúria do quase anoitecer.

O céu era cúmplice do que meu coração sentia
O mar, do que minha mente respondia
E a areia, o leito onde eu adormecia.

Respirar em Ponta Negra é viajar para uma terra
Onde o mar é rei
A brisa, rainha
E o céu é lei.



Manoelle D'França

 
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Manoelle
Retalhos Inteiros

alt

A vida é inteira dividida em várias partes
De amor, rancor, perdão e arte.
Pedacinhos de melancolia, felicidade e adrenalina
São espalhados pelo vento
Tornando-se uma única sina
Em uníssono, um consenso.

De dispersos fragmentos
Constrói-se a plenitude
Cabe a ti apreciar tal magnitude.
Com remendos pisoteados e puídos
Suturam-se os corações partidos
Que ainda mais fortes que antes
Têm suas chaves jogadas fora:
O amor fica para depois, não agora.

Dos pedaços arrancados no passado
Forma-se um quebra-cabeça
A massa cefálica
A massa cinzenta.
Nos momentos de fúria, impaciência, insensatez
Juntar os pedaços e começar tudo outra vez.


Manoelle D'França

 
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Manoelle
A Ode Acima do Monte

alt


Acima dos montes
Caminhos e pontes,
Portas e janelas,
Levam ao horizonte.

Aos ventos medonhos
Sorrisos e sonhos,
Palavras uivantes,
Serenas, dançantes.

Subindo as montanhas,
Tomando os céus,
Removendo dos palatos
O amargor do fel.

Acima dos montes,
Palavras cantantes
Em notas unidas
Espalham-se tal qual
Acácias multicoloridas.

Vivendo, cantando,
Aprendendo e amando
Acima dos montes,
Com os ventos uivando.

 

Manoelle D'França

 
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Manoelle
Céu

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Tão frágeis e tão fortes
Desafiam os mais finos galhos
           Antes de seguirem seu norte.           

Tão pequenos e tão gigantes
Cabem na palma da mão
Até dentro de um chapéu
Mas vasto e infinito é o céu em seu coração
 Vasto e infinito é o seu coração sob o céu.

Nem parece um poema de verdade
  Mas falo de céu, pássaros e liberdade. 


Manoelle D’França

 
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Manoelle
O Cheiro da Chuva

alt


  Quando Ele nasceu, o mundo se fazia triste e os céus choravam, por isso chovia fatidicamente. Sua jornada fora repleta de nuvens e garoas gélidas que quase queimavam sua pele, até alguém mostrar-lhe que nem sempre os céus estavam embriagados. Ela surgiu de repente durante uma forte tempestade, debaixo de um guarda-chuva chistoso e grande demais para uma só pessoa. Ele achou engraçado, mas não simplesmente pelo guarda-chuva ser um bocado estranho, mas por Ela tê-lo oferecido uma “carona” embaixo de sua imensa sombrinha — que, observando bem, devia ser um guarda-sol. Articulando melhor, o que seria um guarda-chuva — quiçá um guarda-sol — para o filho da tempestade? Para a eterna corrente humana que carregava as águas dos céus consigo? Para quem nunca, jamais, fugira da chuva?

  Ele aceitou a carona e colocou-se sob o guarda-chuva. Não... Observando mais de perto, na verdade, foi Ela quem o envolveu com um de seus braços com a rapidez de quem socorre, e então, Ele se viu protegido da tempestade pela primeira vez em toda sua vida. Logo notou que Ela não trazia consigo somente o guarda-chuva... Ela trazia o sol, e o sol queimava seus olhos tão acostumados à escuridão dos dias nublados. Ele queria escapar, precisava fugir daquilo... Aquela luz não era algo certo, definitivamente, o sol o feria... A chuva era seu lar, sempre fora; por que justo agora teria de ser diferente? Mas Ele manteve-se imóvel. Seu corpo permaneceu inerte enquanto Ele sentia vergonha de dizer que apenas ficara porque Ela tinha um leve aroma de primavera, e sua pele era agradavelmente candente. Então caminharam em silêncio, transportando o sol e a chuva lado a lado, atraindo os olhares chocados de quem não entendia o porquê de o tempo estar dividido em dois hemisférios. O que nem os passantes e nem Ele sabiam, era que Ela o abraçara porque, pela primeira vez, pôde ver e tocar a chuva e porque, notando-se bem, Ele carregava em sua tez um cheiro de terra molhada, o mágico perfume da chuva, que ela quis carregar consigo eternamente. A única coisa que tanto Eles quanto os passantes de fato sabiam, era que com o sol e a chuva caminhando lado a lado, o dia certamente terminaria em um arco-íris.

 

Manoelle D'França

 
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