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Manoelle
Carpete

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   Naquela noite, o cansaço me vencera. Joguei as chaves sobre a mesa e depois me atirei no sofá, sem a menor cerimônia. A costura do estofado incomodava um pouco... pinicava, mas quem quer saber disso quando se está em cacos? Eu preciso comprar um sofá mais confortável, este quase sempre me causa pesadelos... Mas que diabos eu acabei de dizer?! Eu, hein... Há uma cama no andar de cima, sou mesmo um idiota.
    Silêncio.
   Ah, mas ainda tinha a mulher, aquela mulher que quase nunca me deixava dormir. Com ela não havia diálogo, ela não respeitava minha dor, minha tensão e, muito menos, meu cansaço.
   Paciência.
   Oh, não... Lá vinha ela novamente, faceira, saltitante com aquele risinho vingativo que me tirava o pouco fôlego que me restava no peito. Lá vinha ela... na minha direção. Diabos! Desvie, desvie, desv... Até que chegara perto demais. Senti seu hálito em meu pescoço, pensei que me beijaria, mas apenas subiu os lábios e sussurrou algo em meu ouvido... Não me lembro de ter compreendido o que era, mas me lembro de ter-me arrepiado os pelos das costas como um gato. Deitara-se no chão, próxima a mim e começara a falar sobre banalidades... Banalidades, a meu ver. Falava em demasia, mas não um tagarelar irritante de grande parte das mulheres da minha vida, mas à sua maneira de falar demais. Sua voz me era música aos ouvidos. Também não me lembro de nada do que dissera... mas, entenda, a forma como ela falava daquelas coisas me arrepiava ainda mais que seu hálito em meus ouvidos. O que era? Deixe-me tentar explicar... Era... a maneira como o ar lhe saía dos pulmões enquanto pronunciava suas palavras, a forma matreiramente preguiçosa com que sua voz lhe saía da boca, formando pausas que faziam-me concentrar-me em seu perfume... Era quase como se ela pausasse para exalar seu perfume. O perfume? Ah, aquele perfume... Somente ela o possuía. Não era algo comprado por aí, não acredito que fosse. Era algo que provinha dela e só poderia provir dela. Um cheiro de chuva com frutas recém-colhidas e um torturante adocicado que me lembrava vinho. Era uma mistura de seus cabelos, pele e boca que exalavam aquele aroma absurdo. Era quase uma panaceia; curara meu cansaço. Então, esperei que aquela raposa traiçoeira recomeçasse a falar, decidi que não me conteria mais. Afaguei seus suaves cachos dourados enquanto ela falava sem ao menos dar-se conta disso. E então, joguei-me sobre ela e ataquei com meu beijo mais lascivo, segurei sua cintura e...
   Merda! Acordei jogado de bruços no chão, beijando o carpete novamente, com a boca cheia de fios de camurça e pelos de gato. Eu deveria ter ido para a cama.

 

Manoelle D'França

 
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Manoelle
Cante Em Silêncio

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  A noite era quente, o mormaço cobria meu corpo como uma incômoda manta de rendas; a Lua me encarava quase indecentemente, então evitei olhar-lhe de forma muito fixa, para que ela não pensasse que lhe dava muita importância. Prossegui lhe evitando e evitando e evitando... até que ela decidisse vir atrás de mim. Então notei que ela de fato me seguia, olhando-me fixamente sem fazer questão de desviar-se da rota que me via tomando. Comecei a acelerar meus passos a fim de ver se ela desistiria; mas não o fez, e caminhava tão rapidamente quanto eu, até eu esconder-me atrás de uma imensa amendoeira; logo, só restou-lhe ver-me pelas costas.
  Mas sua luz era tão intensa... Queria vê-la, queria encará-la e descobrir o que ela tinha a me dizer. Então virei-me e ficamos vis-à-vis, admirando as faces um do outro. E lá estava ela: tão linda, tão grande, tão Lua... e com um brilho prateado que fazia o Sol não ter tanta importância. Perguntei seu nome, mas nada me foi revelado. Perguntei-lhe de onde vinha me seguindo, mas ela manteve segredo; então apenas a admirei, pensando em uma forma de fazê-la contar o que queria de mim. Logo me lembrei de que podia cantar; dizem que a música abre os corações, que às vezes os parte e até os cola pedacinho a pedacinho novamente. Se a Lua tivesse um coração, talvez a música pudesse abrir as portas dele para mim. Deixei que diferentes notas me saíssem garganta afora, suavemente... Mas algo me calou. Uma brisa tranquila me soprou aos ouvidos:

shhhhh...

  A Lua me silenciou e soprou novamente aos meus ouvidos, desta vez, que eu cantasse em silêncio, pois as canções do coração não se ouvem, tampouco se vociferam... Apenas se sentem. Enquanto a Lua e eu nos apaixonávamos silenciosamente, o sono me embalava e o Sol tomava o lugar de minha musa prateada no céu. Então decidi que esperaria por ela todas as noites, e que cantaria em silêncio para ela sempre que a olhasse, porque sei que apenas ela pode ouvir minhas canções, apenas ela é capaz senti-las. Assim me apaixonei pela Lua, e até hoje a amo sem saber seu verdadeiro nome, sem saber se tem um coração, sem sequer saber se de fato me ama de volta.

 

Manoelle D'França

 
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Manoelle
Rosas para Rosalli

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Rosas sobre a mesa
Algumas enfeitando a sobremesa
Caules espinhosos pelo chão
Botões de rosas nas palmas das mãos

Rosas vermelhas sufocando margaridas em um jarro
Rosas amarelas em um vaso de barro
Rosas lilases abandonadas à própria sorte
Rosalli dizia que as flores têm cheiro de morte

Rosas sortidas em um buquê
Rosas enfeitando um vestido de crochê
Rosalli vendia rosas por aí
Mas não tomava nenhuma para si

Rosalli jamais recebia flores
Lembravam-lhe antigos e dolorosos dissabores
Rosas brancas certa vez combinaram seu vestido
Agora, rosas negras são jogadas em seu jazigo

Mas Rosalli jamais recebe flores
Lembram-lhe antigos e dolorosos dissabores
Então, todas as noites ergue-se Rosalli
Que caminha vendendo suas flores por aí
Antes de o sol nascer, ela volta ao seu descanso eterno
Sem tomar nenhuma rosa para si

Por isso, todas as manhãs, no túmulo de Rosalli há um tesouro:
No lugar das rosas, moedas de ouro.

 

Manoelle D'França

 
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Manoelle
Identidade Roubada

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Quando vi este novo tópico “Filmes & Livros” aqui no JC, enlouqueci! Vieram-me logo uns quinhentos livros e filmes à cabeça – mais livros, para ser sincera. Confesso que, tanto para livros quanto para filmes, eu sou fascinada por thrillers – e um drama bem elaborado também não cai mal. Em vista disso, vim dividir com vocês um dos livros que mais me prenderam e surpreenderam. O livro é o primeiro romance da escritora Chevy Estevens, e intitula-se Identidade Roubada – mas nada tem a ver com o filme do mesmo título. Eu tinha comprado este livro em meados do ano passado, e ficou lá, paradinho, naquela famosa lista “LPL” (Livros Para Ler) que todos nós conhecemos bem.

A obra conta a história de Annie O'Sullivan, uma jovem corretora independente e cheia de planos, que se vê perdida ao ser sequestrada por um homem que, para cometer tal crime, se passa por um de seus clientes. Ela passa intermináveis e miseráveis 365 dias nas mãos de um psicopata, que a submete diariamente a vários rituais doentios e a diversos tipos de crueldade, tanto física como emocionalmente. Além disso, a história é contada minuciosamente por ela mesma, após o infortúnio, em diálogos com sua psicóloga. Em vista disso, ao longo do livro, não só sentimos os monstruosos arrepios de sua convivência com aquele desconhecido, como também acompanhamos toda a sua luta para voltar a levar uma vida normal. Não dizendo muito, mas dizendo algo mais: a história envolve um grande segredo - proveniente de um acontecimento muito delicado, que pode ser considerado o maior fator responsável pelo estado traumático e lamentável em que a personagem se encontra. Recomendo muito! E paro minha resenha por aqui, senão acabo estragando aquele friozinho na barriga tão gostoso, que pega a gente antes de lermos um novo livro.

Sobre a minha reação ao ler: preciso dizer que o livro é forte, mexeu muito comigo, por isso acho válido que se esteja psicologicamente receptivo aos diversos acontecimentos chocantes – dessa vez eu não estava, fui pega completamente desprevenida. Quando você pensar que o sofrimento acabou... Vai por mim, você estará muito enganado. É um livro pequeno, pricipalmente para a intensidade do enredo, mas me prendeu de tal forma que li numa madrugada só – quando fui trabalhar, estava um completo lixo. A linguagem é bem informal e sem rodeios, o que de certa forma me surpreendeu, pois o assunto é todo um bocado complicado e delicado. Chevy Stevens é simples, direta e ferina.

Recomendo, recomendo e recomendo. Acredito que Identidade Roubada mexerá com vocês tanto quanto mexeu comigo.

Até mais e boa leitura!

 
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Manoelle
Estilhaços de domingo

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Amanhã é segunda-feira e você já tem de ir trabalhar de novo. É tão engraçado, não acha? Parece que ontem mesmo era sexta-feira. Em momentos como este é que vemos o quão certas coisas são mecânicas e céleres. Aliás, é uma das grandes consequências que crescer acaba nos trazendo: mecanismos que têm de ser cumpridos em dado momento, independentemente da nossa real vontade, ou podemos pagar caro no fim das contas — ou, simplesmente, podemos pagar caro as contas. São ócios do ofício, dizemos. Ofício, que para nós, antigamente, era apenas aquele papel em branco que a “tia” do maternal distribuía durante as aulas — depois de termos feito belas esculturas com massinha, claro —, onde você desenhava seu pai e sua mãe, ambos com as cabeças disformes e perninhas de palito; sem se esquecer daquele sol bem amarelo que você sempre desenhava no canto da folha. É engraçado como a gente não se esquece desses detalhes; nunca mais. Às vezes estou distraída em algum lugar, quando passa por mim alguém com um perfume que funciona como uma máquina do tempo. Aquele cheirinho bom... De onde será que eu conheço? Ah, claro! É o mesmo perfume do sabonete que tinha na escola, no Jardim de Infância... Aquele sabonete que a gente adorava passar o máximo de tempo possível esfregando nas mãos, só pra vê-las branquinhas de tanta espuma. Eu me lembro do sabonete da escola. Às vezes você deve ver algumas crianças indo à escola, hoje em dia desacompanhadas, e lembrar-se exatamente do jeito seguro que seu velho segurava a sua mão quando te levava às aulas. Deve lembrar-se de como ele falava pouco, ou de como fugia dos inúmeros “porquês” que você perguntava o tempo todo... Ou talvez deve lembrar-se de como ele adorava responder suas perguntas, conversar contigo e fazê-la rir. Você olha para ele hoje, sempre tão preocupada com aquela saúde frágil que ele tem agora, com aqueles olhos enrrugadinhos e aquelas pequenas bolsinhas aparecendo logo abaixo deles, e se pergunta o quanto ele consegue enxergar agora. Isso porque você não se esquece de como você perguntava o que está escrito ali?, quando ainda não sabia ler, e ele lia em voz alta para você, sem pestanejar. Trivialidades, eu sei. Mas são trivialidades que carregamos conosco eternamente, o tempo todo, mesmo que apenas no subconsciente; ali, bem escondidinhas, dispostas a serem tão cortantes como estilhaços nos momentos de saudade. Nos momentos em que essa bendita vadia chamada Saudade te pega de jeito, naquele domingo tão comum, em momentos tão banais e tranquilos ou até entediantes, quando sua mente está vazia, e aí, então... Ela entra sem sequer perguntar se deve.
 


Manoelle D'França

 

 
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Manoelle
Dom sem dono

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Teimosia de muitas forças,

indomável, sem controle algum.
Dissimulado e cheio de vícios,
nascido e criado em lugar nenhum.

Um intolerante noturno, matutino, vespertino.
Dom sem dono,
dom em desatino.
Desaba em cascatas de desequilíbrio,
mas tomba como flores na primavera.
Do coração,
suas palavras me fecham uma cratera.

Me possui quando tem vontade,
e some deixando-me à mercê da realidade.
A única cura para a dor que me causa,
o chão em que piso quando me desvia da estrada.
Meu lar quando me deixa adormecer no sereno.
Do melhor dos antídotos,
o inevitável veneno.




 
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Manoelle
Os Fantásticos Livros Voadores de Morris Lessmore

(The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore)

Lindo. Apenas assistam. Sorrindo


 
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Manoelle
Tique-taque do Poeta Preguiçoso



07:00.
Sente pesar o corpo,
Contrai-se como um todo
A fim de lutar contra a tal sonolência
Que aos trancos presta sua ausência.
Um café malfeito,
Um bolo sem confeito,
A areia nos olhos
Por não ter conseguido dormir direito.

10:30. 
Pragueja à chuva
Que se aproxima às lufadas,
Tranca as janelas e
Chacoalha as páginas molhadas
Danificadas pelos vacilos
Que dá enquanto escreve.
Reorganiza tudo enquanto oscita de leve.

Meio-dia. 
“Panela no fogo, barriga vazia”.
Vai, então, recobrando a energia,
Torcendo o nariz para a mente vazia
De tantas ideias jogadas nas folhas
Molhadas de chuva, já cheias de bolhas.

17:00. 
Café gelado que de manhã pelava,
Espreguiçando-se no sofá, que já lhe chamava.
A televisão em volume inaudível,
No enfado do domingo
Ver expressões sem voz parece algo incrível.

20:00. 
Sonhando com as páginas,
Repousando sem lágrimas.
O sofá tão rígido e desconfortável
Já então lhe parece afável.

23:40. 
O poeta acorda.
As noites pelo dia ele troca.
Sonhar ao dia, trasladar à noite,
Antes que o esquecimento torne-se um açoite.

01:00. 
Reúne a fantasia, a realidade e o som
Ao descobrir que poetizar é um dom.
Apercebe-se que está com sorte
Ao ver que nas folhas, a criatividade traçou riscos fortes.



Manoelle D'França
(Texto originalmente publicado em Maphago).

 

 
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Manoelle
A Renúncia de um Anjo

Da vida a pior crueldade, foi mostrar-me aquele anjo
Ao chão jogado, sem qualquer resquício de dignidade.

Os abraços que um dia dera, tornaram-se vis correntes de aço.
Os beijos que recebera, nada passavam de traquejos para traições.
Os dependurados que salvara do precipício da insensatez, Puxaram-no pelos pés e assistiram sua queda.
Os friorentos a quem aquecera, certo dia envolveram-se em suas penas arrancadas a contragosto,
Deixando suas belas asas em frangalhos.

O homem a quem dera seu amor, fizera do anjo uma meretriz.
Os cabelos um dia feitos das nuvens do céu, agora não passavam de uma fumaça cinzenta que inibia a visão.

O belo anjo ao cair, descobrira ter ossos, carne e sangue
E que levantar-se sozinho seria o começo de todo o desagravo.
Descobrira que era um ser humano e que abençoar os passos alheios não seria agir como tal.

Malícia, do que outrora não soubera o significado, tornara-se seu olho esquerdo
E a vingança, que um dia fora pura tolice, tornara-se seu olho direito.
Sua armadura protetora tornara-se nada mais que uma pobre vestimenta em andrajos.
Mas seu poder tornara-se intenso. E aniquilador.

Manoelle D'França
(Texto originalmente publicado em Maphago).


 
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Manoelle
Presentes Vislumbres do Passado

Serena menina ao sereno da madrugada
Brincava na beira do oceano que com a água agitada
Espalhava conchas pela areia límpida
Que lambia os pés da menina, cuja alegria era nítida.

Enquanto a lua vigiava sua candura
A menina corria, de vaga-lumes estava à procura
A eles fazia pedidos como se fossem fadas
Que quando soltas, iam ao encontro das estrelas brilhantes no céu penduradas.

O vistoso algodão-doce no céu
Estava distante demais para suas mãos miúdas
Cobria a lua como um véu
Mas sequer chegava perto de sua boquinha pedinte de açúcar.

As flores que dançavam com a suave brisa do mar
Serviam-lhe de coroa para reinar sob os encantos do luar
A areia era da princesa o aposento
Até que amanhecesse em seu quartinho decorado
Com o coração sonolento e sonhando alto.


Manoelle D'França
(Originalmente publicado em Maphago.)


 
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