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Marisa Oliveira
O Novo Ciclo
Unstable - Alexandra Levasseur


volto a escrever
- coisa que, na verdade, nunca parei
mas volto a escrever
com vontade de concluir
e, alguns, publicar
... e volto a desenhar
a rabiscar
a pintar
com mais vontade de colorir
e doar todos

volto aos pranayamas
principalmente aos ásanas
aos mantras e incensos
recondicionamento
retomar a flexibilidade
equilibrar dentro de tanto contraste
buscar sanidade
- ou rebuscar a sanidade
(sei lá.)

volto às cordas e ao canto
caí de novo nesses encantos
como era aos 16
 - e nostálgica como Conversation 16
mas meus dedos nunca perderam seus calos

volto a sentir certa tristeza
e lidar com ela com a mesma destreza
tento até transformar em algo bonito
sem choro, sem grito
e me descubro mais forte de novo
e de novo, e de novo

enfim, tudo mudou
mas nada mudou
 
 
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Marisa Oliveira
Amarilis

Abraço Amoroso - Frida KahloAbraço Amoroso - Frida Kahlo
 

e ficou Ísis Maria
tanto tempo de escolha
tanto tempo de espera
pra definir a forma mais sincera
- Ísis Maria era, enfim, a cara dela

Ísis é deusa,
Maria é deusa,
e as duas são força,
mas as duas são flores

por isso,
amar Ísis, amarilis
amarilis amarela,
amar ela, amar Ísis,

amei, amava e nem sabia,
e de qualquer forma amaria;
por isso,
Ísis Maria.

Ísis é mãe do deus dos céus
Maria é mãe do Deus dos céus
as duas são mães na Terra,
personificações da Natureza;
a mãe Terra,
maior concretização que existe do Amor

...e se nascesse antes seria Ísis Maria.
E se nascesse depois Ísis Maria seria.

E eu,
que só dessa vida sei,
sei que por toda vida Ísis amarei;

e, ainda que viessem outras vidas,
sei que por todas elas Ísis eu amaria.

 
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Marisa Oliveira
Maio, O Que Que Há


Natureza Morta por Olaf Hajek

Informação demais. Céus, por que que as pessoas falam tanto? Falam de tudo dizendo nada... Se superam no gastar das palavras a toa... Por que não existe uma espécie de cota diária, semanal, mensal, etc, de bobeiras para se falar? Assim todos falariam suas idiotices, mas sem idiotizar tanto o meio consigo... Porque agora, me parece que esse que é o de praxe. Ah, eu sei que falar é muito bom. Mas, como sempre diz minha mãezinha, dona Jandira, tudo que é demais, não importa o que seja, não presta.

Alto demais. Outro “por quê” que vive comigo, é o seguinte: por que as pessoas falam tão alto? Por que essa necessidade de gritar aos sete ventos a sua opinião sobre os papos-qualquer-coisa. Isso aqui já tá qualquer-coisa demais... Céus! por que gritar? Quanto mais alto me falam, menos eu escuto... Alto demais.

Ai, é iluminação demais também. Me cega os olhos. Por que que as pessoas querem se iluminar purificar abençoar tanto? Não sei, pra quê tanta luz e tanta cor, toda hora todo dia mesmo todo tempo, mesmo quando o cinza combinaria mais. Só sabe apreciar a beleza do arco-íris devidamente quem soube apreciar também a chuva. O bom fica melhor quando se sabe como é o ruim. Como diz a linda Adriana: não gosto de bom gosto, não gosto de bom senso, não gosto de bons modos... gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem.

Expectativa demais. Nunca subi em pedestal, nunca fiquei em primeiro lugar, nunca disse que faria assim ou assado. Por que que esperam? Esperam que eu fique, que eu aceite, que eu compreenda sempre, ou que eu vá, que eu consiga, que eu explique sempre... Por quê? Não quero que me botem em alta conta. Não quero que me queiram muito bem. Não quero que esperem de mim, esperem que eu faça assim, não importa o quê.

O que será que aconteceu com a pessoa que vos fala? Nada, minha gente. Essa é só mais uma série dos meus por quês inúteis, que pode deixar algumas pessoas incomodadas. Que vão me procurar para perguntar se está tudo bem, e não vão acreditar quando eu disser que está; ou que vão me dizer que eu sou muito rabugenta e reclamona para a minha idade, ou que vão querer me dar conselhos de como viver a vida. E eu não vou conseguir (nem mesmo tentar) convencê-las nem de que eu estou bem, e nem de que eu sei ver o lado bom das coisas, e que estou vivendo e até existindo.

O que acontece é que eu não quero ter que escutar de novo e novo. Não quero ter que tapar os ouvidos estando a escutar do mesmo jeito. Não quero parar de fumar, de comer carne, de tomar porre, em prol da minha salvação. Não quero ter que me explicar, não quero que me esperem nas festas ou na vida, nem quero essa superestimação não... Tudo que é demais não presta.

Estou mais perto do que nunca do equilíbrio. Equilíbrio não é só bondade, nem só maldade, não é só luz, nem só sombra – falo de equilíbrio de verdade, o qual eu comparo com a perfeição. Perfeição é isso: orquídeas azuis, espada e cruz, árvores centenárias, linguagens binárias, sol nascente, lua crescente, socos no estômago, alcance do âmago, águas, mágoas, fumaça, cachaça, fiordes, fords, Ogum e Shiva, Exu e Vishu, Deus e Zeus, tudo num mesmo mundo. Balança equilibrada.

Não quero nada do que eu tenha visto. Não quero lugar que eu já sei como é. Não quero ninguém que eu conheça. No momento, eu não quero nada demais, só almejo a estabilidade material, porque o resto está em paz. Quero é continuar a apreciar silêncio, sentir vento, entender pensamento, saber pegar o andamento. Me dou bem com quem sabe compartilhar silêncio, com quem gosta de sentir vento, com quem troca pensamento, com quem sabe do andamento. Quem sabe ouvir silêncio, vento, pensamento, andamento.

Quero é sensações novas. Em outras latitudes, altitudes, atitudes. Quero só os meus amores platônicos de sempre e aqueles que são casuais, ou que são potenciais em ser – do mais, quero quem eu nunca vi, onde eu nunca estive, cheia do que eu nunca senti.

 

 
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Marisa Oliveira
Ressalvas


The Weather Girl I por Alexandra Levasseur


algumas pessoas acham que sou sonsa séria santa
- não sou, e nem era; quero ser só o que não cansa.
rio alto, percebo, bebo, falo palavrão, gosto de fritar
uso salto, revejo, desejo, uso a mão, dispo com o olhar

outras pensam que não tenho coração
porque não me comovi com a última tragédia da televisão
- eu que já chorei por uma judia alemã,
por crianças do Alemão, por bombas no Vietnã

outras juram que eu não sou amada,
porque nem sempre vejo graça
na garça, que é sempre inédita, na proa;
- sou rio, e não rio, nem sorrio a toa

e algumas pessoas levam muito em conta tudo que eu digo;
- saibam que eu não sei nem das coisas que eu lido
e também não sei do que tenho lido,
e nem sempre me dou bem comigo

 

 
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Marisa Oliveira
Das Experiências Oníricas II
alt
por Vladimir Kush

 

Desde sempre, sou fã da tal da massa cinzenta. Não falo por inteligência e tal, mas pela função que ela desempenha mesmo. Dentro do cérebro, temos mecanismos que coordenam movimentos, aprendizagem, pensamentos, raciocínios, organismos, armazenamento, dentre outros... E, ainda dentro do cérebro, a memória, se divide em outras memórias; declarativa, não-declarativa, de curto, médio ou longo prazo, de processamento, etc. E dentro das memórias, uma gama quase que infinita de vozes, cheiros, rostos, cores, temperaturas, sensações, palavras, mais uma série de outras coisas. Acho maravilhoso.
 
E, mais curioso do que o funcionamento da memória, o leitor há de concordar, é o da criatividade e o dos sonhos. Principalmente o dos sonhos: cruzar memórias ativas com coisas quase esquecidas, para criar uma realidade totalmente nova e, diferentemente da criatividade, de maneira inconsciente. Incrível.
 
E essa tal realidade totalmente nova me intriga, desde sempre. Pode parecer tolice dizer isso, mas não tenho sonhos normais – sei que ninguém tem – mas o que eu quero dizer com isso é que sonho com coisas tão esquisitas e/ou diferentes, que nem sei como classificar, que não estão nos superestimados dicionários de sonhos e tal. Como quando sonhei com um vilarejo lotado de varais, cheios de calcinhas estampas com músicas religiosas, muitas que eu aprendi quando era criança. O que explica esse tipo de coisa?
 
Mas o que me levou a escrever isso tudo na verdade são os sonhos que tenho com pessoas. Quando sonho com pessoas desconhecidas, fico pensativa porque sei que a pessoa não é desconhecida de fato – em alguma ocasião, ela entrou em minha memória.
 
E quando sonho com pessoas conhecidas, fico mais pensativa ainda, pois normalmente é mais estranho. Mas falo de sonhar com pessoas com as quais não se convive diariamente.  Muda tudo. Sonhar com colegas de classe, amigos queridos, familiares, por mais estranho que possa ser o sonho, acho “justificável”, por causa de tais serem tão presentes em nossas vidas.
 
Porém, sonhar com pessoas conhecidas, mas não chegadas, sendo bom ou ruim o sonho, quase sempre me é esquisito. Vou usar como exemplo o último sonho do qual consigo me lembrar, e que não me sai da cabeça.
 
Sonhei que estava com três amigos, não tão chegados, na cidade em que eu morava, numa casa que deveria ser de um deles. Era madrugada, a TV estava ligada, a gente bebia, fumava, conversava e ria muito. Adormecemos. Quando acordei, lembrei que viajaria para o litoral com minha família no dia seguinte, e descobri que já haviam partido. Um deles, o dono da casa, fazia um café da manhã, ouvindo bossa nova. Enquanto eu estava em frente a um espelho, outro, que acabara de sair do banho, me dizia para ficar tranquila, que eles também iriam, e que eles avisaram meu pai que iam me levar. Ao sair, me deu um beijinho na boca, e nesse momento eu compreendi que éramos um casal no sonho.
 
Acordei sem entender nada (como sempre). Desses três amigos, um deles é mais chegado que os outros, do tipo em que se vê durante a semana, de vez em quando, pra jogar conversa fora, mas não temos tanto convívio, ainda mais depois que mudei de cidade. O segundo, não tão chegado, mas conhecido suficientemente para saber que é uma pessoa bacana, que gosta de coisas bacanas, tem o hábito de ler e escrever, e tals, e praticamente o encontrava só quando saia à noite. E o terceiro, conheço por causa do primeiro, frequentamos um mesmo bar há um bom tempo atrás, mas nunca passamos do que é conveniente quando se encontra um conhecido.
 
No sonho, era com este segundo que eu estava. E eu acho que eu nunca mais vou encará-lo da mesma maneira pois, em alguma realidade diferente dessa, estivemos juntos, nos conhecemos melhor, nos demos bem e compartilhamos coisas boas. Sei que ele não sabe muito sobre mim, e o que eu sei dele é apenas o que ele se deixa mostrar, mas em algum lugar, sei que conheci ele por inteiro. Engraçado é ter essa sensação após ter tido um único sonho, e a única coisa que pode justificar isso é o fato de que o tempo num sonho passa diferente. E volta e meia, sonho com alguém assim, que não é tão presente na minha vida, e acordo com uma impressão diferente do tal. Sei que isso nada tem a ver com estar apaixonada ou algo do gênero, mas sei que em alguma circunstância demos certo. Só acho que os sonhos mexem mais com as pessoas do que deveriam.

 
(ou, pelo menos, mexem mais comigo do que deveriam)


mais devaneios em http://formula-do-acaso.blogspot.com.br/ 
 
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Marisa Oliveira
Das Escolhas

alt

As Duas Fridas - Frida Kahlo

 

É como um rapaz de alma boa, do tipo que empresta neblina, me disse esses dias: "para vocês, eu sempre vou estar bem". Mas pude ver em seus olhos algumas cervejas e mágoas. Mas estavam misturadas com sorriso e chuva.

Compreendi porque sempre fiz o mesmo, pois confiança não se encontra em qualquer esquina, não é pra qualquer pessoa que se empresta neblina, isso faz parte de uma escolha. Além disso, sempre acreditei que evoluímos ao falar mais coisas boas do que ruins, ao escutar mais os problemas alheios do que falar dos nossos e ao aprender a resolver as próprias dificuldades. É claro que em algum momento, se precisa de alguém. Mas na maioria das vezes, os elementos curativos estão dentro de nós mesmos. Então, sim! tudo bem.

 Alguns podem achar que é hipocrisia, outros chamam de egoísmo, outros ainda dirão que são máscaras, mas não. Esse rapaz de alma boa, ele não usa máscara nenhuma. Conheci ele há certo tempo, já tocamos algumas músicas juntos, nos encontramos ocasionalmente em festas e idas ao parque ecológico, mas só fomos devidamente apresentados no começo do ano. Mas, pra mim, sempre o conheci, mesmo não sabendo seu nome até então. Porque a gente enxerga claramente o que ele é, porque ele é, e não tenta ser. O que ele busca, faz parte de uma construção, da qual ele já tem os alicerces e estruturas.

 Nada mais lamentável do que alguém que pergunta trivialmente a uma pessoa como ela está, e esta conta. Gente que gosta de contar quantos tipos de remédio toma por dia. Gente que acha a mãe injusta. Gente que acha que dá demais e recebe de menos. Gente que tem medo de olhar para fora, prefere o próprio umbigo. Tudo gente que não entende que pelo menos houve remédios para amenizar, que houve mãe para gerar, que se pôde dar sem fazer falta, que os olhos combinados com discernimento são o que respondem a maioria do que perguntamos dentro de nós.

Mais lamentável ainda é gente que conhecemos há tempos, mas que, por um motivo ou por outro, não conhece a gente direito. E acreditam ter o direito de saber de nós. E de palpitar. E de estar por dentro. E de dar conselhos não pedidos, que sempre são mais óbvios do que horóscopos ou livros de autoajuda.

Então, sim, tudo bem, pois o que não está, há de ficar. Porque quem realmente sabe do que acontece, pergunta sim, mas compreende independente da resposta ser exata ou não. O que difere é que este compreende com os olhos, com energia, com coração. Este é do tipo que empresta a neblina, presenteia com pôr-do-sol, compartilha histórias e estórias especiais. E, de quebra, deixa tudo bem com abraço e música. Não dá conselho, dá abraço, beijo, e coloca a alma perto, de tal maneira que sentimos que está do nosso lado. 

Então, sim, tudo bem. Porque quando não era, a cura sempre veio, por meio de abraços de almas compatíveis.

 
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Marisa Oliveira
Balanço
alt
por Sarolta Bán



vou entender quaisquer coisas que me joguem na cara
porque sei dos meus vacilos,
porque meu universo é corda bamba
sei bem onde sou inverso e onde oscilo
vou entender e aceitar

pois, os meus amores continuam sendo meus amores
e quem eu amava, agora eu amo mais
mesmo que que ninguém saiba

no processo, expandi a consciência
mas contraí o que eu pensava
dei indiferença e ausência
por minha língua que não falava

se algo vai mudar, eu não sei
mas nem o padre, nem o doutor das mentes
nem os mais próximos remanescentes
puderam me alavancar para qualquer solução
que não fosse o espaço sideral...

logo, não preciso de ninguém para me dizer o que está errado
não preciso de nada para me condenar pelo passado
não há necessidade de me dizer o que fazer
nem de me mostrar para onde correr
estas, coisas todas que já aprendi
e, não sei porquê, só não exerci


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Marisa Oliveira
Constatação do Ponto Fraco
alt
As Garotas Na Ponte - Edvard Munch




antigamente
morava em outra cidade
na divisa de um quase deserto

antigamente
eu tinha saudade
de ter a tristeza um pouco por perto

em algumas épocas do ano, só havia dias alegres de sol
com flores nas árvores e pássaros cantando e tudo mais...

eu sentia falta dos dias cinzas,
da neblina, das nuvens, da chuva,
da densidade do ar

antigamente
eu tinha vontade
de ter a tristeza um pouco perto.

ela é feito whiskey ou café
e inconstante feito a maré..
diz que tem bastante por aí,
mas poucos realmente sabem apreciar...

e o meu rádio toca choro
e na rua chove choro
choro que não sai não sei por quê
e que, talvez, nem tenha por quê

antigamente
eu sentia falta de ter a tristeza por perto
mas não em mim

 
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Marisa Oliveira
Notívago
alt
Viva La Muerte III - Brian M Viveros


numa cidade qualquer,
um uísque do bom
uma boa carreira
um batom vermelho

numa rua qualquer
um andar só por seguir o som
um dançar pra noite inteira
um pouco de dinheiro

num lugar qualquer
um novo tom
uma breve choradeira
um encontro com o espelho

e aí, morrer um pouco.
 
 
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Marisa Oliveira
Eufemismo I
alt
clicada por Alexander Khokhlov



há tempos já eu estava, como sempre, trabalhando
no processo de construção do meu personagem predominante,

decidi que não ia querer muito dinheiro e nem fama,
que seria desprendido, sem gênero ou classe, um errante

defini que tivesse bondade suficiente,
que mentisse só por sobrevivência,
apreciasse o sol nascente,
e que fosse um poço de paciência.

personagem pré-moldado,
vesti, a fim de terminá-lo
talvez fim do ano
talvez fim da vida

mas esqueci que a aceitação dele é importante...
mesmo parecendo bom esse personagem predominante,
ele é visto
sempre
é bem quisto
de vez em quando
e compreendido
nunca

 
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