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Marisa Oliveira
Empírica Interiorana


(Sciarpa Blu - Tamara de Lempicka )

 

Aos meus amigos de existência,  Ana Raquel e Deni.
 

Cá estou no balcão mais uma vez
o de sempre, um maço daquele lá e o nº8

é uma mistura de crise de existência
com vodka e mania de empirismo
drink nº8, estabilizador de consciência

preciso de uma dose
I need a fix cause I'm going down... 
bebo feito água, sempre
sempre sirvo dois,
um para mim e
outro para o eu
um para aguçar
outro para distrair

enquanto isso, executo uma fuga,
esboço sorrisos e dúvidas
e termino tudo em fermata
em oito, lemniscata

consumam-se meus argumentos
para essa ausência de arrependimento.

http://formula-do-acaso.blogspot.com/

 

 
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Marisa Oliveira
Climática Atemporal Platônica

(Chuva, Vapor e Velocidade - William Turner) 


Chova bem aqui
bem nesse horário
altere o seu itinerário
pára de chover em Havana
chova junto em qualquer cabana
chova aqui na minha cama
chova aqui no interior
chova aqui nesse bairro
que tem o melhor céu da cidade
mas molha tudo
colchão desnudo
chova e dissolva
sê solvente
sol quente
leve a leve bigorna
garoa morna
a esguia na esquina
brisa fria
granizo
gris



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Marisa Oliveira
Amanhã Me Tornarei

O Passeio Sobre a Falésia - Claude Monet)


e esquecerei do misto de desprezo
   e insistência
nas minhas
    ideias infantes
       existencialmente
            fumantes

      amanhã, verão de 33 anos atrás
    velejando para o Atlântico Norte
carregando aqueles Fragmentos da Noite

          coloco os pés no amanhã
    com canções de madrugadas do ano passado
de quando me perdia em qualquer esquina da cidade

        acordarei na próxima manhã
    serei música do meu verão embaçado
do ano em que fiz quinze anos de acordo com a carteira de identidade

 sobram do hoje que seria ontem,
   esmalte descascado azul marinho,
     Devenons Demain I, crise dos trinta mais três,
     impaciência ao esperar a minha vez,
   cheiro de cigarrilha de cravo
vontade de tocar as teclas de um cravo

e aquele sentimento de dois mil e dez intrínseco
    ano que tenho bons motivos para esquecer
       mas melhores para relembrar

Amanhã, me tornarei
depois de amanhã, retornarei
e assim sucessivamente
monocromaticamente
até o último verão embaçado
até as próximas Nantes

 
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Marisa Oliveira
Efeito Kulechov
( Improvisação 19 - Wassily Kandinsky )



fragmenta-se
     aquilo que se chamou de planejado...
     agora os sólidos geo lógica mente, geo métricos
esvaem-se
     em nuances descoradas, etéreas
misturam-se
      com fumaça das últimas baforadas céticas

e o meio-fio, de tom amar elo,
   no qual ela se equi Libra
     está prestes a mudar de direção,
             nova mente

o meio-fio, que muda quatro vezes de direção,
guarda mudas de violetas na calçada do café,
e uma senhora muda sentada na esquina esmolando.....
meio-fio muda sempre quatro, e é sempre para a esquerda..

          os olhos dela sobre o amarelo percebem um vermelho.
         nessa faixa amarela, tão polido, tão espelho.
       tão vermelho quanto carro este caro
    que não vai ser multado por estar nessa tal de amar ela

leis são só para alguns, feito faixa amar ela

descascam-se
     as balas nas mãos infantis
descasam-se
     os até-que-a-morte-nos-separem
     antes mesmo da tristeza e da doença
descasacam-se
     os rapazes para entrar naquele mesmo café

fragmentos de calçada urbana interiorana
   "fragmentos compositivos kulechovianos"
      armazenados em muitos e muitos anos
de papéis de bala jogados no chão

 
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Marisa Oliveira
Quem Corre é o Tempo

Volta e meia me diz o vento...

Amanhã é segunda-feira, de novo. Falamos “de novo” com muita frequência. As pessoas inconscientemente pensam que é sempre a mesma segunda-feira. O mesmo dia 5. A mesma Semana Santa. 

O compasso pautado no tempo, tão confuso quanto músicas modernistas, com influências do romantismo, com cadências classicistas, oscila tanto que nem deveria tentar dar um gênero. Isso atrapalhou o andamento.

A técnica usada no tempo.. Pontilhismo, sfumato, o tempo pintado é impressionista, com mesclas da arte contemporânea, aquela que o sentido da sua existência quase sempre não faz sentido.

Velocidade para fotografar, não sabemos quantos segundos colocar no temporizador. Um segundo é cem séculos, cem séculos são dois anos-luz. Estou nascendo, fazendo aniversário de 5 anos, mudando de escola, conhecendo Minas Gerais, trabalhando, me formando na faculdade, dirigindo na estrada, andando no meio fio e morrendo. Tudo está acontecendo agora.

O tempo nos traça abstratos dentro dos esquemas de proporção. Acerta os acontecimentos na hora que nos parece errada. O tempo não nos possibilita esboço. O primeiro risco é definitivo. 

Esperamos ser longa-metragem, mas talvez tenhamos 3 ou 4 minutos apenas.. Fazemos cortes, fades, travellings e até mesmo pausas… mas não rebobina, não retrocede, não tem replay.

Dinheiro é uma coisa ótima que move o mundo. Não é a água, nem a energia, nem a fé, nem a massa. É o dinheiro. Nós escolhemos uma vida simples, varanda simples, carro simples, costumes simples. Nós estamos optando por, provavelmente, nunca viajar num iate ou comprar um relógio que possa matar a fome das crianças de alguma cidadezinha. Mas não compra tudo.

É por isso que vou embora, com planos de estar voltando sempre que der, por isso que vou tentar uma carreira de pouco espaço, por isso que vou fazer mais tatuagens, que vou viajar de motocicleta, que vou tentar ter um empreendimento ou mais, que vou conhecer qualquer vilarejo ou metrópole que apareça, por isso que vou continuar bebendo com meus amigos, comprando meus livros, meus anéis, meus adornos, passando tardes de domingo com a minha família, tapando os ouvidos, contornando as situações. Sim, vou gastar dinheiro com música. Vou jogar uma partida de xadrez com a morte. Rezar um salmo e apertar o gatilho. Fugir do sanatório e voltar para lá.

Não temos previsão, não temos data, ninguém marcou horário para nós. Não sabemos quando nosso tempo acaba. Mas quando acabar, temos que saber que não vai haver borracha para apagar os arrependimentos das coisas não feitas, não vai haver replay para escutar mais uma vez, nem vai dar para rebobinar e guardar na estante para qualquer outro dia. Não vai ter de novo. Quando for para acabar, não vai haver dinheiro, não vai haver fé, não vai haver injúria que impeça isso.

Amanhã é uma nova segunda-feira, e não segunda-feira de novo.
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Originalmente postado no quase nunca atualizado tumblr:
http://marisainthesky.tumblr.com/post/11257032348/quem-corre-e-o-tempo


 
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Marisa Oliveira
R.I.P. Thursday


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- Oi..

Aqui jaz a quinta-feira e nada.

- Isso me obriga a ouvir o aquele álbum dos Besouros,
aquele que é de mil novecentos e setenta e oito.

Eu... tão andorinha-old-school
presa mais uma vez
nos meus próprios pensamentos
doloridos....

- O fato da quinta-feira jazer
me lembra que mais da metade da semana foi-se
e eu não fiz metade do que havia pra fazer

Impróprios, os pensamentos de depois da meia noite
Insólitos, os mesmos pensamentos desse depois da meia-noite dessa noite


- Coisas que nunca aconteceram me doem.

Como doem, feito as músicas que não consigo terminar
feito os desenhos que não consigo pintar
feito aquela maneira de eu olhar,
a qual não tive com quem gastar nesta quinta-feira que está jazendo.

- Não estou pensando em nada, oras.

Estou pensando em tudo.

andorinha old school, meio engaiolada ...
o próprio bico é a fechadura trancada.

deveria pegar um punhal old school
e enfiar nesse coração old school

a quinta-feira jazeu
e andorinha, mais pra coruja old school,
adormeceu.


( http://formula-do-acaso.blogspot.com/ )

 
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Marisa Oliveira
Ano Que Vem


(Desnudo con Alcatraces  - Diego Rivera - 1944)


Quando nasci, um anjo distraído,
desses que tropeçam nas próprias asas
me disse vai Marisa! fazer do mundo sua casa

por isso esse gosto pelo pensamento suspenso
no vento que dói por não ser colorido
por isso plantei orquídeas nos Jardins Suspensos
por isso no meu vaso coloquei lírios

quis ser como Minerva, depois disso fui argonauta
também estive no satélite, também sou cosmonauta
descobri e amei minha vida ao por os pés no mar inquieto
redescobri a curiosidade obsessiva pelo secreto

estive no Chipre há pouco, novo país na minha lista
aprendi uma música no violão pra servir de isca
se houver benção, haverá testemunho também
se houver dragão, haverá moinho também

saudades dos anjos distraídos e de asas quebradas
de pessoas fazendo do mundo suas casas
também sinto muito pelo vento incolor
e pelos moinhos e pelos dragões de tanta cor

saudade que não sei explicar direito
do que imagino que seja diferente
dos gostos e lugares que não conheci pelo menos ainda
saudade que estou tendo e matando constantemente

até eu que não gostei de Picasso um dia
eu que troquei tempo quente por brisa fria
já morro de saudades do meu quarto de parede rabiscada
mesmo estando aqui, na minha cama, sentada

 
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Marisa Oliveira
Christophorus


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Vagar
eu vago, tu vagas
aqui, não há vagas
ele vaga, nós vagamos
e tantos km nós rodamos

Divagar
eu divago enquanto vago
reescrevo e apago 
nessa terra castanha ou transgênica
nessa rota tão sistêmica

Cansar
eu canso, os braços cansam 
 as faixas amarelas avançam
o esperado cair da noite cai
no cheiro de peixe do cais 

Perguntar
eu pergunto sempre
e perguntaram de onde venho
e tive vontade de dizer que
venho vou de todo lugar.

Vaguemos,
aqui de novo não há vagas
o jeito é cair como a noite cai,
mesmo com baixa cilindrada,
cair mais uma vez na estrada

 
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Marisa Oliveira
Climática Atemporal




Pequeno privilégio,
essa vista da frente da escola
cheia de criança maliciosa
viciada em sortilégio

eu

ando escrevendo tanto sobre o tempo
que aprendi a lidar com descontento
soube quanto vale um momento
e quanto arrepia um sopro do vento.

Isso tudo que estou te dizendo
coisas trazidas pelo mesmo vento
adendos do agora que chove
os galhos das árvores que o vento move
as flores de cor coral
na cerca de metal
me contam que o vento está bravo
me mostram que o tempo virou
de direção, de tom e de compasso
apressou o meu passo
mensurou o espaço
deixou somente
um arrepio e
um abraço.

http://formula-do-acaso.blogspot.com/

 
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Marisa Oliveira
Anos Depois

             
Para Bruno Nonvieri       .

menino, menino,
lhe quero tão bem
lembro das viagens que fizemos
das ideias que tivemos,
menino, e essa cor do seu cabelo
tão fino, tão violino
ah, te estimo.

...e aquelas vespas,
uma azul e uma vermelha
vimos o lago que espelha
e soubemos o que é brisa

e as músicas, tantas tão ouvidas
sem cansar, sem riscar,
e ainda tenho tanta coisa pra te mostrar
tanta coisa que ias gostar

senta, tem caixa de som grande
tem cigarro, tem vinho e tem café
viajemos mais uma vez sentados no mesmo lugar
viajemos desde o topo até o nível da maré
tem calor, mas pros pés tem areia
areia não é pra jogar nos planos, pais

não posso fazer nada aqui
mas não quero que nada possa lhe fazer parar
que nada baixe teu olhar
nem que haja motivo

areia nos planos, planos na areia
um e um e de repente uma teia

mais que planos, teia de sonhos pequenos
imensamente pequenos,
teoricamente fáceis de realizar
impedidos apenas por muitas milhas.

 
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