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Marisa Oliveira
Tempo

(A Persistência da Memória - Salvador Dali)


pautado num compasso apertado
atentemo-nos para o andamento
dias que passam correndo
um dia mezzo forte, forte
dias que nem passam
inaudível, quase param

mezzo, tempo

contado como se fosse cédula
anotado como se fosse nota
perdido como se fosse chave
gasto como se fosse cédula.

não se esqueça do cartão-ponto
não há tempo pra hora-extra
não há reembolso e nem folga

não, não tenho a vida toda pela frente
o que tenho com certeza são mais uns dias em frente
sem pessimismo, sem extremismo
vida, uma só
tempo, um só.

bequadro,
onde gasta, o que desgasta,
o que desgosta, do que gosta
não há passado, nem futuro
não há luz, não há escuro
seremos o que eramos
antes de nascer
de certeza, só temos esse
momento

ser criança e só
ser para sempre jovem e só
o expediente é um só
o experiente é só

fermata

 
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Marisa Oliveira
Água Que Não Deságua

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rio


está sempre corrente,
sempre outro no mesmo
ou congelado,
no gelo, no retrato,
ou quente, fervente
ou ameno, sereno
ou incontrolável,
devastador
arrasador,
assustador.

e se conseguir o fazer parar
paciente, ele evapora, se mistura com o ar.

tempo
 

 
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Marisa Oliveira
Grande Breve

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Do saber viver, um dos males:
botar reparo nos detalhes.
Acúmulo de bilhetes
ver uma flor só feito ramalhete
levar em conta cada cascalho
de cada memória, uma colcha de retalho
ver portal em qualquer janela
vestir feito traje real camisa de flanela
desejar cheiro de café
companhia num chalé.

O tempo é uma bailarina,

é mezzo piano e seda fina.

 
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Marisa Oliveira
Conclusão

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                                                                                                               para Samira Assis, a melhor amiga 


Torçam, distorçam, contorçam
alguns vieram e já se foram
outros vieram e ficaram até então
mas certeza de amanhã
é só uma

mesmo que eu morra daqui a pouco
mesmo que eu esteja louco
mesmo que eu esteja morando em... sei lá, Tóquio
reclamando do stress ou do ócio
ou então em Viena ou Berlim
ou então num nomadismo sem fim
só uma

cito coisas inimagináveis
porque são várias as variáveis
mutáveis as chances mudanças
e infinitas as andanças
me deixando certeza
só de uma coisa

a dos perfumes que não sei o nome e tons pastéis
a dos seus quadros e livros e pertences
a que me lembra hijabs e sonhos parisienses
a do anel de borboletas e medo de avelã
e praias paradisiacas misturadas com Chopin
e o verão de setenta e oito


clichês à parte,
está até na novela tosca
que deixa a canção tosca
mas, para mim, vai ser
sempre adeus Lenin, oras

certeza só uma
um caso de amor eterno,
de brilho eterno,
que não acaba amanhã ou depois
o verão de setenta e oito
foi é será
agora
 

 
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Marisa Oliveira
Soneto Azul

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Se eu fosse uma cor, seria essa
certamente a cor que deve ter o orgasmo
a que dá um gosto de menta no marasmo

Algo que não sinto mais é pressa.
Esmaltei as unhas nesse tom agora
o tom do céu rajado chuvoso ali fora

Se nós fossemos uma cor, essa seria
a cor de contraste das cerejeiras
a mesma das estrelas da sexta-feira
a do tom dessa música, azul si menor

Acordes, não há mais que seis nessa melodia..
acorde e veja o que eu deixei na cabeceira,
eu me lembrei que nuvem é passageira.
Sobram gosto de menta e músicas de cór.
 

 
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Marisa Oliveira
Agora Eu Era Herói

 

Quando eu andava me equilibrando pelo meio-fio
Quando acordava mais cedo e reclamava do frio
Quando eu maravilhava um Jan Olav de suéter verde
e esperava pacientemente que meu ipê crescesse
e olhava para o céu afim de me encontrar lá em cima
e via no meu anel de pedra transparente uma nuvem refletida
e espiava quem se apaixonava platonicamente
e sempre tentava estar sã dementemente
porque demente mente
pra si mesmo
sempre
 

 
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Marisa Oliveira
Mais Uma Última Dança

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Onde é que eu estive nesses últimos anos?
Isso tudo não estava nos seus planos...
e as cabeças flutuando no céu do meu bairro
e as flores recebidas estão se desmanchando
de acordo com o acorde que o vento está soprando
no chão de madeira do meu quarto
e o ápice da embriagez nas ruas antigas
e a margem seca do córrego que foi grande um dia
e os cigarros que eram tão prejudiciais
e as bonecas que eram tão especiais
e o pedido de permissão, não podia faltar
se for para fazer isso agora, nem sei por onde começar
e o não que era tão constante
e o sonho que era tão distante... ?
Está tudo aqui, tudo ali, tudo lá
sempre a um passo de começar.
 

 
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Marisa Oliveira
Anacrônico

De alguém como nós, o que se pode esperar?
Eu espero a noite chegar
em cima do meu terraço.
 

 
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Marisa Oliveira
Esquina

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Na beira da cama
enrolei-me no lençol
esbocei um rosto
descasquei esmalte

Olhei como quem engana
arranquei-lhe o anzol
e lembrei do gosto
era chocolate e malte

Na banqueta
Descruzei as pernas
Tirei o salto
e soltei o cabelo

Na prancheta
tracei duas retas
apontando para o alto
e olhei pro espelho

Onde é que eu estava nesse tempo todo?
um processo, auto-exploração mais uma vez
um progresso, descobri meus olhos na tua tez.

People die in their living rooms.
Na verdade, eu sempre soube.
E sentido, é só pra quem ouve.

Peguei uma bolsa,
coloquei High Violet, Darklands, 
You Are Free e Cigarrette Smoke
coloquei a medalha dourada

Criei uma força
I'm here yet, by the yellow sand
So Heavy She Is, it isn't a joke
esse é o começo da estrada

She lives in Love Street. 
 

 
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Marisa Oliveira
Summertime

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Mudança,
não de hábito, mas de casa
sair do casulo, criar asa
mais do que isso,
- escolher quais e quantas cores terei na asa

uma das cores
- obter a verdade
antes que o cigarro acabe

se o toque foi sincero
se levo, se espero...

outra cor,

- terminar a primeira composição
concluir a segunda-opção
prestar atenção no que ele ouve
e guardar só quem de fato me soube

a próxima cor,
- a oitava maravilha
o descarte correto da pilha
casa alugada e a consciência
da consequência.

a cor de agora,
- a mania de pisar no meio-fio
e não reclamar da chuva e do frio
olhar pra janela, botar um vinil
só duas décadas e uma vida senil

outra cor seria
- a ausência de uma
entende-se preto ou transparente
nula ou incandescente
ausência para poder ser pintada
quando a asa estiver meio desbotada.

escolher quais e quantas cores na asa
não algo fácil de se fazer, mas que se faz
cedo ou tarde, no farol ou no cais
contigo ou sem tigo,
com água, com vinho

não, não me tornar borboleta quando envelhecida
dizendo que a vida foi muito corrida
porque quem corre é o tempo,
e quem me disse foi o vento
que levanta meu cabelo.

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One of these mornings...
You're gonna rise, rise up singing,
you're gonna spread your wings,

child, and take, take to the sky,
Lord, the sky.
 

 
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