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Marisa Oliveira
Frustração
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Não, querida, Joana não te ligou nesse meio de tempo.

Teus olhos incharam por qualquer coisa, na mesma constância com que essa chuva cai pela janela, argumentando com a parede as possibilidades perdidas, não é Luísa? Quem dá passos lentos também caiu. E quem correu pode até ter morrido, mas com o dobro das tuas memórias.

Teus dedos trêmulos segurando um lápis, parados sem saber o que colocar nas linhas do caderno de papel reciclado, buscam exprimir o que está do lado de dentro, mas não encontram. As palavras escorreram pelos teus ouvidos e 
escorregaram pelo teu corpo até ralo adentro...

Tua cabeça lamenta de o Destino ter lhe dado uma caixa de chocolates e ter pego-a de volta antes que se pudesse provar todos os sabores. E essa tua culpa por não ter tido essas companhias que estão indo antes, bote-a no Destino, no 
Relógio, nos Ponteiros. Ela não é sua, Luísa!

Tua boca está pintada de vermelho, porém, continua muda... Só mudou-a para um tom que pudesse dizer algo sem que se precise falar, mas não adiantou muito. Cobram as tuas confidências e rotinas, mas esquecem que Luísa sempre foi a ouvinte e esqueceu como é que se fala.

Teus ouvidos se confortam com uma seleção de rock britânico relativamente recente que começa com a grudenta e clichê I don't believe that anybody feels the way like I do about you know e termina depois que se pegar no sono, de modo que não se saiba qual foi a última música e em que momento os teus olhos se fecharam.

A mente está sonhando com um telefonema inesperado de um lugar inesperado... um violão velho possuído por aquele velho espírito rebelde de anti-procrastinação misturado com amor dos anos 70 e com mais um chamisier xadrez cinza. E vai doer, acordar e começar tudo de novo por outro caminho, sem as palavras ditas, sem as canções tocadas e sem a fotografia tirada.

Luísa, deixo-te um conselho: deixa de pensar nas possibilidades, porque, se você pensar, elas vão deixar de acontecer.

Ah, Joana não te ligou, e nem vai ligar.
 

 
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Marisa Oliveira
Mudou-se

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Catarina,
menina do cabelo de fogo
do olhar que tem gosto
menina do vestido verde-água
cor de alegre mágoa
derramou-se num turbilhão de sonhos
e diluiu-se num turbilhão de lágrimas.

tropeçou no destino improvável...
o vestido é de paetês, uma verdadeira fantasia
agora, uma cor de magoada alegria
menina já não é mais.

apagou o fogo dos cabelos com um breu
e agora já não existem cabelos como os teus
o novo tom escolhido foi 2.31
e não sobrou feixe de luz algum.

- Manda lembranças minhas para Catarina
pois a quero muito bem

Catarina? Não, teu nome é Julieta agora.
 

 
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Marisa Oliveira
Relato

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No antes,
ardeu em febre
procriou feito lebre
sorriu amarelado
trajou bordados e rendados
congelou na hipotermia
enlouqueceu com terapia...
dissimular-se-ia.

E no depois
sofreu com antecedência
tropeçou em coincidências
trajou cortes mais retos
e sorrir já não lhe convinha
deu de frente com o medo
refletido no seu espelho...
entregar-se-ia.

E caiu.
 

 
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Marisa Oliveira
Conselho
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Pois bem, minha cara,
quantos anos se passaram,
quantas bocas te beijaram,
quantos cigarros fumou,
quantos licores provou,
e eu esperei você crescer,
esperei amadurecer,
para ver se você entenderia
o que eu sentiria
sobre nós todas
e as coisas,  boas e ruins
que nos cercam aqui.

 

Pois bem, minha querida
os calendários correram
os teus lábios morderam
o cigarro daqui a pouco se apaga
dos licores, somente a ressaca
e você cresceu,
mas não amadureceu
e não vai entender
as coisas que eu sinto
vai achar que eu minto
sobre as coisas, ruins e boas
que aqui cercam nós todas.

 

http://formula-do-acaso.blogspot.com
 

 
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Marisa Oliveira
Noite Estrelada

A Noite Estrelada - 1889 - Vincent Van Gogh

 

Um pensamento de criança era
deitar no telhado e olhar para aquele pano preto
cheio de furinhos que deixam a luz vazar.
Olhar para o que parece estar tão perto.
Olhar para as estrelas que nem existem mais
assim como aqueles que olharam o céu de onde se está agora...
Lembrar daqueles que saíram mundo a fora
num espasmo da mesma coragem
que tento fazer caber na bagagem.
E por onde andariam as cadentes,
tão escassas, tão ausentes
nesses últimos tempos...?
Eu li, estava escrito em algum lugar,
que são tempos difíceis para quem não abre mão de sonhar...
Olhar para o céu e descobrir o grão de areia
escorrendo na inevitável ampulheta
com uma só certeza,
a do fim para o recomeço.
Que voltem logo as cadentes
para variar um pouco esse céu de estrelas inexistentes.
Que voltem e viajem de novo
nesse infinito Universo casquinha-de-ovo...
Entendi uma coisa:
Dessa noz na qual se vive
não vai sobrar mais nada
a não ser a minha noite estrelada.

http://formula-do-acaso.blogspot.com )
 

 
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Marisa Oliveira
Juventude

Há barulho em seus olhos.

 

Nesse olhar tão colorido que chega ser branco

um olho para um demônio, o outro para um anjo

 

Eu li e me orgulhei com os que lutaram por uma série de motivos

cada um pelo seu, cada qual com seu eu...

 

o jovem que é avô certamente tem uma boa história para contar

a jovem que é avó tem mil motivos para chorar

 

Porque "jovem" é um estado de espírito, não é ?

 

Mas há barulho nos teus olhos, estrábicos

e há lágrimas nos seus dizeres monossilábicos

 

Onde foi que você derrubou aquela essência?

Será que ficou no banco do ponto de ônibus

ou será que você deletou sem querer?

 

Onde foi que você arranjou essa indiferença?

Será que achou no banco do ponto de ônibus

ou será comprou numa conveniência só para ver?

 

Há barulho em seus olhos, Juventude

e há dúvidas sem ânsia de respostas amiúde,

Juventude.

 

Agora só falta isso:

ter um filho,

plantar uma árvore

e escrever um livro.
 

 
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Marisa Oliveira
Bang Bang

Sai dessa chuva,
e saque essa garrucha
e dispare contra o meu peito logo de uma vez

Para quê perder tempo com o esse talvez

Vai, sê corajoso
usa aquela baioneta
mas com a mão esquerda
para aprimorar

Vai, aproveita a oportunidade
faz o teste de admissão,
e já reserve um provável perdão
caso acerte de verdade

Vamos, os ponteiros estão correndo
trazendo meus planos para mais perto
mostrando que esses são quase certos

Daqui a pouco, serão só as lembranças do agora
algumas canções, uns rabiscos e umas noites à fora

Daqui a pouco só vão sobrar os meus olhos parados
ou a sua vontade arrependida de ter atirado


(Don't you know what is happiness? Is a warm gun, mama ♫)
 

 
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Marisa Oliveira
Santa Marinella

Deixa que o colar de pérolas da família seja arrebentado numa dança
e desonre sua classe tomando uma daquelas cervejas comuns
e sinta o seu perfume importado
se misturar com aquele cheiro de cigarro

Deixa que as mãos de alguém estrague o seu penteado e perca a sua melhor presilha
e não precisa se lembrar depois das palavras
certamente baratas e batidas
inéditamente toda semana ditas

Deixa que o esmalte vermelho se descasque tocando um violão sem palheta
toque, toque só uma canção italiana
na bolsa, coloque os sapatos e os anéis e saia correndo
pulando as poças que refletem as estrelas

Deixa que a chuva escorra borrando o traço preciso do delineador...
essas noites de chuva prometem mais sonhos
do que qualquer outro sábado perfeito.
Só preciso de mais um sonho para compor um novo blues
ou quem sabe, um novo jazz de cabaret
 

 
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Marisa Oliveira
She

Estou no meu sapato de verniz e salto alto
e meu jeans claro cheio de rasgos

Estou entre a poeira dos meus discos de vinil
e a modernidade ultrapassada do mp3 ano 2000

Estou no esmalte vermelho escarlate e na francesinha.
Entre o conceito de biscate e de santinha.

Porque as tias costumam chamar as sobrinhas de santinhas
Porque biscates costumam chamar qualquer outra de biscate.

Tenho como banda favorita uma que não existe mais
desde antes de eu aportar nesse cais...

Posso ouvir Waylon Jennings e Johhny Cash
Ou X Ray Spex e mais The Clash

Misturas e novidades até que são bem vindas
mas o processo de seleção é rigoroso

Estou por trás do famoso álbum branco
ou com um violão sentada num banco

Posso ser Lucy In The Sky
ou Ghost Rider In The Sky

E toda esse diferença
reza a minha sentença

É difícil ser eu
pensar como eu
porque o que penso é meu

então tenho de criar
ou de no mínimo sentir

Os ouvidos não deixam qualquer música servir
O olhar não deixa qualquer quadro servir
A magreza não deixa qualquer roupa servir

E eles não são como eu
e não há ele como eu
pelo menos penso eu

e elas também não são
nem mesmo ela
que era tão eu

e acho que o mar também não
mas este chega mais perto

Até parece...
Como se a cor das minhas unhas compridas
Pudessem dizer como é a minha vida

Como se desse para prever as ondas, o balanço
como se o que eu enxergasse fosse o que eu alcanço

Como se na minha saia godet
estivesse escrito o que costumo fazer

Como se pudesse contar quantos objetos afundaram
e quantas mil fragatas naufragaram

Eu me escondo por trás dos ciscos que caem nos teus olhos
E existo porque uma outra única certeza da vida é existir.
 

 
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Marisa Oliveira
Balinha de chá

Querido, erva doce, cidreira ou camomila? Não se esqueça das vantagens do inverno, o café expresso com chantilly, a poltrona vermelha no escuro, os filmes antigos que já vi e uma dose de conhaque puro. Não esqueça da nostalgia da inspiração repentina e do fim a que se destina as palavras da poesia. E não despreze esse verão que está para chegar... Se bater uma saudade basta uma balinha de chá Erva doce, cidreira ou camomila, querido?
 

 
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