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Fernando Fantin Vono
Tout Puissant Mazembe
Escrito por Fernando Fantin

         Um evento futebolístico recente, o Mundial de Clubes de Abu-Dhabi, especifiquemos, mostrou uma “coisa” do futebol, que alguns torcedores céticos, e que talvez por isso mesmo não mais torciam, já haviam desacreditado. As notícias na TV e na internet chamam essa coisa de Zebra, e pareciam desesperadas em frisar, grifar, supersalientar a palavra, e com isso deixar claro que seria impossível, estatisticamente falando, um raio cair três vezes no mesmo canto. Bater o Pachuca, o Inter, haviam sido tristes coincidências, e o Inter de Milão trataria de colocar os africanos no lugar que a Europa convencionou que cabia a eles, para não usar a palavra condenou, talvez muito forte para os refinados ouvidos europeus. Mas aqueles velhos torcedores pareciam saber que a “coisa” de que falamos, na verdade tinha outro nome, e inocentemente, ignoravam todas as estatísticas e probabilidades para o jogo de domingo. Timidamente acompanhavam, sem algum motivo que saberiam explicar, o jogo do Mazembe, a esperar algo que, por fim, não veio.
         O que passou, passado está, diriam, e a vida segue para o time que foi derrotado. Não adianta ficar remoendo, e a dor não é tão grande como quando perde o Corinthians ou o Flamengo, até mesmo que esse tal de Mazembe era-nos um desconhecido até o ano passado. Mas mesmo assim, algo nos parece ter ficado engasgado, e se não dito, aquele desencanto com o futebol há de retornar.
         Mas o que é isto do futebol que nos parece tão difícil de tragar, perguntaria quem estivesse a procurar a próxima palavra, lendo ou escrevendo estivesse. E ao procurar a resposta no Google, que também para isso serve, chegaria em alguns pontos que julgaria fundamentais, mesmo que parecesse não fazerem o menor sentido, mas eis que estão todas aí, as questões de sempre, que não cessam de repetir-se.
         A primeira grande questão que aparece é a resistência negra, do time, ao jogar o que jogou e mostrar sua força sem abrir mão da cultura, dos rituais e das danças, sem negar o que os torna especiais, mesmo que o pessoal da grande mídia os ridicularize (sutilmente, que nisso são especialistas); e também dos africanos e do seu orgulho, nos mostra no rap do estudante angolano Kanhanga em Porto Alegre, a mensagem contra o convencimento do Inter e contra a caracterização do Mazembe como Zebra, canta ele “Que a África tem time o mundo ouve agora” e o pessoal do Inter, e o resto do mundo ouviu bem.
         A próxima é uma questão menor, bem menor, uma questão de Bosta, ou melhor, de Bastos, Rafinha Bastos (não me lembro corretamente o lugar do “a”e do ”ó”). Nosso humorista do “brilhante” programa CQC, frustrado com a derrota do Inter, e desaforado pelo rap do Kanhanga, também resolve adentrar na música negra (deixando subentendido com a poesia infantil que elabora, que o rap seja uma música simples, “inferior”) e elabora algumas frases excepcionais (excepcionalmente racistas e carregadas de preconceito) como “Foi uma derrota intrigante pra um time que treina com um bando de elefantes”, ou criticando o Inter, “Não adianta botar a culpa na Macumba”, como uma provável alusão à religiosidade africana, claramente uma referência às religiões negras como sendo religiões de segunda, falsas. É esta uma questão pequena, mas dentro do contexto do racismo no Brasil, mostra-nos que o discurso racista ainda hoje (apesar de absurdo) encontra espaço na mídia brasileira.
         Tal achado nos remete novamente a um outro caso em que o rap como expressão da resistência negra, curiosamente com um apresentador da mesma emissora que abriga o tal rafinha. Quando o tal Boris Casoi ridicularizou dois garis em um vazamento de áudio e o rapper Garnett campos uma música para responder à ofensa do apresentador elitista. Essas duas realidades continuam a ser conflitantes, os ricos e brancos e seus veículos continuam a querer explorar e ridicularizar o preto e o pobre, e estes contunuam a resistir e a ganhar cada vez mais espaço, pois sua luta é legítima. Se existe, falamos da visão elitista dos civilizados, um Eu (rico e branco) e um Outro (negro e pobre), existe uma contradição que nos leva a outra grande questão que encontramos no Google. O poder do dinheiro.
         Se existisse um Deus, e ele fosse o responsável pelos placares do futebol e se esse tal Deus fosse coerente, sendo o Mazembe o que representa (todos os anseios e expectativas duma realização histórica, para não dizer mais) e o Internacional de Milão o que representa (o futebol como negócio que movimenta milhões e como colaborador das grandes marcas, também para dizer outros maises), o placar só poderia ser um, e os vencedores seriam “os corvos”. Como de fato existe um Deus, que se chama Capital, que tem a sua coerência, porém dentro de uma outra lógica, o resultado foi o que foi, e a vida segue, capitalista. E o Inter ganhou, e ganhou também uma receita total, em 08/09, de 196.500.000 €.
         A outra questão que surge, que nem bem é uma questão, talvez uma abstração. A esperança. O Mazembe trouxe-nos essa coisa que, por vezes, é esquecida, mas que é necessária, no futebol e na nossa vida cotidiana, para seguirmos lutando contra, porque sobreviver é lutar contra, esse sistema que nos impede de levantarmos a taça, necessária para seguirmos nesse campeonato da economia mundial em que a Europa (e os EUA, que nisso não são piada como no futebol) sempre vence(m), ou sempre vencia(m). De fato, esses torcedores de um algo melhor devem muito a esse time da África, que fez bonito, por jogar, mais do que contra 11 jogadores, contra milhões, de euros estamos a falar. Obrigado Todo Poderoso Mazembe.

 

Por Fernando Fantin Vono

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010/12/tout-puissant-mazembe.html