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Fernando Fantin Vono
Exorcisando Demônios Antigos
Escrito por Fer

Mesmo para discordar de alguém, é interessante conhecer com profundidade o que a pessoa diz. Estamos aqui para criticar um autor que pouco conhecemos, registre-se já. Por isso a crítica corre o risco de parecer superficial, mas que não se trata de um aprofundamento nas idéias do autor, é antes, uma constatação a cerca do método científico.

Joseph Campbell, do que dele sabemos, após analisar vários mitos e a produção imaterial de algumas sociedades, parece perceber algo comum, ou parecido, na maioria das narrativas míticas e demonstra que a concepção do mito está profundamente ligada com fenômenos corporais humanos. Chega à estrutura do que chama o monomito do herói, e mostra que a jornada do herói é a mesma, ou parecida, em muitas das histórias. Além disso, estende a dimensão do herói para todas as pessoas, a individuação se torna possível não mais no nível social, mas no nível individual. E não estranhe o leitor, que por mais que individuação individual possa parecer redundante, não o é. É um movimento histórico que surgiu com o renascimento, e foi possível em larga escala, se concretizando com as revoluções européias. Também aponta que as sociedades "arcaicas" que observou, tinham um motivo corporal para iniciarem apenas os meninos na vida adulta. Para ele, as meninas possuem a menstruação que marca a passagem, os meninos não tendo nenhuma mudança radical, precisam de um ritual de iniciação.

Realmente o conceito de monomito do herói individual é uma observação interessante, e se tornou um instrumento importante, principalmente, na análise e na produção de obras de arte, que são criações humanas, e possuidoras de uma intensa relação com o real, por mais que o artista tente fugir e, portanto, é uma análise, ou um modelo que também possui alguma relevância na realidade. Mas a primeira questão que surge é que essa estrutura de análise, aplicada a nível individual, não consegue computar todas as dimensões, não prevê (apesar de ser possível encarar o meio social como o anti-herói) o peso dos fatores externos e as estruturas sociais que agem na vida individual das pessoas. Mas esse problema não é o único que a análise monomítica traz. A aplicação da individuação universalizada está profundamente relacionada com o individualismo solitário que a modernidade, e com ela o capitalismo, trouxe e a supermodernidade exacerbou. Ao colocar o herói no plano do individualismo, as pessoas acreditam poderem se individuar solitariamente, pouco se lixando com o mundo que as cerca. A questão é que pode-se tornar o herói da própria vida mesmo que as condições externas sejam contraditórias e mesmo que se contribua com essas contradições. O herói é, então, isolado do mundo real e busca, em pequenas aventuras, assumir o seu papel na jornada. Na prática temos o consumo se realizando como narrativa mítica, e as pequenas fugas da realidade, na forma do sexo adúltero, das drogas, das viagens à deslugares, como salvação. Não se trata de um moralismo, é apenas uma verdade empírica, um resultado da contra-cultura, que o modelo de Campbell justifica. E a visão se plenifica, atinge o ápice, na obra do diretor Allan Ball. A Beleza Americana é a individuação solitária do herói de meia idade que encontra no arquétipo da anima garota de torcida, o chamado para a aventura que o tira da rotina insuportável.

Também é hora de observar a visão de Campbell em "O poder do mito", sobre a mulher. O mito, quer trate de homens ou mulheres, é sempre uma narrativa masculina. Surgiu com a sedentarização que se deu pelo fogo no gênero Homo. A sedentarização humana foi, sobretudo, a sedentarização da mulher, na caverna e no antigo protótipo de fogão. O homem, por razões de sobrevivência do grupo, se torna o caçador, passa a pertencer à irmandade aventureira do gênero masculino. Assim, os homens se intitulam mais importantes, pois arriscam a vida, passam a comer os melhores pedaços de carne e, assim, se tornam mais fortes na musculatura e passam a ditar as regras do grupo. Quando surgem as histórias e os mitos, são os homens que as inventam ou contam, para perpetuar uma ordem masculina da história. E é o que sucede desde sempre, o homem ditando como deve ser. O maior exemplo é a sociedade capitalista posto como ápice da humanidade. É o ápice masculino. Então, temos o real motivo de serem os meninos, e não as meninas, os iniciados na vida adulta. São os meninos porque eles devem ser os caçadores, eles devem dominar, e o grupo das meninas, que brincava junto com os meninos quando crianças ambos, não terá um rito e não ingressará em nenhuma irmandade. Não se deve à menstruação, se deve a uma estrutura de dominação masculina.

Outro ponto importante que deve-se debater, é o caráter político da ciência. Ciência é política, quem diz o contrário, é favorável à ordem vigente. E por mais que diga o contrário, sua obra é política. Podemos citar o exemplo ilustrativo da figura que disseminou esse conceito da ciência neutra, o positivista Augusto Conte, que apesar de delegar a favor de uma neutralidade científica, em toda a sua obra defendia a ordem da sociedade e do estado burguês. Desconheço o ponto de vista de Campbell sobre se a ciência deve ou não ser neutra, o que significa simplesmente um desconhecimento sobre uma postura hipócrita ou verdadeira do autor. Esse fato foi trazido apenas para dizer que Joseph Campbell faz política também, só não sabemos se admite. Faz política no sentido que, usa sua teoria da jornada do herói, da iniciação masculina na vida adulta, do chamado à aventura, para justificar as múltiplas guerras que os Estados Unidos participam. Ele alega que o jovem euano encontra nas forças armadas, a materialização do chamado para a aventura e passa a sentir, no exército, o enlevo de estar vivo ao participar de uma instituição maior e mais forte que ele. Diz com isso, que os "crimes de guerra" não devem ser julgados como crimes comuns, pois o soldado estaria cometendo-os enlevado por uma transe heróica, portanto a punição deveria ser menor. Talvez seja verdadeira a análise, talvez os soldados realmente tenham esse sentimento, portanto a análise estaria verdadeira. As a questão que deve ser levada em conta é que as guerras que os EUA participam são guerras falsas, causadas por motivos falsos, onde incitam um transe e um medo coletivo nos euanos, para justificar um modelo de dominação neoimperialista que na verdade só está preocupado com petróleo, mercado e hegemonia. E o "soldadinho americano", tão corajoso, querendo ser herói da própria vida, não é capaz de enxergar o que a guerra realmente significa e a mentira que ela é. Assim, ele participa, mata civis e até morre, no enlevo de uma ciência que o instiga a ser "herói", no intuito de proteger a "pátria", algo muito maior que ele.

Fantasmas estão aí aos montes, e suas leituras nos propiciam uma análise que é válida por muito tempo, e talvez pela vida toda, sem que os questionemos. É a vitória da anti-dialética. Mas sobretudo, os fantasmas estão aí para serem superados, porque a sociedade se move, e as verdades que pareciam lógicas, podem sucumbir, pois eram terríveis contradições.

 

Por Fernando Fantin Vono
Originalmente em:http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010/09/exorcizando-demonios-antigos.html