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Gustavo Hobold
Ensaio Sobre o Arbítrio (Parte I)
Escrito por Gustavo M. Hobold

O que é “fazer o bem”? Você pode me responder: fazer o que é bom para alguém ou algo que alguém gosta. Aqui começa minha indagação: se eu gostar de sofrer, quando você tomar um chicote e lascar meu couro, você estará fazendo o bem? Se você gosta de estuprar crianças, fazendo isso estará fazendo o bem a si mesmo?

Embora nesse texto eu não queira tocar no assunto religião, acredito que seja praticamente impossível alguém que lê não levar para esse lado, mas eu espero que as pessoas credoras consigam interpretar isso de uma forma a não levar para nenhuma crença pessoal. Meu objetivo aqui é questionar qual a origem do bem e qual a origem do mal. Da onde nasce nossa moral e por que nossas leis são definidas dessa forma: de fato, por que é errado matar uns aos outros, estuprar crianças ou até mesmo transar em público? O que há de tão intimamente errado nessas coisas que nos faz ter extrema repulsa?

Desde a origem da humanidade, temo-nos organizado em grupos, pois, de fato, a convivência é mais útil para nós mesmos do que a solidão, pois, no fundo, nós, seres humanos, somos criaturas extremamente selvagens e egoístas. Olhe a sua volta e absolutamente tudo que você faz é em benefício próprio: ninguém faz algo a alguém sem esperar algo em troca. Quando você dá um presente a alguma pessoa, por mais que não espere nada material em troca, quer o carinho desse indivíduo, pois esse afeto lhe faz se sentir confortável. De fato, não me retraio a dizer que toda a demonstração de amor é, de certa forma, egoísta. Mas está tudo bem, pois nascemos assim, nossa sociedade cresceu e desenvolveu em cima dessa ideologia e isso faz a maioria das pessoas sentirem-se confortáveis com sua existência.

Mas o que isso tem a ver com a essência de bem e mal? Bom, o que foi escrito no parágrafo anterior não possui muita relação se não a de descrever nossos instintos mais selvagens e suas origens, mas acredito que esse egoísmo (e não quero que isso seja retratado como algo ruim, pois de fato não é) está intimamente ligado com a origem do bem e do mal.

Fazer essa ligação é uma tarefa extremamente difícil e talvez até tediosa demais, pois é necessário muito estudo (que eu certamente não tenho, por isso chamo esse texto de ensaio e não de tese) sobre as diversas áreas da psicologia, história e filosofia humana (coisas nas quais estou longe de ser especialista, pois, de fato, minha área são exatas), mas me atrevo a cutucar certos desenvolvimentos com meu leigo conhecimento.

Para organizar ideias, vamos tomar uma certa tribo primitiva que, em nossa cabeça, será uma organização humana cujos integrantes jamais tiveram qualquer contato com os integrantes de qualquer outra tribo. Agora retrocedamos mais um pouco, tomando um único indivíduo constituinte dessa tribo e o chamaremos de fundador. O que levou esse homem ou mulher (ok, vamos supor que tenha sido um homem, realmente não faz diferença) querer realmente fundar (interprete fundar como algo completamente inocente, é claro, nada formal) uma comunidade? É aí que nosso egoísmo entra em cena. Sendo selvagem e possivelmente tentando transar com animais e até seres inanimados, encontrar o primeiro parceiro da sua espécie (homem ou mulher, tanto faz), sentiu-se provavelmente saciado com o sexo e quis tê-lo por perto para transar quando quisesse. Mas e se o homem tivesse sido zoófilo? Bom, ele poderia ter-se saciado com um lobo ou qualquer outro animal e o lobo, por sua vez, tê-lo devorado ou ele simplesmente teria parado de procurar um companheiro da mesma espécie, não se tornando o fundador da tribo.

Mas é claro que a busca pelos prazeres sexuais podem não ter sido a causa de sua busca por outro humano, mas decidi falar sobre isso e, de fato, não faz diferença qual “benefício” um poderia extrair do outro, mas instintivamente não haveria qualquer razão de um homem envolver-se com outra pessoa da mesma espécie se não estivesse procurando algo em troca, por mais que esse “algo em troca” seja o afeto do outro indivíduo.

Note que descarto aqui qualquer intuito metafísico ou chamado divino que poderia ter usado a união de elementos da mesma espécie para um objetivo prescrito, pois não chegaríamos em lugar nenhum e eu poderia simplesmente concluir dizendo que “uma entidade metafísica quis que o bem fosse tal coisa e assim se fez”. Meu objetivo aqui não é esse, mas sim descrever como o bem e o mal pode ser explicado através do estudo psicológico humano.

Então o homem conheceu o outro indivíduo e sentiu-se satisfeito. Percebeu que além do benefício que os fez unirem-se, podia extrair muitos outros, como mão-de-obra para serviços sobre os quais ambos poderiam usufruir. Então foram percebendo que sua sociedade poderia ficar ainda maior e mais beneficiadora, unindo mais pessoas a seu redor e, finalmente, fundando nossa tribo completamente isolada de qualquer outra comunidade humana a partir do egoísmo de uma ou duas pessoas.

Notando que sua tribo começara a ficar tão grande que perdera quase que total controle pessoal sobre ela, estabeleceu leis que julgara corretas, como, por exemplo, achando que a dor infligida a si era ruim, baniu a causa de dor alheia de modo que não fosse expurgado de sua própria tribo e perdesse seus benefícios.

A pergunta que deixo para a segunda parte é: e se o fundador fosse masoquista?