⌠ 33 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Fantin Vono
Neymar e as fofocas futebolísticas
Escrito por Fernando Fantin

___
Neymar como figura pública não é lá grande coisa. Não que não seja influente, haja visto a quantidade de garotos com o moicano igual ao dele, isto o é, apenas não parece querer usar dessa influência para defender opiniões ou ideologias, como o fez Sócrates. São outros tempos e de nada adianta começar uma análise a partir de um pressuposto vanguardista ou reacionário, seja de um grupo ou de uma pessoa, ou então cometeríamos o mesmo erro do FHC sociólogo. Não, o Neymar não se importa com política, e em sua entrevista com Kennedy Alencar, mostrou que prefere evitar questões polêmicas, seu negócio não é falando, mas sim com a bola no pé, e nas publicidades, claro está.

Porém, mesmo evitando escândalos, mesmo se esquivando das ciladas e joguetes, e palpites que armam para ele, é quase que inevitável que o nome do garoto não apareça, pelo menos uma vez por semana, envolvido em alguma polêmica ou especulação.

Dessa vez quem se manifestou foi o cartola corintiano, Andrés Sanchez. Para o presidente, o Santos já deveria ter vendido o jogador, porque a oferta era muito grande, aproximadamente 70 milhões de reais iriam para o clube, e com a renovação do contrato até 2014, além do Santos perder sua porcentagem sobre o direito de imagem, corre o risco de não receber nada pela venda do jogador.

Apesar do comentário ter soado como intragável para os ouvidos santistas, muitos concordaram com a ideia de Andrés, extremamente racionalista, do ponto de vista prático. Por mais que dê vontade de mandar Andrés à merda, sua ideia é perfeitamente entendida como normal, como nada absurda. Aliás, o fato de o Neymar ter ficado é que foi estranho, quando o normal seria ter ido para a Europa. Mas por que a ideia de Andrés não nos soa como uma ofensa, apesar de sentirmos essa pontada no estômago quando a ouvimos? Por que é de se esperar que os craques sejam todos exportados? Por que esperar que essa exportação de matéria prima brasileira seja a galinha dos ovos de ouro dos clubes?

Ora, tudo isso acontece por causa do discurso. Não existe o que seja normal, existe o que é ou não é normalizado. Acontece que é normalizado o modelo utilitarista de pensar as coisas, e também é normalizada a financeirização do futebol. Assim, os analistas esportivos na TV, internet e nos jornais, não conseguem fugir muito do formato de análise que esse modo de ver as coisas proporciona, por isso muitos concordaram com Andrés.

Porém, o que o cartola não consegue entender é que existem outros modelos de pensar, existem outras lógicas e, mais ainda, que o valor das coisas não está em si, no dinheiro que proporcionam, ainda vale muito mais, a honra e o prestígio. Ele não consegue entender que mesmo que o Santos saia sem nada dessa transação, terá valido muito mais o simples fato de ter mantido o Neymar no time.

Pode-se até dizer que o Luis Álvaro agiu com paixão, agiu irracionalmente, mas aí teremos que perguntar o que é a razão, e mais ainda, como ele foi construída. Só que com isso, corre-se o risco de ver que a razão é uma normalização.

Afinal de contas, mesmo nesse esporte extremamente capitalizado, ainda há coisas que contam mais que o dinheiro. Mas talvez Andrés saiba um pouco disso, que dirá da contratação do Adriano? A não ser que o interesse no Adriano fosse apenas nos patrocínios, aí a torcida mais fiel do país estaria muito mal representada.