⌠ 28 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Olhas

Fora o sorriso mais bonito que já vi. Dado assim, não de graça, mas por pouco. Seu semblante parecia-me cansado, suponho que de fato o estava. Dia de verão, sol a pino, transeuntes que vem e vão, que passam e não olham, que olham e não enxergam. Pessoas que julgam e não conhecem, e que, na verdade, nem querem conhecer. No entanto, se conhecesse, o que poderiam fazer? Saberia se, por ventura, desse o trabalho de tentá-lo. O fato é que não dá, o tempo não lhes permite, a pressa do dia a dia mal os deixam olhar que horas são, que dia é, ou até mesmo as últimas notícias do trágico noticiário. Afinal, o tempo não tem andado, tem corrido. E no entretanto, não há chance de olhar para os lados, para baixo, para um sorriso dado por pouco, muito pouco.
 

 
⌠ 26 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Ah, os devaneios...

Meus pulmões não são suficientes para abrigar todo o ar puro que quero guardar e levar comigo. Não o sinto sempre, por isso a vontade. Mas também não presencio sempre essa noite, não vejo sempre aquela estrela, a lua nem sempre me parece tão simpática. O ar, leve, entra por entre os caminhos que passam por dentro de mim e me mostram vida. Os pés soltos sobem e descem conforme o balanço da cadeira verde que, apesar de não ser tão confortável quanto a visão, é um apoio para apreciá-la. O livro no colo fechou-se por não receber tamanha atenção, e não é por minha culpa. Há tempos a concentração tem andado por outros caminhos. Caminhos distantes, desconhecidos, desejados. Os fones de ouvido já não emitem voz, apenas os toques de notas do piano e ondas do violino. As vozes da mente onírica já se faz completa. A noite é só um cenário propício, a cadeira um apoio físico para devaneios, a música sua trilha sonora, e os personagens... ao menos um se faz presente.

 
⌠ 46 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Ébris

A brisa que vem de lá de fora, passando por entre as frestas da janela e chegando a mim, dizem-me que já passou das sete da noite. O dia fora agradável, como todo dia de verão. O mar lá fora é convidativo, tanto quanto fora este sofá enquanto estava ébria. Noto gritos de crianças e um cachorro a ladrar lá fora. Percebo, também, alguém abrindo a porta, bem de mansinho, como se não tivesse a intenção de me acordar. Ouço seus passos cada vez mais próximos de mim e, segundos depois, um corpo a deitar sobre o meu. Cheiro salgado de quem há pouco veio do mar. Não se mexe, mas sinto sua boca em minha nuca, enquanto sua mão agarra-se à minha.

"The ocean takes me into watch you shaking
Watch you weigh your power
Tempt with hours of pleasure"
 
Conheço-te, sei que não se contenta em apenas repousar seu corpo sobre o meu. De forma suave sinto sua mão soltar-se da minha e escorrer por essa coisa quente a que chamam de pele. Não vejo, apenas sinto. Seu toque é tão suave que o compararia com o toque do vento que na janela bate. Perpassa seus dedos por sobre meus seios, que dantes estavam pressionados contra os teus e, quando chegam em meu ventre, sinto o desejo aflorar por meu corpo. 
 
 
"I watch you taste and i see your face
And i know i'm alive
Your shooting stars from the barrel of your eyes
It drives me crazy
Just drives me wild"
 
 
Sinto num beijo íntimo emergir o desejo de uma mulher devassa. Floresce em mim a necessidade de reciprocidade, mas meu corpo já perdeu sua força e está vulnerável ao que quer que o faça, que você faça. Lá fora, o grito das crianças parecem-me mais alto, minha cabeça parece aprisionar algo que, por sua vez, age como se estivesse a comer meu cérebro. E então acordo.
 
 
⌠ 29 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Do mero passeio à menos digna atitude

"Onde é que eu li aquilo de um condenado à morte que no momento de morrer dizia ou pensava que se o deixassem viver num alto, numa rocha e num espaço tão reduzido que mal tivesse onde pousar os pés - e se à volta não houvesse mais que o abismo, o mar, trevas eternas, eterna solidão e tempestade perene -, e tivesse de ficar assim, em todo esse espaço de um archin, a sua vida toda, mil anos, a eternidade... preferiria viver assim do que morrer imediatamente? O que interessa é viver, viver, viver! Viver, seja como for, mas viver! O homem é covarde!"

Pois então, decidi começar o texto com este trecho de "Crime e Castigo", de Dostoiévski; e também com a seguinte premissa: todos nós recebemos educações distintas. Portanto, criamos uma visão diferente do mundo e das coisas que acontecem ao nosso redor e além. Tendo em vista estas duas introduções, conto-lhes uma situação que aconteceu comigo no dia de hoje...


Como o dia estava propício para, resolvi dar uma passeada pelo bairro com minha cachorra e sua fugaz vontade de andar pelas ruas a fim de gastar toda sua energia. Pois bem, andamos até um pouco adiante da  esquina e com os pingos de chuva a cair pelo céu acinzentado, demos meia volta e viemos embora. No meio do caminho, porém, encontro uma colega que há tempos não via e, mais por educação do que por sentimentos aliados à saudades, decido ficar para batermos um papo.

Assuntos sobre família vão, outros sobre shows, reveillons e praias vem... E então, seu irmão, que apareceu depois de um tempo, começa a comentar sobre as pessoas mal vestidas, com seus objetos de trabalho - quinquilharias, daquelas que vendem de porta em porta para conseguir dinheiro no fim do mês, do modo mais honesto possível -, a descer e subir pela rua a qual estamos. Deixe-me então ambientalizá-los: enquanto o assunto introduzido pelos mesmos eram carros luxuosos, viagens, baladas e afins, um senhor negro, de barba por fazer, cabelos emaranhados e maltrapilho, aparece à nossa frente do modo mais gentil possível, apesar de carregar em sua face certo receio, e nos pergunta: "vocês, por acaso, não teriam comida pra me dar?" Antes que fossem grossos com ele, o que, por algum motivo, eu imaginei que fosse acontecer, respondi: "poxa, eu não moro aqui, e eles estão em casa sozinhos, não têm comida feita." Logo, ele se foi.

Bom, se tivesse ficado por aí e eu tivesse levado para casa apenas o maldito arrependimento de não ter andado alguns metros até minha casa e pegado qualquer bolacha que fosse, qualquer coisa que desse pra comer naquela hora.... mas não, eu evitei a grosseria para com o pobre senhor, mas não os comentários que vieram logo após sua ida. "Eles pensam que é tudo fácil! Que as coisas são conseguidas assim, com uma perguntinha, apenas". Mas... o quê?! Desde quando aquilo foi fácil? Desde quando a vida dele é fácil? Não foi preciso trocar algumas palavras com ele para concluir que de fácil sua vida não tem nada. Mas tudo bem, vamos trabalhar com a hipótese de que ele consiga se alimentar facilmente dessa forma, que ninguém o rejeita e que não passa pela mente de ninguém que ele seja um mero trombadinha dando uma desculpa para roubá-lo assim que der mole. Tenho a certeza de que ter passado por seu orgulho, tendo em vista todo o seu trajeto de vida e, sem sombra de dúvidas, suas revoltas para com a sociedade mesquinha-egoísta-hipócrita-etc (e, mais uma vez, sou certa disso sem ter trocado ao menos uma palavra com o sujeito) não fora nada fácil. A fome nos deixa irracionais e decerto este é o motivo pelo qual ele se sujeita, sabe-se lá quantas vezes por dia à essa atitude tão humilhante, e ainda assim, com seu jeito todo educado e até fazendo brincadeiras.

Não quero comentar as coisas racistas que ouvi, as comparações ridículas com animais, dentre outras ignorâncias. Não me pronunciei, fiquei calada. Talvez eu pudesse fazer todo um discurso de cunho político, moralista, histórico etc., mas sei que isso não mudaria um pensamento que, como bem sei, já é de família. Ademais, dificilmente discuto e ponho na mesa minhas opiniões.
Voltei então com três arrependimentos, oúltimo eu carrego sempre, que é o de não me pronunciar ao ver tais situações. E assim vamos, convivendo com pessoas de tais pensamentos, que passam o tempo a falar de futilidades materialistas e na primeira necessidade... Bem, vocês já sabem.
 

 
⌠ 39 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Belatriz

Beatriz era bela. 
Daquelas moças jeitosas, 
com seu vestido florido, 
sua pele alva, 
seus cabelos claros como o céu em dia de verão que 
fazendo par com aqueles olhos, 
a deixava ainda mais reluzente. 
 
Quando menina, 
as primeiras notas de sua vida foram as do piano. 
Antes mesmo de aprender a tocá-lo, 
já se entretinha a brincar com o charmoso instrumento. 
Charmoso como Beatriz tornou-se quando já grande.
 
Sua voz, macia, agradava a todos os ouvidos a que chegava. 
Beatriz tinha um bom gosto para a música. 
Mas não era só as melodias que tinham o privilégio de tê-la como guia, 
a poesia também a tinha. 
Se encontrava nos versos e se perdia, também. 
Passava horas a fio a escrever miliuma estrofe. 

Encantava-se com as histórias dos livros, 
porém, apenas com contos fantásticos
e aquelas ficções cheias de imaginação. 
Não gostava da realidade, não. 
Dizia que o mundo real não a fazia bem, e ainda indagava: 
viver na imaginação, que mal isso tem?!
 
Beatriz, aos dezesseis anos, foi uma exímia bailarina. 
Rodopiava, 
saltitava, 
dava piruetas no chão. 
Durante os três anos de aula, 
dedicou-se às sapatilhas como o utópico se dedica aos seus sonhos.
 
Do palco do ballet, 
foi para o do teatro. 
Beatriz virou atriz. 
Encenou, 
encenou, 
e brincou com a imaginação alheia. 
Brincou de ser várias personalidades, 
achando sê-los de verdade. 
Beatriz acreditava mesmo ser aquela que se vestia.
 
Um dia, vi Beatriz no Teatro Municipal. 
Mais linda não consegui imaginá-la. 
Seus cabelos tornaram-se mais escuros, 
seu corpo mais curvo, 
sua feição mais marcante. 
Tinha tornado-se uma mulher. 
 
Será que ainda com os mesmos devaneios? 
Será que ainda tinha tamanha imaginação?
 
Ah, me leva para sempre, Beatriz.
 
 
⌠ 38 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Studio Brussel: Agnes Obel - Riverside

 
 
⌠ 53 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Versos porque te quero bem

O que me atrai em ti, menina?
És tão mimada
Que quer que o mundo faça teus gostos.
Persuade-me com esse teu sorriso doce,
E me ganha com esse jeito forte.
És rebelde quando não consegue o que quer.
Se fosse  criança, até bateria o pé.

O que é que me atrai em ti, menina?
Tens um jeito todo infantil de encarar a vida
Olhas para teu belo mundo
E ainda assim reclama do que tens
Mal sabes tu, do mal que lá fora vem.

Mas o que é que me atrai em ti, menina?
Te vejo dançar, quase a saltitar
Suave teus passos
Doce teu beijo
Quente é teu abraço.

Pois então, lhe digo, menina
O que me atrai em ti
Não são teus defeitos
E nem mesmo tuas qualidades

O que me atrai em ti
É você, menina. 
 

 
⌠ 40 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Presente deixando o passado

O cheiro de verde, ressaltado pela umidade relativa do ar que faz com que as plantas ao meu redor exalem o que tanto me agrada, está presente nesta agradável tarde. Gostaria que sempre fosse assim. Todas as tardes: esse céu azul, essa sombra fresca, esse cheiro, um bom livro, uma música agradável nos meus ouvidos e uma sensação de que está tudo resolvido. As coisas estão indo muito bem por agora, afora algumas complicações cotidianas e esse péssimo hábito de me preocupar e me precipitar demasiadamente.
Tenho me afastado, sim, de muitas pessoas. É proposital, portanto não se sinta mal ao pensar que o meu "também senti saudade" seja mentira ou um equívoco. Realmente o é. Sabe, por muito tolerei coisas desagradáveis apenas por achar que estava sendo uma chata ranzinza, porém, agora, vejo que o primeiro adjetivo ali não cabia à mim. O segundo, confesso que sim.
O ciclo normal da vida é que as coisas mudem num longo ou curto prazo. Isso foi ocorrendo comigo aos poucos, pouquinhos, e agora já está na cara. Não venha me dizer que estou sendo sem coração, insensível, ou qualquer coisa que nomeie quem é realista nestes momentos; o fato - diria irreparável - é que não somos mais os mesmos. E, portanto, devemos confessar que a culpa não foi nossa. Foi indiretamente, talvez. Mas não vejo motivo para a raiva. Sejamos sinceros com os fatos, com os casos, conosco. Afinal, seu caminho é totalmente diferente do meu, o que torna isso mais do que normal.
Todas essas palavras, é claro, não demonstram o quanto eu sentirei falta. Mas, tal como tudo isso que disse, também sei que tudo o que era divertido antes, não será mais. Pois temos pensamentos diferentes, modo de vida também. Memórias boas fazem bem, e eu prometo me esforçar para guardar as nossas. Apesar de ser racional, falta-me um lugarzinho para guardá-las, porque sempre as perco por aí. Guardarei também as fotos, se o tempo e o desleixo não fizer com que eu as perca. As cartas sei que ficarão ali, no cantinho que quase não mexo. E bem, os sentimentos, esses sei que não perderei. Minha memória emotiva cumpre bem seu trabalho.
Te vejo nas próximas férias, amigo.
 

 
⌠ 30 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
Corpo num, alma noutro

Nada mais lhe importava. Pegou suas coisas daquele lugar e foi para outro mais calmo pensar sobre sua vida. Analisou-a minunciosamente e, a cada pensamento diferente, sua raiva aumentava mais, até chegar ao ponto de colocar seus fones de ouvido a fim de cessá-los, pois estes já começavam a impulsioná-lo a tomar atitudes indevidas. O fato é que estava cheio da rotina que levava, cansado de conviver com aqueles amigos, com sua namorada e suas idas ao shopping ou a qualquer droga de lugar que lhe trazia tédio ao invés de entreter. 
Enclausurou-se por um certo tempo em seu quarto, com seus livros e o fiel fone de ouvido. Porém, o afastamento começou a incomodá-lo, sentia falta do calor humano, dos afagos, das risadas. E, além do mais, já até havia se esquecido do que tanto o incomodava nas pessoas. Entretanto, ao voltar a frequentar sua roda de amigos, notava certa diferença entre eles e muita indiferença para com seus assuntos. Ou seja, aquele tempo que passara distante, fez com que se esquecesse dos péssimos defeitos, mas o tal encontro, após tanto tempo, mostrou-o que isso só piorara.
Sentia-se deslocado diante daquelas pessoas. Todas com interesses tão fúteis, discutindo coisas ridículas ao seu ver. Passou a ter aversão por aquele ambiente. O que anos atrás o agradara tanto, agora dava-lhe apenas momentos tal qual aqueles filmes de comédia de quinta.
Lembrou-se, então, que há muito tempo atrás planejara mudar-se para a cidade a qual admirava desde muito pequeno. E foi a partir daí que iniciou o culto à indiferença para com essas pessoas de sua cidade. Talvez não fosse mais para estar aqui. Gostaria de não mais estar aqui.

 
⌠ 33 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Patrícia Weber
O Rapaz do Metrô

Estamos numa sexta-feira, daquelas bem-vindas por pessoas vazias de mentes cheias de reclamações, em que tudo o que querem é jogar suas mágoas em um copo de cerveja. Não obstante a noite agradável, não sou da mesma opinião de tais. Talvez porque não tenha suas ocupações, carregadas de estresse e ressentimentos por fazer uma atividade na qual não lhe dá nenhum prazer. Pois bem, sendo assim, o presente dia é para mim tal qual como os outros o é.
Esta sexta-feira, em especial, fora um tanto quanto desanimada. Por conta da companhia, do lugar, do ambiente, não sei. O fato é que me encontro parada em frente àquela faixa azul das estações de metrô, pensando em como vou conseguir chegar a tempo em casa sem que precise levar broncas e sermões de meus pais. Enquanto espero o trem, ouço alguma música da minha lista de reprodução preferida e observo as pessoas ao meu redor. Pessoas que andam de metrô são, particularmente, diferentes das que andam de ônibus na minha cidade. As diferenças são claras, o motivo para tê-las não tanto. Secretamente, digo-lhe que me encaixo mais nesses certos tipos de pessoas. Não quero ser preconceituosa, seletiva, nem nada do tipo. É questão de sentir-me melhor num ambiente que em outro. Elas são quietas, permanecem quietas por toda a viagem. Observam virando-se disfarçadamente, às vezes apenas com o olhar. É engraçado; é como se fosse errado observar os outros, então elas o fazem de modo que o outro não a perceba. E quando seu interesse não é ver o mundo ao redor, ou porque está muito exausto ou porque não lhe interessa, lê seu livro e escuta sua música, como se estive em um mundo a parte. Por ter esse convívio frequente, acabei pegando tal costume.
Porém, hoje não tenho um livro para me enclausurar em meu provisório espaço. Sendo assim, não tenho outra opção além dessa: observar. Enfim meu trem chega, entro e me acomodo no primeiro banco vazio que vejo, quase em frente à porta do lado esquerdo. "So strange how everything went wrong so fast (...)" é o que ouço logo após sentar-me, vindo daquela lista que havia dito.
Passadas duas estações, uma música e três assuntos distintos no meu pensamento, noto à minha frente, ao lado da porta, uma pessoa que acabara de sentar-se. Um rapaz de aparência misteriosa, mais do que essas que encontramos nos metrôs. Está todo de preto, sentado de uma forma inaceitável para os modos formais. E, depois de algum tempo, percebo que observa-me incisivamente. Volto para meu dispositivo de música, mudo para a próxima - sei que o fiz para disfarçar. De uma forma geral, não gosto de ser observada, então sempre que acontece, procuro fazer algo que me disperse para disfarçar a timidez. Passados alguns minutos, olho novamente, e lá está ele a olhar-me. Dessa vez, encaro-o por mais tempo que quando o notei, mas mais uma vez desvio o olhar.
Digo-lhe que, não sei o exato momento, mas quando dei por mim, já estávamos naquele joguinho de "me olhas, eu desvio, olho-te, tu sorris, desvio o olhar, sorris mais ainda". A essas alturas, já não identificava mais que música estava a ouvir e que estação seria a próxima. Me entreti nesse joguinho que confesso ter sido melhor que um livro. Não penses que sou fútil por achar isso, o fato não é esse. Clichê, talvez. Mas veja bem, viver o clichê de uma boa história de filme ou livro faz bem a qualquer um, não é?! Diga-me o contrário e direi-te que mentes para si mesmo só para tentar ser diferente dos demais.
Algumas estações a frente, levantou-se e se dirigiu até a porta a sua direita. De costas para mim, olhava-me com o canto do olhar, parecendo esperar por uma atitude - que não veio. Talvez não fosse pessoa de primeira atitude, talvez já estivesse cheio de tomar essa tal atitude e se cansado de embebedar-se com os nãos. Na estação seguinte, desceu do metrô, olhou-me rapidamente e, maldita miopia que não me deixou ver nitidamente a expressão de seu rosto. Pouco antes da porta se fechar, fez com os ombros e braços aquele gesto que fazemos quando algo não dá certo, ou como se expressa "não foi dessa vez". Porém, entre esses dois momentos, disse algo que fez o rapaz ao lado olhá-lo de modo estranho, como quem pensa "o que esse cara está dizendo?" e que me faz perguntar a mim mesma até hoje: "mas o que será que ele disse?!". Malditos fones de ouvido.