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Fernando Fantin Vono
Afinal, qual é o verdadeiro problema?
Escrito por Fernando Fantin

Um dos males da liberdade de impressa é que qualquer um pode falar o que quiser, arrumar um veículo que divulgue suas opiniões e elas passam a ser verdades, quando não, reproduzidas sem uma sujeição à crítica. Nesse mesmo veículo, no Comércio, um colunista, cuja opinião não coincide necessariamente com a do jornal, fez um elogio ao modelo econômico do capital e às benesses da iniciativa privada em texto intitulado "Economia privatizada é o caminho para o progresso". Pode até o ser, somente se o progresso da humanidade for o caos, o fim da humanidade. Não precipitemo-nos em colocar a carroça na frente dos burros, ponhamo-nos a desenvolver a idéia, para submetê-la à prova.

O texto de que falamos, conclui que o ato de "empreender compete à iniciativa privada", sendo que o estado deve somente conter-se em fiscalizar, ou regulamentar essa iniciativa privada, que solucionará o problema do mundo através de, nas palavras de Ometto, "empresas privadas bem geridas, rentáveis, socialmente justas a e ambientalmente corretas". Aponta essa solução uma vez que, segundo ele e corretamente, "o mundo – incluindo o Brasil – não abdicou do capitalismo como o meio para a prosperidade", porém, completa, "Não há espaço para esse tipo de distorção num mundo que precisa desenvolver novos processos manufatureiros menos poluentes, garantir a segurança alimentar, reverter as mudanças climáticas, viabilizar a previdência e a sobrevivência digna dos idosos e educar os jovens." Se referindo à "economias estatais" ou que quer que se entendam por isso.

Tal elogio ao capitalismo, entretanto, não nos aponta como esse mesmo sistema, cuja essência é mercantilização de relações, pessoas e coisas, pode solucionar as contradições (o autor do texto se refere a elas como meros problemas, é a vitória do pensamento anti-dialético) que ele mesmo criou, quando não o são intrínsecas. Duvide o leitor se o quiser, mas tão somente após responder se a poluição não é produto do excesso de mercadorias que nos empurram e do processo de produção das mesmas? Se a fome não se dá justamente porque a maioria das terras são ocupadas com monocultura (responda o contrário quem olhar em torno e não ver apenas cana)? Se a França não está a mandar uma mensagem aos velhos do mundo todo, de que estão vivendo demais e a culpa e deles, terão que trabalhar mais para compensar, mesmo que 20 milhões de pessoas discordem e saiam às ruas para reclamar?

Tal constatação nos obriga a adentrar na essência do que hoje chamamos iniciativa privada. Uma visão superficial das aparências pode sugerir que as empresas sejam boazinhas, através do mito da "sustentabilidade" e do "socialmente justo". Por que as chamo de mitos? Porque, me perdoem os otimistas, mas mesmo que as "empresas sustentáveis" tivessem uma produção inteiramente limpa, o que não se dá na prática, ainda assim, o consumismo excessivo transformado em necessidade pelo "american way of life", culmina num consumo elevado de recursos naturais e numa superprodução de lixo. E o conceito de socialmente justo, se perde quando constatamos a presença de trabalho escravo aqui mesmo do nosso lado, em Ribeirão Preto. Não se pode falar em justiça quando a relação patrão empregado é fundada em trabalho alienado e mais-valia. O autor do texto poderia chamar esses conceitos de obsoletos, mas não pode negar que o empregado recebe menos do que produz e que o objeto de sua produção não pertencerá a ele.

Que os governos ditos socialistas não deram certo na prática, isso é fato histórico, talvez excetuando Cuba, como se refere o texto, um caso isolado. Mas tem-se que ver que, de fato, não vieram a romper com as estruturas capitalistas de modo definitivo, então não são válidos como exemplo. Afirma Ometto que os "desafios do presente século" devem ser vencidos pela iniciativa privada empreendedora, não um modelo atrasado socialista. Torçamos para que essas empresas não resolvam empreender demais, que a natureza e a humanidade já não agüentam mais esses supostos benfeitores empresariais. A máscara sustentável e socialmente justa é muito singela, veste bem e ameniza a situação melhor ainda, mas não passa duma máscara, aceite-a quem não tiver estomago fraco e consegue digerir bem a miséria e a destruição do planeta. O "problema" é realmente emergencial, mas a solução, essa só será verdadeira se estrutural.

 

Por Fernando Fantin Vono

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2010_11_01_archive.html